“Não percebo o que quer dizer com sociedade civil”


A deputada Ana Catarina Mendes, secretária-geral adjunta do Partido Socialista, não há-de ter em grande conta a inteligência dos portugueses, visto de perto e ouvido com atenção o esclarecimento supersónico que ofereceu em conferência de imprensa sobre a lei do financiamento dos partidos, aprovada às escondidas numa arrecadação da Assembleia da República, enquanto o país fazia rabanadas. Mas uma coisa podemos ter como certa: sabe ler.

Embora se reconheça que é mais fácil encomendar artigos de imprensa a desancar camaradas de partido – longe de mim sugerir que algum dia a secretária-geral adjunta tenha feito tal coisa -, o talento de Ana Catarina Mendes para explicar o inexplicável ficou muito aquém do que se exige a alguém com as suas responsabilidades, que se limitou a procurar confundir alhos com bugalhos, baralhar, dar de novo e criar premeditadamente a confusão. Tudo isto feito com o ar sério, enfadado e até um pouco arrogante, de quem acha que não tem que dar grandes explicações a jornalistas e menos ainda aos cidadãos da República.

A deputada socialista chegou ao ponto de dizer a um jornalista presente que Não percebo o que quer dizer com sociedade civil, quando este lhe perguntou se não teria sido avisado, em vez de congeminar esta lei às escondidas, nas catacumbas de São Bento, consultar a tal sociedade civil, ou seja, tentar perceber o que acham os cidadãos sobre este golpe legislativo e fiscal, em favor dos partidos políticos, urdido nas suas costas. Mas Ana Catarina foi mais longe. Afirmou, preto no branco, com grande coragem e discernimento democrático, aquilo de que já toda a gente desconfiava, que As leis são para beneficiar todos os partidos políticos, assim mesmo, sem medos, o que, sendo aparentemente um lapso da língua e do juízo de Catarina, não deixa de revelar a intenção subjacente a esta conspiração. Não se trata, de facto, de ir de encontro às dúvidas e pedidos de esclarecimento colocados pelo Tribunal Constitucional, mas, nas palavras da própria deputada, de beneficiar todos os partidos. Ficamos esclarecidos.

Como fecho da abóbada, Ana Catarina informou que, a partir da aprovação desta lei, a actividade dos partidos é de natureza estritamente política, o que significa que passarão a estar totalmente isentos do pagamento de IVA quaisquer negócios efectuados pelos partidos, sejam eles quais forem, sendo o Estado obrigado a devolver-lhes o imposto que pagarem em qualquer aquisição. Isto quer dizer que se o PSD, por exemplo, decidir produzir um calendário “solidário” de parede para oficinas de mecânica, com fotos atrevidas do seu candidato à junta, para ser vendido ao militante-cliente enquanto o porco esturra no espeto, essa transacção estará isenta do pagamento do imposto sobre o valor acrescentado, pois trata-se, nas palavras de Catarina, de estrita actividade política. E até o IVA pago pelo porco grelhado será devolvido pelo Estado, ou seja, por todos nós, o que coloca o arraial de campanha num patamar de solidariedade totalmente novo, uma vez que será pago pelos que comem o porco e pelos que são comidos por parvos.

É verdade que os partidos políticos são fundamentais na Democracia, mas este tipo de urdidura é bem o retrato dos métodos anti-democráticos a que recorrem e os fazem não apenas inimigos de si próprios, mas também a principal fonte de descrédito de todo um sistema que deixa em casa, a cada eleição, mais de metade do eleitorado. Da próxima vez que Ana Catarina Mendes vier perorar contra a abstenção e apelar à consciência cívica dos seus concidadãos, para que exerçam o direito e o dever de votar, lembre-se deste momento triste em que ela própria se constituiu como fonte de descrédito do sistema político-partidário e, em última análise, da própria Democracia.

Comments

  1. Explique lá ao “Zé Povinho” ou “Sociedade Civil”, como preferir,
    qual é a alteração, em relação ao IVA, entre a situação atual e a decorrente da nova lei.

  2. ganda nóia says:

    “aprovada às escondidas”. a narrativa dos media liberais e pelos vistos do come-palha bruno.

  3. Paulo Marques says:

    Eu não percebo porque é que anda toda a gente indignada com o estado pagar a actividade dos partidos quando o suborno partidário acabou de ser legalizado.
    Se não é o estado a pagar, é alguém.

  4. Ana A. says:

    Se eu tivesse que comer em restaurantes cujos menus não me agradassem, de todo, o que eu faria era simplesmente cozinhar a minha própria refeição! Por certo que não iria deixar de me alimentar.
    O mesmo se passa com os “menus” partidários: não nos servem?! Pois estamos à vontade para nos organizarmos e ir à luta! Ou será que estamos condenados a votar em quem não nos representa ou a abster-mo-nos?! A abstenção, que eu saiba, não impede de sermos governados por quem não desejamos!

    • Carlos Almeida says:

      Boas Ana A.

      Não está a sugerir uma “coisa” semelhante á versão laranja do PP, castelhano, o partido Ciudadanos.
      Não resolve nada a não ser para os que vão atrás das etiquetas em vez vez de tentarem perceber quais as forças sociais que estão por detrás dos “labels”. Podem substituir os “franquistas declarados” do PP, com outra conversa, mas na realidade são mais do mesmo.
      Em Portugal é a mesma coisa mas ainda e só ao nível autárquico:
      Os partidos ou melhor dizendo, as listas ditas independentes, não são mais do que grupos resaibiados do partido que esteve no poder porque no bolo só lhes saiu a “fava” e aos outros amigos a “prenda”.
      “Independente” só conheci um Jornal : O “Diario da Manhã” antes do 25 de Abril, que dizia no seu editorial: “Somos independentes em Politica e Ricos em editoriais”.
      Curiosamente era o Jornal da PIDE

      • Carlos Almeida says:

        Para que não haja as costumadas “interpretações oportunistas”, da ultima frase, não estou aqui a fazer passados 50 anos a apologia do jornal fascista citado.

      • Ana A. says:

        Carlos Almeida,
        Por acaso não estou a sugerir nada do que descreveu acima, e nem pertenço a qualquer grupo de ressabiados. E porque “carga d’água” é que não podem surgir novos partidos e/ou grupos de pressão de cidadãos, com ética e valores humanistas que trabalhem em prol do bem comum: justiça, paz, dignidade humana, solidariedade…eu tenho uma filha e almejo para ela um mundo mais respirável!

        • Carlos Almeida says:

          Boa tarde Ana A

          Ainda bem que não está a sugerir o modelo do “Podemos” vs “Ciudadanos”, estes últimos organizados pela direita espanhola para combater o “Podemos” e com bons resultados pelos vistos . Eu pessoalmente não acredito nesses partidos, tipo “Fast Food”.
          Embora o caso Catalunha mereça uma analise mais profunda, o próprio Mariano faz lembrar que, se o Partido Ciudadanos teve mais votos nestas eleições na Catalunha, tinha sido o Podemos o mais votado nas anteriores.
          Quero eu dizer que este tipo de partidos têm um comportamento muito volátil e não me merecem grande confiança.
          A sua réplica inevitável em Portugal, será mais do mesmo e de certeza nada de inovador trará
          O meu comentário dos ressaibiados também não era com certeza dirigida nem a si, nem a ninguém em particular, mas resulta da minha experiência das eleições no interior do País, mais concretamente nas ultimas eleições autárquicas no “Cavaquistão”, onde apareceram muitas listas ditas independentes, constituídas por pessoas com o perfil que assinalei no meu post.
          Mas as minhas desculpas se a molestei.

          • Ana A. says:

            Não molestou nada! Apenas esclareci a minha posição quanto ao assunto e concordo consigo, no geral, apenas discordo no que diz respeito ao pensamento negativo subjacente, de que: ou isto…ou pior!
            Há que ter fé na humanidade, Carlos!
            Bom Ano!

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