Sobre o comportamento de cidadãos investidos em funções públicas


A política externa é uma das mais importantes vertentes do governo de qualquer Estado. É assim desde que há Estado e era assim mesmo antes de o Estado existir. A sua importância releva não apenas da evidência do mundo, lugar plural onde a humanidade evolui de acordo com as características do tempo, do lugar e do modo, mas também da necessidade de partilha, comunicação e construção que essa experiência traz, sendo isso, afinal, que toma o nome de civilização.
Depois de a política externa nascer de uma necessidade primária de convivência e conhecimento, ela dirige igualmente a troca, os momentos diversos onde se manifesta a influência que uns povos exercem sobre os outros e o modo como, necessariamente, defendem em face deles a sua própria visão do mundo e a estratégia de crescimento nele.

Qualquer pessoa pode ter e expressar a opinião que quiser sobre, por exemplo, a República Popular da China. Pode fundá-la na experiência e no conhecimento directo, ou, o que é mais comum, na leitura e no estudo dos documentos que retratam a sua História. Pode ainda ter uma opinião fundada na ignorância, no que “ouve dizer”, que é o que acontece a maior parte das vezes. Não é incomum essa opinião que “qualquer pessoa” pode ter e expressar ser negativa, particularmente em relação à República Popular da China. Com frequência, muito negativa. Por vários motivos que não vêm ao caso que interessa a este texto, mas entre os quais se encontra a tal ignorância. Mas é raro – extremamente raro – ver-se uma das mais importantes instituições de um Estado, no caso, uma das suas maiores autarquias, atacar publicamente e com inusitada violência, através de um dos seus mais altos responsáveis, um país estrangeiro com o qual Portugal tem relações culturais e comerciais há mais de quinhentos anos e que é hoje um dos seus mais importantes parceiros estratégicos globais. Concorde-se ou não com essa parceria estratégica.

De facto, o mais alto responsável do Gabinete da Presidência da Câmara Municipal de Gaia, precisamente o Chefe de Gabinete, tem colecionado nas redes sociais um conjunto de ataques públicos à República Popular da China e ao seu Governo, que é difícil encontrar, mesmo entre os países seus inimigos, algo de semelhante hostilidade. Não se tratando de “uma pessoa qualquer”, ou seja, de um cidadão comum no uso do seu direito à expressão do pensamento, mas antes de um agente público, responsável pelo Gabinete da Presidência de uma das maiores Câmaras Municipais do país, não se compreende como não tenha ainda havido intervenção de quem tutela os interesses diplomáticos de Portugal, no sentido de defender a face do país e a integridade das suas relações com um parceiro estratégico de tão grande importância.

Frases como “Na China nem os mortos (e nem os vivos…) são respeitados. Só o lucro capitalista merece respeitinho”, como se pode verificar no exemplo seguinte:

Ou esta, onde se desfere um ataque ao Instituto Confúcio, o equivalente chinês do Instituto Camões:

Ou esta ainda, onde à violência verbal se adiciona a boçalidade:

Ou estoutra, onde se insinua, sem qualquer pudor, que o fenómeno da poluição na República Popular da China está ligado à corrupção política do país:

E, finalmente esta, onde se acusa um dos mais importantes parceiros comerciais de Portugal de ter perdido “qualquer credibilidade perante a comunidade internacional”.

Ninguém ignora que estas tiradas totalmente irresponsáveis têm origem numa página pessoal de feicebuque, pântano onde os responsáveis da Câmara de Gaia parecem gostar de perder a dignidade. Mas também se sabe que o seu autor está investido em funções de significativa responsabilidade pública – a chefia do gabinete da Presidência da Câmara Municipal de Gaia – , circunstância que compromete a Autarquia e o seu presidente, Eduardo Vítor Rodrigues, que agora preside igualmente ao Conselho Metropolitano do Porto, tornando-o necessariamente co-responsável por estas lamentáveis afirmações.  Imagine-se agora que, por absurdo, o chefe de gabinete do presidente da Câmara Municipal do Porto, – que, por sinal, chegou a Ministro da Defesa – decidia passar os seus dias no feicebuque escrevendo textos de ataque à política externa americana. Ou que um adjunto de Fernando Medina decidia humilhar publicamente Israel nas páginas de um qualquer blogue. Não parece possível que tal situação pudesse ocorrer.

Este desbragado e irracional comportamento de um responsável público envergonha a Câmara de Gaia e o país, o seu governo e todos os que nele trabalham em prol da política externa portuguesa, cientes da importância decisiva que tem na nossa estratégia de sobrevivência e afirmação internacional.

Comments

  1. motta says:

    O que demonstra que um burro chinês, português de V. N. de Gaia, ou do Burkina Faso, é um burro e não passa de um burro!

  2. ….alto aí !! os burros são animais dignos inteligentes e meigos, e não merecem sequer ser comparados a esse tipo de bicho homem !!

    • Bruno Santos says:

      Totalmente de acordo. São animais superiores e de elevadíssima dignidade.

    • motta says:

      Foi essa dignidade (o que não transforma um burro noutra coisa qualquer), que me levou a comentar O bicho homem, esse nem merece um dedo numa tecla.

  3. Ana Moreno says:

    Nada a fazer Bruno, o homem não tem sentido da coisa pública – o que até o tempo livre de que dispõe para disparatar nas redezinhas comprova 🙂 E pelos vistos não tem superiores que lhe puxem as orelhas por isso, nem subordinados que lhe dêm uma dica. 🙂

  4. ZE LOPES says:

    Tenho a impressão é que o sujeito está bastante preocupado com um fenómeno recente: a avalanche de apostas vindas da China a favor das vitórias do Canelas! E ainda maior, nos cartões amarelos do Macaco!

    O mundo das apostas é assim! Mesmo em Gaia!

    • Bruno Santos says:

      Isso em verso dava Panteão.

      • ZE LOPES says:

        Ora bem:

        Vapores vindos da China,
        Deram-lhe grande inquietação.
        Mas foi a fuga dos burros
        Que o pôs em depressão.

        Nota: dispenso o Panteão (isto não faz parte do verso!)

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