Uma Cabala muito bem feita

Uma das pessoas envolvidas na corrente polémica sobre a Raríssimas terá vindo a público em protesto e auto-defesa, afirmando que toda essa controvérsia era “uma Cabala muito bem feita”. Entre as expressões que as pessoas – principalmente os políticos – acusadas publicamente de vigarice têm sempre à mão, contam-se algumas de fino recorte literário, metafórico e etimológico, como “campanha negra”, “conspiração”, “calúnias”, “interesses ocultos”, “vêm aí eleições” e a famosa “Cabala” que aqui nos traz entretidos por instantes.

Ora, a verdade é que a Cabala, que é um sistema de conhecimento (gnose) esotérico e de transmissão oral chegado até nós por via hebraica, nada tem que ver com as raríssimas tendências da direcção de uma IPSS povoada de gente famosa – principalmente políticos – com especial atracção por marisco, viaturas de alta cilindrada e a praia de Copacabana.

A Cabala, a verdadeira Cabala, chegou ao povo judeu por influência e transmissão dos Caldeus, através do profeta Daniel e do escriba e sábio Esdras. Aos israelitas anteriores ao desaparecimento das dez tribos ditas “não-judaicas” – todas com a excepção de Judá, Benjamim e Levi -, a Cabala chegou através dos egípcios, pelas mãos de Moisés.

Entre os Caldeus, tal como entre os Egípcios, a Cabala fazia parte de um sistema global de conhecimento que se constituía como síntese das ciências e das artes, incluindo a filosofia, conduzidas ao seu Princípio comum, Princípio esse que toma a designação de Verbo, tal como, aliás, bem expressa o Evangelho de João. Essa síntese nada mais é do que a antiga Sabedoria e assim era conhecida, embora fosse dada como perdida já desde o ano 3.000 a.C., como testemunha Jó. Já Moisés situava a perda dessa Unidade Primordial e o desmembramento da Sabedoria no tempo da confusão das Línguas e da Era de Nimrod e da famigerada Torre de Babel.

Quem conhece o assunto diz que a palavra Cabala tem dois sentidos, conforme se escreva com Q, ou seja, com a vigésima letra do alfabeto assírio, à qual corresponde o número 100, ou com C, a décima primeira letra desse alfabeto, a que corresponde o número 20.

No caso de ser escrita com Q, a palavra significa “Transmissão” e “Tradição”, neste caso remetendo, em certa medida, para o termo latino traditor, que designa os cristãos do tempo de Diocleciano que entregaram aos pagãos os livros sagrados para se salvarem do sacrifício.

No outro caso, no caso de ser escrita com a letra C, Ca-Ba-La significa “o Poder” (La) dos 22 (CaBa), uma vez que C=20 e B=2. Estes “22” são as Vinte e Duas letras dos alfabetos ditos sagrados – entre os quais se encontra o Hebraico –  que, em conjugação com os Dez Números, constituem as Trinta e Duas Vias ou Caminhos da Sabedoria referidos no Sepher Yetzirah. O Poder dos Vinte e Dois, aspecto central da Tradição transmitida pela Cabala, tem expressão igualmente perene na Geometria simbólica – também dita Sagrada -, designadamente na que se ocupa dos mistérios da polarização do Círculo, uma vez que nele podem ser inscritos exactamente 22 Polígonos Regulares de ângulo inteiro ao centro. Neste detalhe estão contidos, aliás, vários séculos de história da Europa e de toda a civilização ocidental. Está até a famosa Regra de Ouro orçamental em que assentam as draconianas políticas de Austeridade ou, na sua forma pós-moderna, de Cativação.

De todos os alfabetos antigos de Ca-Ba-La, contendo 22 letras, houve um que serviu de modelo não apenas a todos os outros, mas também aos signos védicos e às letras do Sânscrito, cuja origem é ariana e o nome não vem ao caso. É um alfabeto que, com grande probabilidade, se elaborou sob influência do sistema de escrita chinês e remonta ao tempo dos primeiros humanos a habitar a Terra. E por aí adiante.

Terá ficado demonstrado neste curto apontamento, espera-se que para além de qualquer dúvida razoável, que o fenómeno que acometeu a direcção da Raríssimas não foi “uma Cabala bem feita”, mas, pelo contrário, a expressão cármica e a consequência lógica da pura e simples vigarice.

Nota: Na imagem ilustrativa pode ver-se a Árvore Sefirótica representada sobre o alçado Sul da Biblioteca Municipal do Porto, de frente para o edifício da Faculdade de Belas Artes. Foi retirada já lá vão uns anos.

Comments


  1. IPSS e camarões à parte, aproveito para meter aqui o bedelho para recomendar, a quem se interessar pela Cabala, uma visita a Ávila. No centro histórico da cidade, na rua de San Jerónimo, há uma livraria paradoxalmente chamada Librería Católica onde encontrarão um livreiro que é também um magnífico conversador e um especialista no Zohar (que terá sido escrito em Castela no século XIII). Eu entrei por acaso, ou melhor, porque havia na montra uma série de volumes sobre o Livro do Esplendor, e tive a sorte de apanhá-lo com tempo e paciência para ensinar-me. Já foi há uns anos, espero que livreiro e livraria se mantenham ambos de boa saúde.

  2. ganda nóia says:

    a componente de transformar este caso num ataque ao actual governo é uma cabala, de facto. a raríssimas teve ao longo dos anos ligações fartas a figuras do psd, mas para a narrativa isso nao interessa, apenas colar a força os desmandos da sra ao actual governo e acusar sonia fertuzinhos com falsidades sem que ela fosse ouvida.

  3. atento às cenas says:

    “uma cabala muito bem feita” gostei. é uma expressão que vou passar a utilizar mas,
    noutro contexto.

  4. o Calcinhas do Dafundo says:

    O reaças Borges tem um relato sobre má aplicação cabalística.
    No poema O Golem.o produto de tal desmando nem varrer sabia a Sinagoga quanto mais encomendar marisco.Vejo que se progrediu nos séculos seguintes.

  5. ZE LOPES says:

    Uma cabala? não! Uma cavala, cheia de alcavalas.

  6. joão lopes says:

    sabe o que é uma ipss na actualidade? é um sitio onde o provedor passa a vida na A1 de bmw preto,enquanto os funcionarios ganham o ordenado minimo e ainda são ameaçados para não gastarem muitas fraldinhas..

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