A Câmara de Gaia e a Maçonaria #2


A original Loja União Portucalense foi fundada em Vila Nova de Gaia no dia 13 de Abril de 1842.

Da identidade dos seus fundadores apenas se conhecem os nomes “simbólicos”, tendo sido eles Camões, Lusitano, Polião, Cúrcio, Ramiro, Adriano e Tito. Sete, como se exige. O nome da Loja foi sugerido pelo membro de nome Ramiro e a sua primeira sede situava-se em Gaia, embora algum tempo depois da sua fundação passasse a funcionar na cidade do Porto, mais precisamente na Rua do Bonjardim.

Houve um grande número de membros da Loja União Portucalense com responsabilidades governativas ao nível do Município de Vila Nova de Gaia. Muitos lá exerceram altos cargos, como o de Presidente de Câmara ou Vereador. A realidade de hoje é algo que ficará a cargo dos historiadores de amanhã, não sendo publicamente conhecida a existência presente, em Vila Nova de Gaia, de qualquer organização de cariz expressamente maçónico nem, que se saiba, o actual presidente da Câmara deu nota pública, clara para todos, da sua filiação na Maçonaria. Mas em função dos cargos públicos que neste momento ocupa, tendo acrescentado ao de presidente da Câmara de Gaia o de presidente da Área Metropolitana do Porto, talvez Eduardo Vítor Rodrigues  devesse esclarecer quem o elegeu – e, já agora, quem não o elegeu – se nos intervalos da devoção a Nossa Senhora de Fátima também usa avental e presta culto ao Grande Arquitecto do Universo, ou seja, se é membro activo da Maçonaria, nomeadamente da Loja que se transformou num dos maiores viveiros de políticos na zona norte, chamada, precisamente, Estrela do Norte. Aguardemos que o autarca se pronuncie, quanto mais não seja, através de mais um processo crime contra o autor destas linhas. Desta vez não se perderá a oportunidade para fazer uma bela reunião de “homens livres e de bons costumes” em torno do código penal. Pode até, para gáudio dos convivas, buscar-se nele a letra da lei com que se descreve a perseguição a inimigos pessoais, que pode ir do criminoso insulto público, até ao cerco profissional, incluindo a chantagem sobre empresas no sentido de despedirem um determinado trabalhador. De tudo isso um Maçom reles é cobardemente capaz. Há inimigos, contudo, que nem se eliminados fisicamente deixam de nos atormentar com a verdade.

Ao contrário do que se pensa, existe uma enorme ignorância sobre os fundamentos históricos, filosóficos e simbólicos da Maçonaria, mesmo entre aqueles que pertencem à organização. Principalmente entre aqueles que pertencem à organização. O mais que hoje existe é a usurpação de um património simbólico e filosófico intemporal, usado para conferir estatuto, facilitar relações e conduzir influências económicas e políticas. Há, como em tudo, excepções. Mas são essas excepções que, involuntariamente, conferem legitimidade “ritual” aos profanadores, legitimidade essa sem a qual estes constituiriam uma mera associação criminosa ou, na mais benigna das hipóteses, um lóbi.

Um dos documentos mais interessantes elaborados em defesa da Maçonaria foi publicado no Diário de Lisboa, no dia 4 de Fevereiro de 1935. Pretendia, esse documento, atacar a chamada Lei Cabral, uma proposta legislativa apresentada na Assembleia Nacional pelo deputado José Cabral, com o fim de proibir as Associações Secretas em Portugal. O autor do artigo publicado no Diário de Lisboa – um extenso e genial texto pleno de conhecimento maçónico e omissões premeditadas – foi Fernando Pessoa. Pessoa, que era, entre outras coisas, um místico, possuía uma visão ampla, erudita e simbolicamente profunda sobre a Maçonaria, entendida no seu sentido mais arcaico, e não tanto naqueleoutro, que também sempre teve, de seita política, corrupta e conspirativa. Esta vertente da Maçonaria, de associação ligada aos negócios, à corrupção e à política, fortaleceu-se sempre que se intensificou o positivismo, o materialismo e a secularização das sociedades. Por razões que não interessa estar aqui a aprofundar, parece clara a influência do Protestantismo, muitas vezes disfarçado de Laicidade, no declínio dos valores históricos, filosóficos e civilizacionais da Maçonaria, enquanto representante, como ela própria enganada ainda se afirma, da “tradição iniciática”. A Tradição Iniciática pertence, na verdade, ao Reino da Qualidade. Não se inscreve na também longa linhagem de patos-bravos, piratas e charlatães, que desde sempre procuraram apoderar-se das estruturas materiais e visíveis que o Espírito Humano foi semeando pela história, com o fim único de conquistar o poder político, governar o século e dominar, explorar e perseguir o seu semelhante.

Por estranho que a muitos possa parecer – e parece – um dos últimos períodos áureos da Maçonaria deu-se na Idade Média e foi impulsionado pelo seu arqui-inimigo – a Igreja Católica. A intensa actividade suscitada pelo florescimento da arquitectura religiosa, designadamente no período do Gótico, deu expressão singular à chamada Arte Real, elemento central da Maçonaria Operativa, cuja tradição se perde na bruma dos tempos e  representa o esforço humano de reunir, pela via da Analogia, os mundos do Espírito e da Matéria. Quando se fala em “segredo maçónico” é esta Arte, a da Analogia, que se quer referir. O “segredo maçónico” não se constitui na conspiração velada, na subversão oculta, na associação criminosa secreta. Tudo isso é do domínio do Código Penal e não da Maçonaria. O “segredo maçónico” é o diálogo secreto que cada Homem mantém, no interior do seu coração, com o mistério da vida. O resto é aldrabice.

Transcrição parcial da acta da primeira sessão ordinária da Loja União Portucalense, realizada a 30 de Março de 1842:

“Foi lida pelo I… Sec… uma plancha do G…O…Lusit… recommendando a todos os OObr… desta R… Off… o auxílio que devem prestar para se obter uma Camara de Deputados que ou saia d’entre os nosso II… ou d’entre os nossos amigos profanos, a fim de se consumar a obra gloriosa começada pelo nosso SSS… I… G… M…, foi resolvido unanimemente que o I… Secret… derigisse uma plancha ao Gr… O… Lusit… significando-lhe da maneira mais expreciva a resolução de que se achão pessoidos para coadjuvar aquella eleição, não deixando d’empregar todos os meios e sacreficios para se obeter tão desejado fim; do qual resultara a Patria o socego de que preciza, e a Maç… o tomar o lugar que lhe compete, para que segura caminhe ao cume da sua gloria”.

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    “ Ao contrário do que se pensa, existe uma enorme ignorância sobre os fundamentos históricos, filosóficos e simbólicos da Maçonaria, mesmo entre aqueles que pertencem à organização. Principalmente entre aqueles que pertencem à organização. O mais que hoje existe é a usurpação de um património simbólico e filosófico intemporal, usado para conferir estatuto, facilitar relações e conduzir influências económicas e políticas. Há, como em tudo, excepções. Mas são essas excepções que, involuntariamente, conferem legitimidade “ritual” aos profanadores, legitimidade essa sem a qual estes constituiriam uma mera associação criminosa ou, na mais benigna das hipóteses, um lóbi.”

    Ou seja, parafraseando um amigo meu, hoje qualquer merdas é maçom, não porque se assuma de facto com esse espírito, mas porque é comum nos tempos que correm, alguém lhe arranjar uma cunha, para que fizesse parte de um “clube” restrito, conferindo-lhe um estatuto de “intocável”.
    Na minha santa ignorância, de maçonarias percebo nada, apenas vou lendo algumas coisas escritas por si, presumindo-o um aficionado das artes de pedreiro da democracia, o que louvo, eu fico-me com o meu avental, que me foi oferecido há uma década atrás, pelos meus progenitores para que eu continuasse a ter os seus bons hábitos, nos convívios familiares

  2. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    Caro Bruno Santos:
    Escreve que …”Ao contrário do que se pensa, existe uma enorme ignorância sobre os fundamentos históricos, filosóficos e simbólicos da Maçonaria, mesmo entre aqueles que pertencem à organização. Principalmente entre aqueles que pertencem à organização.”
    Esta achega é fundamental e recheada de uma verdade inegável.
    A gente que hoje frequenta estas sociedades fazem-no por interesses próprios. São verdadeiros conluios de negócios e de tráfico de influências.
    E antes de essa gente estar interessada em conhecer os fundamentos históricos, filosóficos e simbólicos da Maçonaria, ela está interessada, de facto, nos negócios que as Casas da Maçonaria proporcionam.
    Este mundo mudou em muita coisa, muitas positivas, mas a mais negativa de certeza é a manifesta troca dos valores que as associações prestavam, substituídas hoje por outros muito mais da esfera humana e, fundamentalmente financeira.
    Estamos perante um recuo civilizacional, interpretado por gente de colarinho branco e de gravata. Mentirosos profissionais, prestidigitadores profissionais, fundamentalmente políticos, sempre em busca dos seus próprios interesses e os dos amigos.
    Há uma razão para a Maçonaria ter sido secreta. Ela defendia princípios que o regime da altura não permitia.
    A manutenção dessas sociedades como secretas, demonstra claramente que não interessa saber o tipo de negócios que aí se conduzem…
    Há muito tempo que vejo as lojas maçónicas envolvidas num terrível cheiro a mofo e luz coada para que as pessoas se falem e mal se conheçam. Exactamente igual a um qualquer bordel onde as damas e cavalheiros se apresenta,m de máscara.
    E assim se destrói uma Instituição que prestou grandes serviços à liberdade.
    Hoje, presta outro tipo de serviços.

    • Bruno Santos says:

      Caro Ernesto Ribeiro, como digo no texto, há excepções. Aliás, como em tudo. Mas o que o meu amigo afirma é rigorosamente verdadeiro.

  3. Silvestre says:

    Parabéns!

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