O Pão


©BS

Ícone indisputado do Cristianismo e corpo simbólico da sua doutrina, o Pão contém as características que fazem dele não um simples alimento, mas a representação da própria vida e do esforço da sua perpetuação, realidades que marcam toda a História da Humanidade.

O Pão constitui um último patamar da nutrição do corpo, o grau primário, mais singelo e indeclinável da sua sobrevivência orgânica. Diz-se “a pão e água” quando se quer significar os elementos básicos, simultaneamente primeiros e últimos, do sustento de um organismo que plana sobre a fronteira entre mundos, sobre a linha da falência e da morte.

Disse o Cristo, “tomai e comei, este é o meu corpo”, quando decidiu estabelecer sobre a sacralidade do grão que tombou na terra a primeira assembleia de Companheiros – precisamente aqueles que partilham o Pão – que viria a ter como desígnio a transmissão da Palavra. Do Pão da Palavra Pedra. Do Pão nosso de cada dia.

Depois veio o dia em que o preço do Pão material atingiu o patamar da brutalidade e os patrões dos padeiros – eternizados no século, antes do almoço, por Pinheiro de Azevedo – decidiram aumentar não o peso do Trigo ou do Centeio em cada molete, mas vinte por cento o preço da carcaça. Vinte por Cento.

Os padeiros, esses, não têm o seu salário aumentado vai para sete anos e mais, que foi o que perderam de tença comida pela inflação. Agora querem também tirar-lhes o feriado municipal, reduzir férias, acabar com a tabela salarial de Domingo, piorar as condições do trabalho nocturno, criar bancos de horas e outras fermentações liberais tão dignas de inflamados discursos da tribuna do hemiciclo sobre as gaspeadeiras ou os sapateiros que ganham o salário mínimo com que compram o Pão. Como de pão para a boca há barragens da EDP que precisam que Bombeiros paguem do seu bolso comboios de cisternas que mantenham praticáveis os níveis das águas das albufeiras. Para que o preço da Luz não suba e as gaspeadeiras e os sapateiros e os padeiros deixem de poder comprar o Pão ou o tenham que comer às escuras e às migalhas. Sem direito a Porsche. Palavra dada é palavra honrada. Luz, mais Luz! – terá dito Fausto.

Comments

  1. Acho que 20% é pouco. Se queremos pagar salários justos aos padeiros não é com um aumento de 20% que lá vamos!

  2. Rui Naldinho says:

    A expressão:
    ” O pão que o diabo amassou”, cujo significado reflete o sofrimento e as dificuldades que alguém terá passado para conseguir obter como alimento para si e para os seus, o pão, pode também significar outros manjares. Muito mais condimentados e com direito a velas num qualquer panteão. Senão vejamos:
    Se for escrito desta forma, “O pão que o Diabo amassou”, o significado muda completamente de figura. Pois este Diabo com letra maiúscula representa o poder. A fortaleza. A ganancia. É por exemplo, a EDP. Mas se não gostarem desta, pode ser uma daquelas empresas privatizadas nos últimos dez anos, com rendas fixas garantidas. Neste caso amassadura foi feita por outra espécie de mafarrico liberal. É aí que o pão tem a forma de um Porche. Ou uma folha de IRS no escalão máximo. Talvez uma participação nos lucros. Um lugar no Conselho de Administração.
    Não seria esse o Diabo de que Passos Coelho falava?

  3. José Feliciano Cunha de Sotto Mayor says:

    comovido com o amor do bruno santos pelos desfavorecidos. muito súbito.

  4. RSantos says:

    Só choradinho. O artigo parece extraido de uma peça do neo-realismo italiano.

  5. Sobre o sacrossanto pão, base de alimentação ancestral e necessário, um outro aspecto muito diferente porém a nos dever ALERTAR : quando compramos pão, consumidores, NÃO nos é concedida a informação importante de ORIGEM do país das farinhas, nem muito menos a GARANTIA de que essas farinhas não são transgénicas ! a lei não obriga a tal informação mais que essencial e justa ao consumidor, apenas nos é dada a composição do tipo de farinhas, e quanto à origem , para que possamos rejeitar as farinhas sobretudo de milho dos EUA, népia !! questão pertinente em que já andei empenhada sem ter conseguido resultados nem compreensão da parte de responsáveis para que fosse revista ! mereceria um apelo nosso em grande, este sim é um problema nosso de preservação da saúde pública e do nosso DIREITO a informação essencial e pouca gente pensa nisto !! !!

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