O Porsche e a Lagarta


 

O Secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, principal elo de ligação entre o Governo e a Esquerda que todos os dias reivindica reposição de direitos e rendimentos, terá comprado um Porsche.

Não é crime ter um Porsche, como não é incomum encontrar, por esse mundo de Deus afora, quem coma lagartas e outros bichos que rastejam. Dá-se mesmo o caso extraordinário de algumas dessas lagartas virem um dia a poder voar, milagre que representa um dos mais belos símbolos da transformação da vida e mitiga, se assim se pode dizer, a repugnância que atinge quem imagine o bicharoco arrastar-se pelas goelas abaixo. Bem mastigado, como convém à boa digestão.

Acontece que não é usual, em Portugal pelo menos, ver quem conduz um Porsche fazer alarido porque no prato que serviram à sua filha na escola apareceu uma lagarta a boiar. Não se trataria já de um rastejante promitente voador, menos ainda do reflexo da estrela Michelin que brilha na parede gordurosa da cantina – feita por instantes laboratório gastronómico do Tavares Rico –  mas de um cadáver anfíbio e esquisito, viscoso símbolo, dejecto indigesto, do profundo desprezo que os donos legítimos dos Porsches nutrem, amiúde, por aquilo que comem os filhos de Clio, uma das nove Musas de Hélicon, que tem como missão apolínea celebrar as grandes conquistas humanas. Porque dos seus filhos os do Porsche já trataram, assegurando, por herança e transmissão dinástica, não apenas o bólide, mas uma longa lista de privilégios dos quais não está excluída a sopa limpa, o nutriente certo, o médico privativo, o colégio, o ginásio, o psicólogo, o terapeuta, a pedicura e a criada de servir. Tantas vezes aquela a quem em criança deram na cantina da escola sopa Bombix Mori.

Não é crime ter um Porsche. Mesmo que ele seja o produto do lucro dos tais “banqueiros alemães” a quem as pernas tremem se “nós não pagarmos”. Mas nós, afinal, pagámos. E continuamos a pagar. Nós, quer dizer, nós, aqueles a quem a lagarta cai na sopa e que desde sempre perde a corrida em fábula com o Porsche herdado. A cujo herdeiro cabe decidir, aliás, – por ironia oferecida em sacrifício por Clio no alto daquele monte grego – se a sopa tem mais meia colher. Se tem menos meia colher. Mais lagarta, menos lagarta. Se voa, se rasteja. Se faz a seda que veste os Reis, ou o viscoso cinismo com que se faz a política.

 

Comments

  1. Pedro says:

    Não percebi nada. Sei que mete um porsche e uma lagarta…

  2. José Feliciano Cunha de Sotto Mayor says:

    mais um texto imbecil. como seria de esperar do autor, com recurso às estafadas falácias liberalóides.

  3. Quem é este “artista”, para além de ser de VNGaia?
    Um membro do PS não pode comprar um Porche?

  4. Ana A. says:

    Acompanho-o na crítica!
    O mais que supérfluo (exibicionismo) num país onde a miséria impera, não deve ser bem aceite nos agentes políticos. É que dá a sensação de fraqueza de espírito!

  5. Luís says:

    Não percebi mas alguém da sua rua deve ter entendido.

  6. doorstep says:

    Mas porque é que um secretário de estado não pode ser parolo deslumbrado?

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