O fim da indignação no reino da indignidade

Um partido político é um instrumento de materialização de uma ideologia. Não é uma ideologia em si mesmo. Um partido político que seja uma ideologia em si mesmo já não é estritamente um partido, mas uma organização fascista. É nisso que o sistema partidário português se está a transformar – um sistema fascista dominado pela corrupção.

Uma sequência interminável de acontecimentos veio mais uma vez expor aos olhos de todos a promiscuidade das relações entre representantes dos poderes públicos e empresas ou instituições privadas. No caso das IPSS o assunto toma dimensões raras, levando essa promiscuidade a níveis que mesmo o mais céptico anarquista teria dificuldade em imaginar.

A verdade é que se houvesse em Portugal três jornalistas como a Ana Leal, da TVI, o país desapareceria, simplesmente. Deve desenganar-se quem pense que o caso da Raríssimas é uma excepção, pois o que realmente se verifica é que ele é a regra. E é desta regra que Portugal é feito e foi isto que o 25 de Abril construiu – um poço de miséria moral. E em face dessa miséria, da promiscuidade que campeia na política de alcova, em que um secretário de Estado se demite em directo depois de lhe mostrarem imagens de uma romântica praia brasileira, que faz o Governo? Segue a lógica inatacável da psicologia analítica de Carl Jung – “se te vires a afundar num pântano, não tentes sair, mergulha!” – e nomeia para o seu lugar a mulher de um deputado europeu militante do partido no poder. Isto é o fim da indignação no reino da indignidade. Fechem a porta e apaguem a luz à saída.

Comments

  1. Ana A. says:

    É realmente muito estranho! E é caso para perguntar: que trabalho tão importante “não” estaria a fazer na ARS de Lisboa a senhora Rosa Matos Zorrinho para de repente largar tudo e ocupar outro lugar…

  2. Mr José Oliveira Oliveira says:

    Tudo bem, Bruno. Mas gostava de saber o que tem o 25/4 a ver com esta bandalheira toda aqui retratada (apenas a pontinha do iceberg)?
    Alguma direita (não toda, registe-se) anda aí a rasgar as vestes por causa da sua querida Paulinha ter andado a ser recebida com honrarias pelas elites mais marcantes do rectângulo e dos nuestros hermanos. Ah! Perdão, não era por isso. Era por causa de uns deviozinhos de algumas verbas…
    Mas esses mesmos que querem aparecer muito indignados, em nenhum momento se indignam contra o sistema neoliberal que gera e potencia toda esta república das bananas. Ou seja, preferem zurzir nos sintomas, mas nunca na doença. Logo, a mesma continua a insinuar-se. Ora bem.
    Obrigado Bruno. O sistema agradece, reconhecido.
    Não esbanjámos….Não pagamos!!!!

  3. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    Caro Bruno Santos.
    ” (…) foi isto que o 25 de Abril construiu – um poço de miséria moral (…)”
    Toda esta miséria a que assistimos diariamente, não tem nada que ver com o 25 de Abril. Lido como li, até dá a ideia que o articulista é um saudosista dos tempos do Império.
    Isto tem a ver só e apenas só com o facto da Justiça neste País ser inoperante e passar a mensagem que “o crime compensa”..
    Tudo isto está intrinsecamente ligado a um pilar da Democracia que está corroído porque os políticos – esses sim, verdadeiramente fascistas, intelectualmente – permitem que ela chegasse a este ponto.
    O garante pelo bom funcionamento das Instituições Democráticas, não é um partido ou uma sociedade. Tem nome. É um personagem da dita democracia. É o Presidente da República. Se se der ao trabalho que ver quem ocupou o cargo, encontra, no seu maior número, personalidades que ou estiveram ligados ao Regime fascista ou, no íntimo, gostam dele. Não vou dar exemplos, pois eles nem são tantos como isso.
    E que faz o Presidente? Continuam a falar de poderes independentes e assim deixa escapar a principal responsabilidade do seu cargo. o de vigilante da democracia. Resta saber se eles entendem verdadeiramente o significado daquele termo.

    O problema é que este País se transformou no reino da impunidade, desde que a Justiça se demitiu das suas funções e eficiência. Há banqueiros que esperam – como o padre diz na missa – em “jubilosa esperança” … que tudo isto se arraste (conhecemos bem as suas ligações ao poder político actual e passado), ou personagens como Armando Vara, condenado, mas em liberdade, ou autarcas que passaram pelos calabouços por corrupção, ou recursos uns atrás dos outros transformando em infinito, o que toda a gente vê como material e palpável.
    Tudo isto o regime permite. A tudo isto a justiça é permeável.
    A responsabilidade é pura e simplesmente DESTA dita Ética Republicana, com que os lavajões que servem o regime corrupto, enchem a boca. Isto não tem nada que ver com o 25 de Abril, mas com mentalidades verdadeiramente intelecto-fascistas que dominam o mundo. Não é só um caso de Portugal. É muito mais amplo. Tenho para mim que estamos no limiar de um novo movimento tipo “revolução francesa”, pois a situação torna-se insuportável, por escandalosa. Só eles, os políticos se não apercebem. Estão dopados com tanto favor e corrupção.

    O caso da escolha que cita entra no mesmo campo, que é o facto das coisas serem já feitas completamente às escâncaras.
    É caso para dizer que eles já nem pensam quando a palavra de ordem é a manutenção de uma oligarquia e de um “status”. É o jogo dos “boys” e das “girls” com que o regime se eterniza … até um dia.

    • Bruno Santos says:

      Obrigado.
      A referência ao 25 de Abril resulta de ele ser, para todos os efeitos, a maior promessa não cumprida da nossa história recente. Em face da realidade que hoje vivemos, uma espécie de fraude social.

      • Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

        Já percebeu que eu não vou com esta gentalha do Arco da Governação e dos que agora gravitam em torno do tacho… Contudo, como eu tinha 25 anos quando se deu o 25 de Abril, como fui preso por dizer o que pensava e como vi um irmão meu morrer às mãos de uma guerra miserável e com a ajuda da PIDE, não posso subscrever completamente as suas palavras, embora entenda o seu desencanto.
        Foi uma promessa não cumprida, de facto, mas temos de convir que as mudanças permitiram-nos pelo menos, discutir estes temas abertamente … para já, pelo menos.

        • Bruno Santos says:

          Julgo que são precisamente aqueles que sofreram com mais intensidade os desmandos da ditadura, que melhor percebem a desilusão em que se tornou a nossa Democracia. Mesmo quando diz que podemos “discutir abertamente estes temas”, devo assinalar a minha discordância, pelo menos parcial. Na verdade, isto tem custos, posso-lho assegurar.

          • Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

            Tem toda a razão.
            Pessoalmente e provavelmente por que já vou nos 68 não sinto essas pressões, mas admito que as haja.
            O desencanto que muito bem refere porque a sociedade reintegrou os fascistas que se transformaram em neo-democratas intocáveis como os velhos judeus em Cristãos-novos.
            Vejo por aí figuras coladas à Democracia que andaram coladas a Salazar e a Marcelo Caetano numa idade em que os conceitos estão mais que apreendidos e as escolhas feitas. Esta gentalha muda porque dá jeito e quem fez a dita revolução … concordou. Acho que ninguém se pode queixar depois de tantas concessões… Sobretudo porque votamos neles e os escolhemos…

  4. Carlos Almeida says:

    Bem observado Ernesto

    É para isto que deveria servir o AVENTAR, para o debate de ideias, não para discutir penalties mal marcados e outras preciosidades.
    Mesmo que eu não concorde com os que agora, com algum ar que lhes foi dado pelo caso dos incêndios ateados por quem eles sabem, pelos casos de Legionela e etc e tal, vão tentando mandar pedras para a engrenagem do PPD cor de rosa.
    Mas isso é luta politica, mesmo que seja ao mais baixo nível, mas é luta politica. O Partido do Marcelo Caetano Recauchutado, não tem mais armas e portanto usa as que tem.

  5. Acho piada a essa de que não se devem discutir os “penaltis mal marcados”, porque se há exemplo de tudo o que acima é referido, ou seja, da impunidade, da corrupção, do tráfico de influências, do compadrio, da fuga ao fisco, da ética zero e da mentira dita com convicção – à vista de toda a gente – é o futebol. E não é de agora, mas desde, pelos menos, os anos 80. Sempre com polícias a dormir e tribunais a absolver, e os membros das duas tribos a acharem que está tudo bem desde que, no fim, a dele ganhe (e de que é tudo uma vergonha e um escândalo se a deles perde). E a ocupar mais tempo de antena (e de conversa entre indivíduos do sexo masculino) do que qualquer outro tema.

  6. Deve desenganar-se quem pense que o caso da Raríssimas é uma excepção, pois o que realmente se verifica é que ele é a regra.“… Esta agora!

    Em Portróical só existem “pessoas” SÉRIAS E HONESTAS.

    Se alguém “pensa” o oposto é porque é pateta!

  7. Um partido político está para a ideologia como uma dada religião está para a crença. No quadro de existência de vários partidos e religiões, com as suas inerentes políticas e crenças, a questão assim colocada não tem nada de mal. O problema começa quando o partido e a religião se querem únicos e procuram impor como únicas a sua ideologia ou a sua crença. Da mesma forma, também existirá um problema quando, apesar de diferentes ideologias ou crenças, todos eles tendem para os mesmos comportamentos e métodos – e vícios. Obviamente, que quanto mais próximas são as ideologias ou as crenças, tendencialmente mais estes comportamentos e métodos se identificam – como é o caso, sempre muito badalado, do bloco central no que se reporta ao nosso sistema partidário. Apesar disto, poderemos dizer, ainda poderia haver alguma esperança, no caso da diversidade partidária se manter proporcionando, por tal facto, a diversidade de comportamentos. No entanto, como tal não se verifica, vimo-nos confrontados com uma situação de diversidade partidária com características comportamentais de natureza única. O tal elemento fascizante – por totalitário e abrangente – do procedimento político vigente. Isto é, independentemente da cor política, as práticas são as mesmas. Daí nascendo, obviamente um sistema político assente na corrupção, no carreirismo e na deslealdade. Como é usual dizer-se: são todos iguais e o que querem é tacho.

  8. Carlos says:

    Subscrevo por inteiro este post. Também sou de opinião de que os valores de Abril, foram adulterados por uma cáfila de políticos nada recomendáveis. O que não é estranho, basta conhecer minimamente o funcionamento interno das seitas partidárias.
    Cumprimentos ao autor do post.

    Carlos

    • … e eu subscrevo exactamente o que subscreve, Carlos !

      “faz escuro mas eu canto, porque a manhã vai chegar ” deixou de valer e fazer sentido de união e força e esperança de mudança,.
      cada qual que o aplique no seu quotidiano como melhor o sentir.

  9. JgMenos says:

    Do 25A resultou, como sinal libertador por excelência, o repúdio das hierarquias e o seu condicionamento a critérios regulamentares.
    Essa regulamentação não só exclui quaisquer medidas de produtividade bem delineadas como repudia critérios que possam tocar direitos individuais extensa e detalhadamente blindados contra juízos ditos ‘morais’.
    Ser ‘pessoa de bem’; ser ‘diligente e responsável’; ser ‘disciplinado e atento’ são labéus de origem fascizante a que ninguém pode ser submetido.

    Essa cultura fez o seu caminho e hoje tudo tem que acabar por ser definido em tribunal por Oficiais da Justiça que a ninguém mais é reconhecida idoneidade de formular juízos morais, nem aos ditos Oficiais da Justiça!

    Queixam-se de quê?
    Do Salazar, naturalmente, que a imbecilidade sempre aí encontra refúgio.

  10. João Fernandes says:

    3 como a Ana Leal?
    Talvez. Poderia ser que qualquer desses 3., visse o que se o passou com os submarinos, com o BPN, com a Tecnoforma, etc. etc

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