Desenganem-se aqueles que julgam que daqui sairá alguma acusação de que Cavaco Silva foi um politico corrupto, até porque todos sabemos que seria preciso, ao comum dos mortais, nascer duas vezes para ser mais honesto que o político mais político de todos os políticos, que apesar da sua condição gosta de falar dos políticos e da situação deste país como se não fosse nada com ele.
Acontece que, e à luz dos mais recentes desenvolvimentos em torno da operação/processo/caso Marquês, sabemos hoje que existem fortes indícios – vá, vamos todos fazer de conta que respeitamos o princípio da presunção da inocência – de que Ricardo Salgado abriu os cordões à bolsa para corromper grandes figurões como José Sócrates, Zeinal Bava e Henrique Granadeiro, apenas para citar alguns nomes. E que, para aqui chegar, foi preciso mover mundos e fundos, que levantam questões pertinentes sobre aquilo que parece a microscópica ponta de um gigantesco icebergue.
Temos, portanto, duas hipóteses: acreditar que os arguidos do caso do século, que surgem em tudo o que é processo polémico, são os únicos potenciais corruptos deste país. E aqui não me refiro à pequena corrupção autárquica, ou tampouco à corrupção costumeira que gravita em torno da Assembleia da República, mas à grande corrupção que envolve as mais altas figuras do Estado, das grandes empresas públicas e da nata do sector privado. A outra hipótese, menos ingénua, a meu ver, é olhar para o país que temos, e perceber que andamos há décadas em danças de cadeiras, caracterizadas por contratos ruinosos para o Estado e rendas apetitosas para o sector privado, no âmbito dos quais, com elevada frequência, vemos ex-políticos enriquecer de um dia para o outro, não raras vezes após passagem por ministérios e secretarias de Estado onde proporcionaram, das mais variadas formas, fabulosas mais-valias para os seus futuros empregadores.
Posto isto, e terminando onde comecei, reitero que não pretendo acusar Cavaco Silva de ter sido um político corrupto. Cavaco Silva desiludiu e envergonhou o país de múltiplas formas, é certo, mas se foi ou não corrupto, é algo que, estou certo, nunca saberemos. Mas sabemos, por exemplo, que a família Espirito Santo foi a principal financiadora da campanha presidencial de Cavaco Silva em 2006, com um total de 152 mil euros. Que para além de Ricardo Salgado, também José Manuel e Manuel Espírito Santo, bem como António Ricciardi, doaram o valor máximo permitido por lei (22.482€) à campanha de Cavaco, a que se juntaram outros donativos de altas figuras do grupo como José Maria Ricciardi ou Rui Duarte Silveira.
Sabemos também que este apoio se repetiu na recandidatura de 2011, ainda que de forma mais avultada, com a campanha de Cavaco Silva a arrecadar a módica quantia de 253.360 mil euros, doados por um conjunto de administradores e altos funcionários do universo GES, que incluiu os repetentes Ricardo Salgado, José Manuel Espirito Santo e António Ricciardi, mas também outras figuras de destaque como Amílcar Morais Pires e Joaquim Goes.
Acresce a isto, e com esta me vou, que já o barco afundava, em meados de Julho de 2014, e eis que Cavaco Silva, o Honesto, declarava ao país que os portugueses podiam confiar no BES, apenas para, dias depois, se sujeitar à patética figura de se desmentir, acusando a jornalista com o confrontava com as suas declarações de estar a mentir, mentindo. Um frete destes é obra, não é? Depois dos mais de 400 mil euros que a cúpula do GES gentilmente cedeu às suas campanhas presidenciais, dá para desconfiar, não dá? Afinal de contas, de uma forma ou de outra, ele parece estar em todas. Será que nos contaram tudo sobre a longa relação entre Ricardo Salgado e Cavaco Silva?