“Não são livres”.


Há coisas com importância em si mesmas, mas ainda maior do ponto de vista simbólico. Maria João Pires há mais de 10 anos, julgo, que não toca em Portugal porque não quer, porque se recusa. Este facto aparece como sintoma patente do funcionamento dos meios culturais portugueses e, sobretudo, mostra o estado do seu espaço público, nesta área: um lugar sufocado pelo medo e o compromisso. Ninguém fala deste assunto em nenhum media. Não são livres. Querer saber as razões (não as sei) seria talvez delicado para o meio musical institucional. A figura mais marcante do século XX e até hoje no seu campo, o primeiro Prémio Pessoa, quando este tinha maior significado, continua a ser quem era, faz concertos, mas não quer tocar aqui. O silêncio é a regra obediente, dirigida pelo medo do indizível, do inexplicável, do inaceitável.

António Pinho Vargas

Comments

  1. JgMenos says:

    ‘um lugar sufocado pelo medo e o compromisso’
    Há um lugar, lá para os lados da fronteira de Segura, onde era suposto criar-se um paraíso musical.
    No meio de nada um retiro e uma academia – já lá estive há uns anos atras.
    Havia dinheiro e havia regras, como é de uso quando o dinheiro é público.
    Faltaram regras e faltou dinheiro e a senhora amuou.

  2. Gosto muito de ouvir Maria João Pires. Por circunstâncias da vida nunca consegui ouvi-la em concerto ao vivo. O facto de ser uma grande pianista e uma grande artista não significa que tivesse obrigação de ser boa gestora. Não o foi. Na América os artistas aprendem gestão. Nunca percebi em que é que o país lhe fez mal. Não abriu os cordões à bolsa? Conheço em Portugal muitos carolas que fazem milagres no campo da música e ninguém quer saber. Alguns com projetos parecidos a Belgais. Refilam, protestam mas não amuam. Isso só é permitido às primas donas.

  3. …não é o país que é pequeno, mas sim as mentalidades de algumas pessoas, conforme verificamos com tais comentários. Lamentável. :((

    • Conheço um intérprete que singra numa carreira de sucesso pelo mundo fora, que sendo ainda um jovem intérprete mas já uma grande promessa, foi a Belgais e foi destratado e humilhado. MJP é uma excelente intérprete. Não significa que tenha razão em tudo.

  4. JgMenos says:

    Aí vem o chorrilho dos lambe-botas do correctês!

    • ZE LOPES says:

      Para variar, pelo menos até agora, parece que V. Exa. está bem enganado. Como é habitual, aliás!

      Portugal saíu do lixo! Portugal saíu do lixo! Nhã, nhã, nhanha!

      O Coelho é mentiroso! O diabo não veio! Nhã, nhã, nhanha!

      Se a Senhora não quer dar concertos em Portugal não dê! Nha, nha, nhanha!

      • JgMenos says:

        ´´O nhanha Lopes, mentiroso és tu e a tua geringonça.
        Então fazem um orçamento que traz o diabo e a meio do jogo cativam-no e dão uma borla fiscal em benefício do infractor para aumentar a receita, e aumentam as dívidas para dar conta certa?
        Sabes disso há muito mas como a tua técnica e dos teus apaniguados lambe-cus-geringonços é repetir a mentira até que seja verdade, continuas e continuarás com esse mantra.
        De nhanha não se pode pedir mais.

        • ZE LOPES says:

          “Era uma vez três meninos muito esquerdalhos que resolveram governar. Como não sabiam como chamar à sua união, um senhor que escreve na conhecida folha de couve eletrónica “Mirone” resolveu dar uma ajuda e apelou-a de geringonça.

          Foi então que os esquerdalhos acordaram numa tática sinistra para envergonharem os honestos e impolutos cidadãos que, pondo dinheiro do seu bolso, tinham livrado o país da bancarrota.

          Fizeram então um pacto com o Diabo para os ajudar a fazer um orçamento diabólico em que prometiam dinheiro à fartura para toda a gente.. Conseguiram iludir a todos menos a um arguto coelhinho que, topando a marosca, logo a todos avisou: “ponde-vos a pau, que em setembro vem aí o diabo”..

          Atrapalhados, os geringonços, que ninguém consegue ultrapassar em perfídia, resolveram cativar o Diabo, deixando o pobre do coelhinho sem saber o que fazer. E pior foi ficando à medida que aconteciam coisas estranhas como empregos que saiam do nada, défices que desapareciam e até uns senhores estrangeiros que declararam o país limpinho.

          O que muito preocupou o coelhinho que cantava numa melodia triste:

          Com o sucesso desta geringonça
          Não estava eu a contar;
          Vou mas é voltar para a toca,
          Antes que perca o lugar”.

          Os seguidores do coelhinho, espumando abundantemente, atiravam irados anátemas aos geringonços: “Cativar o Diabo? É batota!”.

          E viveram infelizes para sempre.

        • ZE LOPES says:

          O quê? Cravaram-lhe mais quatro bandarilhas? Isso não se faz! Vou já ligar ao Inteligente para mandar entrar os forcados antes que os “diestros” esquerdalhos deem cabo de si.
          Tem toda a razão em protestar! Isto não se faz a um peão de brega com a valentia demonstrada por V. Exa!

  5. ZE LOPES says:

    Eu andava lá por Castelo Branco quando a Dona chegou a Belgais. O projeto até era interessante, mas a Senhora pensava que todos os locais, poderes ou não, lhe deviam beijar a fímbria do manto. Aquilo era a prioridade das prioridades, sob pena de mudar de nacionalidade. Parece que lá fora é que era bom, mas acabava sempre por ficar…

    Quando, por vezes, não lhe aparavam o jogo, dava umas entrevistas. Numa delas disse que o problema estava na falta de cultura dos provincianos locais que, de música só conhceriam o dó…de porco!

    Além do desprezo pelo mundo dos enchidos, que exigem mais arte do que ela pensa, a Senhora revelava outros, pelo esforço dos vários agentes da cultura musical local – por exemplo, um senhor maestro chamado Luís Cipriano, que à altura dinamizava uma orquestra Orff de grande nível – e mesmo pela cultura popular, já que a música de expressão tradicional da zona raiana é uma das grandes riquezas culturais do país. Basta ouvir (o que vai restando) das adufeiras de Monsanto ou Penha Garcia para entender o que afirmo.

    Segundo a Senhora, ninguém deveria ter a ousadia de por as mãos em cima de um teclado se não estivesse apto a tocar todas as sonatas de Mozart ou os estudos de Chopin, neste caso incluindo os seus concertos para violino trazidos ao conhecimento por esse grande musicólogo chamado Santana Lopes. E quem diz num teclado, diz também assoprar num trombone ou esfregar as cordas de um violino. Ou se nasce sobredotado, ou não interessa.

    É por isso que se recusa a tocar em Portugal. Tem medo de, ao entrar em palco, ouvir brados da plateia a pedir que cante o “Fado do Embuçado”, tal a incultura reinante. E tem razão: veja-se o caso da Gulbenkian que, no verão, até importa uns senhores americanos para virem cá bater em peles e assoprar em cornos. Só de pensar nisso, até lhe dá jazzia!

    E lá fora é outra coisa. Toda a gente consegue distinguir, no piano, um dó sustenido de um ré bemol. Se um gajo acerta mal na tecla, pedem logo o dinheiro do bilhete de volta! Pelos vistos a Senhora tem acertado, porque há dez anos que por lá anda. Atrevo-me até a dizer que já deu mais concertos que os golos do Eusébio, e mesmo do Cristiano Ronaldo. O que só prestigia o país lá fora. Por isso não é precisa cá dentro.

    Mas, numa coisa estou de acordo: se não deixaram sair os quadros do MIró, que até nem era português, como deixaram saír a Senhora? É necessário um rigoroso inquérito!

    Fico por aqui. Tenho ali uma morcela a assar para o pequeno-almoço, que vou comer ao som dos “Greatest Hits” do Quim Barreiros.

  6. Reconheço o talento da Maria João Pires. É uma excelente intérprete, está bem acima do “average” nacional.
    Mas a senhora fez toda a carreira apenas com o repertório canónico. É alguém completamente irrelevante para a música portuguesa (mesmo se nos limitarmos ao universo da música de arte, ou erudita, ou clássica, ou que lhe quiserem chamar). Nunca fez nada pela música portuguesa, nem sequer pensou alguma vez em utilizar o prestígio que adquiriu (com grande mérito) para divulgar a música portuguesa. A sua contribuição para a cultura musical portuguesa é nula.
    Muito estranho que o Pinho Vargas, um dos maiores e mais bem fundamentados críticos do domínio absoluto do cânone musical que sufoca tudo o que existe para além desse cânone, venha agora lamentar-se pela pianista.

    • Nella Maissa, que não era portuguesa, fez integrais de música portuguesa e estreou compositores portugueses contemporâneos. Em 2008, com 94 anos de idade, já com Maria João Pires fora de Portugal, ainda deu um concerto no país que amava e considerou seu.

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