A degradação das instituições públicas


Despacho do Presidente da Câmara de Gaia, Eduardo Vítor Rodrigues

 

O episódio recente ocorrido com a página oficial do Ministério da Administração Interna, que publicou uma ligação de acesso a um blogue que classifica o actual Presidente da República como “Jumento”, é um sinal muito preocupante da falta de urbanidade que se atingiu no seio das instituições públicas e do modo como elas se relacionam entre si.

Se pode aceitar-se o texto do blogue em causa, mantido por um cidadão, ou conjunto de cidadãos, que não se apresentam como estando investidos em funções, públicas ou privadas, que os obriguem a um outro nível de recato, já não se admite o mesmo a um órgão de soberania, no caso, o Governo da República, representado no Ministério da Administração Interna.

Este tipo de boçalidade institucional é totalmente incompatível com a gravidade – no sentido de gravitas – que se exige às instituições públicas, bem como aos seus transitórios representantes, pelo motivo evidente, não relevando nenhum dos outros, de ser neles, nos representantes e nas instituições, que o cidadão comum assimila o exemplo que vai fazer reflectir na sua própria civilidade e no seu exercício quotidiano da cidadania.

A verdade, porém, é que à pompa dos rituais protocolares do Estado e das grandes formalidades e construções cénicas com que esse Estado se apresenta aos cidadãos, nem sempre corresponde uma verdadeira consciência, por parte dos representantes do poder, do dever que lhes cabe de oferecer aos que representam o exemplo público da sobriedade e de serem dignos dos cargos que exercem.

O exemplo paradigmático que ilustra este pequeno texto vem de Vila Nova de Gaia, autarquia cujo presidente, Eduardo Vítor Rodrigues, se prepara para ser nomeado Presidente do Conselho Metropolitano do Porto, o órgão deliberativo da Área Metropolitana do Porto que congrega os presidentes de 17 câmaras municipais. Dono de uma invulgar capacidade para se movimentar na lama do discurso, Eduardo Vítor Rodrigues já presenteou os cidadãos gaienses que representa, ou deveria representar, com pérolas da linguagem de andaime que são hinos à mais rasteira boçalidade. Desde um (peço desde já desculpas pela linguagem reproduzida) “Se um dia precisar de massagens nas hemorróidas, pago do meu bolso”, até ao Então que se fodam” aposto sob forma de Despacho do Presidente, pelo punho do próprio, num documento oficial da Câmara Municipal de Gaia, nada parece conter a imaginação escatológica do próximo representante das câmaras municipais da Área Metropolitana do Porto, cuja verdadeira ambição é conquistar a presidência da Distrital do PS, destronando Manuel Pizarro. Será, eventualmente, um original representante do Norte na luta contra o centralismo lisboeta, talvez uma espécie de Fernando Rocha com gravata e fato caro mal caído, mas em nenhuma circunstância personifica a dignidade que os cidadãos mereciam e que a respeitabilidade das instituições exige.

A verdade é que por detrás da exuberância cénica dos rituais de Estado, dos discursos solenes e das poses protocolares, existe uma República putrefacta entregue a políticos de carreira totalmente incapazes de compreender os mais singelos princípios da urbanidade, da educação e da gravidade exigida à representação do Estado.

Comments

  1. não confundam certos autarcas com outras realidades. não confundir as manias das grandezas de gente como o presidente da cm gaia ou muitos outros autarcas com o episódio do jumento.

    o link para o jumento é “peaners”. é insignificante. e só o desconhecimento do referido site pode levar a que se diga que alguém chamou jumento ao PR. o tal site todos os dias distingue alguém como “jumento do dia”, e atenção que não são poucas as vezes que o faz relativamente a membros do actual governo, não se vá pensar que é um blogue afecto ao PS, ou à geringonça, ou etc. relativamente a um dado actor da nossa vida publica, num dia pode ser o jumento e no dia seguinte pode ser louvado.

    devia haver links de paginas oficiais para lá? não me parece. mas acho que foi uma tolice “individual” e não uma especie de sinal do apocalipse.

  2. Cá p’ra mim, foi um direitolas da defunta PAF, ressabiado, a maior parte dos funcionários públicos são de direita, nada têm a ver com este governo, nunca fazem greve quando a direita é governo. Isto tem que ser investigado, e os responsáveis punidos de acordo com a lei, falta de respeito ás instituições, seja ao PR ou ao MAI.

  3. Carlos Lacerda says:

    Bruno Santos, a azia é fodida, pá. Experimente fazer o Caminho de Santiago que isso passa.

    • Bruno Santos says:

      E o Alzheimer também. Mas, infelizmente, não passa.

      Carlos Lacerda (28/08/2017):
      “Depois de uma breve esperança por uma nova política, Eduardo Vítor Rodrigues revela-se tão bom como o comum dos autarcas. E não é do abate recente dos pinheiros, que EVR tão bem justificou, que falo, mas sim das dezenas de choupos que eram a única nota de verdura na marginal de Gaia e que foram para o lixo há mais de um ano.
      A nova política de EVR revela-se bem na condecoração de “Marcantónio” Costa, na tentativa de organizar o Marés Vivas em cima da Reserva Natural Local do estuário do Douro, daquele imbróglio do aumento do salário da mulher e, por último, do projeto com o nome parolo de World of Wine, que irá destruir a zona das caves. Vítor Rodrigues está ao nível de Menezes e do grande urbanista gaiense Heitor Carvalheiras.
      E não me venham colar rótulos de subserviência política oposicionista, porque, como estou farto de ser aldrabado, deixei de passar cheques em branco a essa gente. Vão todos para o raio que os parta!”

  4. Aquele despacho é um acto falhado. Revela-o de cima a baixo.
    É mais um “porco” da quinta do Orson.
    A percepção de poder é afrodisíaca.

  5. Ana Moreno says:

    Bruno, 20 “gostos”, no mínimo. Não só revela a personalidade rasteira do indivíduo, como demonstra a incapacidade para assumir o cargo que tem. Por mim, apresentava queixa aos superiores deste sr. E não estou a brincar.

  6. antero seguro says:

    Um perigoso populista com ambições desmedidas que começa a sentir-se com o rei na barriga.

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