Os Quatro Santos Coroados


Para os mestres maçons da Idade Média, a Geometria era ainda uma ciência fundamental e a expressão Ars sine scientia nihil, proferida em Milão no ano de 1398 pelo arquitecto Jean Mignot, não foi apenas um desabafo intelectual vazio de significado histórico ou simbólico. Esse mesmo princípio está reflectido no pensamento e na obra de algumas das principais referências da cultura ocidental, entre as quais se encontram os portugueses Francisco de Holanda, Nuno Gonçalves, Almada Negreiros ou Lima de Freitas, entre vários outros cujos nomes ninguém conhece.

A expressão do arquitecto parisiense alude aos Quatuor Coronati, martirizados sob o reinado de Diocleciano no final do século III. A lenda dos Quatro Santos Coroados traduz um dos dos poucos episódios históricos em que a Igreja de Roma prestou homenagem aos antigos entalhadores de pedra, cujos serviços solicitou com grande frequência e intensidade durante a Idade Média. Estes Quatro Santos cristãos foram adoptados pela maçonaria alemã como santos patronos da Maçonaria Operativa e a expressão do arquitecto Mignot deve ser lida como uma referência directa à tradição primordial representada pelos quatro mártires que, nos dias de hoje, se encontra praticamente desaparecida.

Foi assim que a chamada Maçonaria Especulativa, aquela que se dedica, em teoria, já não à construção de catedrais em pedra, mas ao design de sistemas sociais, adoptou como patronos os dois santos cristãos que partilham o nome de João. São João Baptista, que assinala, na cosmogonia maçónica, o Solstício de Verão, e São João Evangelista, que representa o Solstício de Inverno.

Christian Ehrmann era natural da cidade de Estrasburgo e durante mais de trinta anos dedicou-se ao estudo da arqueologia maçónica, fornecendo os mais importantes dados conhecidos sobre a vida e a morte dos Quatro Santos Coroados. A Igreja Romana consagrou-lhes o dia 8 de Novembro, dia em que, logo pela manhã, lhes eram oferecidas preces. Os registos documentais existentes aplicam-lhes o título de quadratarii. A palavra quadratarius indicava aquele que faz a pedra cúbica, numa referência ao Livro dos Reis e à construção do Templo de Salomão, na qual os quadratarii participaram activamente. O uso do termo na lenda eclesiástica indica que os Quatro Santos Coroados não eram estritamente escultores, mas entalhadores de pedra e construtores de templos, ou seja, pertenciam à Maçonaria Operativa. Como já aqui, noutro texto que aborda assunto familiar, foi apontado, as antigas corporações de pedreiros, arquitectos e geómetras, cujas raízes se perdem para lá de Pitágoras, viriam a dar origem aos Collegia Fabrorum romanos e, mais tarde, às lojas maçónicas especulativas ou estritamente políticas, compostas pelos chamados maçons aceites, que são as que existem hoje. É nesta aceitação, que na verdade sempre existiu, que se encontra um dos temas mais controversos da própria Maçonaria. O maçom aceite é aquele que se recebe no seio da corporação (Loja), não porque tenha feito demonstração do princípio enunciado por Jean Mignot – Ars sine scientia nihil – mas porque é detentor de um estatuto social, económico ou político que o dispensa e substitui. No fundo, é o mesmo princípio usado pela Igreja de Roma na concessão de indulgências com base no estatuto social, económico ou político do pecador. Acontece, porém, que o saber transportado desde o início dos tempos pelos maçons operativos, saber esse cujo fundamento, nunca é demais dizê-lo, era a Geometria, tinha um valor e uma função psicológicas fundamentais, servindo de base não apenas à construção de templos em pedra, mas também à construção de templos em Espírito, ou seja, fornecia o traçado para aplicação das regras de proporção e simetria que permitiam, através da correcta interpretação da lei da analogia, a transformação espiritual do homem na direcção de estados mais elevados de perfeição. Era este, em resumo, o grande valor dos Quatro Santos Coroados e foi também esta, eventualmente, a razão de ciência do seu martírio.

Era Diocleciano o Imperador de Roma no último quartel do século III, quando tiveram início um conjunto de violentas perseguições à igreja Cristã, ameaçando extinguir por completo a nova religião. Alguns historiadores chamam-lhe a Era dos Mártires. Foram milhares os cristãos que se recusaram a violar a sua própria consciência e a adorar o deus pagão de Roma. Por essa via se tornaram vítimas da mais cruel violência, provando na tortura da flagelação pelo ferro, pela crucificação ou no túmulo de água, a barbárie sanguinária do Poder pagão, demonstrando, apesar de tudo, a firmeza e a determinação dos discípulos do profeta de Nazaré.

A Lenda dos Quatro Santos Coroados será, segundo alguns estudiosos do assunto, a que é descrita pelo Breviário Romano de 1474. Diz essa lenda que o imperador Diocleciano viajou até à província de Panónia, onde foi pessoalmente dirigir os trabalhos de extracção de pedra e metais das minas de Noricum, que seriam usados na construção de um templo dedicado a Apolo. Entre os seiscentos e vinte e dois (622) artesãos que o imperador reuniu para a empreitada estavam Quatro – cujos nomes eram Claudius, Castorius, Symphorianus e Nichostratus – conhecidos pela excelência da sua Arte como entalhadores de pedra. Haviam abandonado a crença pagã e converteram-se secretamente ao Cristianismo, realizando todo o seu trabalho de Maçons em nome de Cristo.

Na companhia dos quatro mártires trabalhava um tal de Simplicius, que também era maçon, embora permanecesse entregue à fé pagã. Ao ver o modo como os quatro santos trabalhavam, Simplicius pôde testemunhar a elevação da sua Arte, admirando a competência e a perfeição que colocavam em tudo o que faziam, distinguindo-se claramente dos demais artífices. Os quatro santos conseguiam fazer tudo o que pretendiam com grande perfeição, enquanto ele próprio, Simplicius, estava sempre a partir as suas ferramentas de trabalho e pouco fazia digno de louvor. Até que decidiu aproximar-se de Claudius e disse-lhe:

– Usei as minhas ferramentas com tanta força e falta de jeito que elas já não funcionam.

Claudius pegou nas ferramentas de Simplicius e disse:

– Em nome do Senhor Jesus Cristo, sejam estas ferramentas doravante fortes e fiéis ao seu trabalho.

Daí em diante Simplicius não teve mais problemas com as suas ferramentas e exerceu o seu ofício de modo competente, conseguindo fazer tudo aquilo que desejava. Espantado com a mudança, passou a perguntar constantemente aos seus companheiros de trabalho como tinha sido possível as suas ferramentas ficarem tão fortes e agora nunca se estragarem.

Claudius respondeu-lhe:

– Deus, que é o nosso Criador, e Senhor de todas as coisas, fez fortes as suas criaturas.

Simplicius perguntou:

– Isso não foi feito por Zeus?

Claudius respondeu:

– Arrepende-te, meu Irmão, do que acabaste de dizer, pois é blasfémia contra Deus, o nosso Criador, e único que adoramos. Aquilo que as nossas mãos fizeram nós não reconhecemos como sendo Deus.

Certo dia, Diocleciano deu ordem para que se fizesse, a partir de uma grande pedra de mármore, uma estátua de Apolo sentado numa carroça. Filósofos e pedreiros iniciaram o trabalho de reflexão sobre a obra e cada um deles tinha uma opinião diferente. Encontraram um grande bloco de pedra que tinha sido trazido da Ilha de Tasos que, porém, alguns verificaram não servir as exigências do Imperador. Na verdade, os Quatro Santos recusaram trabalhar na estátua de um Deus pagão. Iniciou-se uma enorme guerra de palavras entre os obreiros e os filósofos, até que, um dia, todos os seiscentos e vinte e dois (622) artesãos se juntaram aos cinco (5) filósofos e se puseram todos a examinar os defeitos da pedra, os seus veios, todos os seus detalhes, o que gerou uma discussão ainda mais interessante entre ambos os grupos.

A certa altura os filósofos começaram a protestar com veemência contra Claudius, Symphoranius, Nichostratus e Simplicius, dizendo:

– Por que motivo vocês não respeitam as ordens do nosso divino Imperador, Diocleciano, e obedecem à sua vontade?

Claudius respondeu:

– Porque não podemos ofender o nosso Criador e cometer pecado, pois seríamos considerados culpados ante o seu julgamento.

Então, os filósofos retorquiram:

– Do que afirmas podemos concluir que sois Cristãos.

Claudius respondeu:

– Sim. Somos Cristãos.

Em face desta resposta, os filósofos escolheram outros maçons para esculpir a estátua a partir da pedra que fora rejeitada, obra que ficou pronta ao fim de apenas trinta e um dias (31) e de imediato foi apresentada aos filósofos. Estes levaram-na também sem demora à presença do Imperador que, espantado, afirmou:

– Aqui está a prova da excelência destes artesãos, que desde já recebem a minha aprovação como escultores.

Mal ouviram esta reacção do Imperador, os filósofos trataram de o informar que Claudius, Symphorianus, Nichostratus e Castorius eram Cristãos e que, usando palavras mágicas e gestos encantatórios faziam os outros homens obedientes à sua vontade.

Diocleciano, em consideração à sua Arte, não condenou de imediato os Quatro Santos, enviando-os ao tribuno Lampadius e ordenando-lhe:

– Se eles se recusarem a oferecer sacrifício ao deus-sol Apolo, que sejam torturados pelos escorpiões. Mas se eles aceitarem o sacrifício, trata-os com gentileza.

Lampadius ficou sentado durante cinco dias no mesmo lugar, em frente ao templo do deus-sol, ordenando aos Quatro Santos que oferecessem o sacrifício imposto, ameaçando-os com violências horríveis, mostrando-lhes os instrumentos de tortura e o caminho doloroso do martírio. Depois disse-lhes:

– Obedeçam-me e evitem a condenação dos mártires, e sejam obedientes ao poderoso príncipe, oferecendo o sacrifício ao deus-sol, pois a partir de agora não mais tentarei persuadir-vos, nem serei gentil.

Mas Claudius respondeu, por si e pelos seus companheiros, com grande determinação:

– Faz saber o seguinte ao Imperador Diocleciano: nós somos Cristãos e jamais abandonaremos o nosso Deus.

Enraivecido, Lampadius mandou que os soldados despissem e torturassem até à morte os Quatro Santos com escorpiões, exacto momento em que foi atacado por um espírito maligno e morreu no lugar em que estava sentado.

Ao saber do sucedido, Deocleciano ordenou que Claudius e os seus três companheiros fossem colocados vivos em caixões de chumbo e atirados ao Danúbio.

Comments

  1. Se não foram os Quatro : Claudius, Castorius, Symphorianus e Nichostratus que fizeram a obra:
    …”– Sim. Somos Cristãos.
    Em face desta resposta, os filósofos escolheram outros maçons para esculpir a estátua a partir da pedra que fora rejeitada, obra que ficou pronta ao fim de apenas trinta e um dias (31) e de imediato foi apresentada aos filósofos…”
    Porque razão se diz:
    “Diocleciano, em consideração à sua Arte, não condenou de imediato os Quatro Santos, enviando-os ao tribuno Lampadius e ordenando-lhe:….” ?

    Rui Silva

    • Bruno Santos says:

      Apesar de admirar a sua Arte, Diocleciano não perdoou o facto de não prestarem culto ao deus pagão.

    • ZE LOPES says:

      Porque Diocleciano resolveu aplicar o velho princípio jurídico Romano “se obedeceres está tudo bem, se desobedeceres estás lixado!”. Que ainda é muito aplicado nos nossos dias: vejam-se as decisões dos tribunais de Espanha em relação aos independentistas catalães…

  2. Fernando Manuel Rodrigues says:

    Oh Bruno, esta história é muito bonita, mas o dia 8 de Novembro ainda está um bocado afastado (embora hoje seja dia de Todos-os-Santos).

    Mas gostei de ler. Obrigado.

  3. ZE LOPES says:

    Eu gostei. Isto lembra-me sinceramente aquela parte bíblica (desculpe, mas a Bíblia, agora é uma fonte de Direito – SIlva dixit) em que uns quatro Reis Coroados levam pedregulhos de prenda ao Menino Jesus, porque não tiveram tempo de os talhar e polir. Levaram então uma pedra de Ouro de 3 Kg, uma de incenso de 8 Kg, e outra de mirra de mais de 10 Kg (era mauito maior, mas fumaram metade pelo caminho). O outro Rei, como era escuro de peles, não deve ter levado nada.

    Foi uma sorte: o menino escapou por pouco, tal era o peso das prendas que lhe colocaram na mangedoura! Na realidade, foi salvo pela vaca que, cheia de larica, resolveu engolir o que estava disponivel (poupando o menino porque era geovegetariana).

    É claro que estas e outras histórias foram, durante muito tempo ocultadas. Presume-se que por conspiração de uma destas instituições: Igreja ou Maçonaria. mas há quem diga que o Futebol Clube do Porto não está ausente de culpas.

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