A destruição premeditada do Serviço Nacional de Saúde

O Ministério da Saúde disponibiliza, através do seu sítio na internet e de uma aplicação específica para telemóveis, o MySNS Tempos, os tempos médios de espera nas urgências dos hospitais do Serviço Nacional de Saúde de todo o país. A ideia é excelente, pois coloca a tecnologia ao serviço dos cidadãos que, no caso dos que precisam de recorrer às urgências dos hospitais, se encontram numa situação particularmente frágil.

A imagem que se segue é um printscreen da aplicação MySNS Tempos, feito no dia de ontem, pelas 21h02, retratando a situação da Urgência Polivalente do Centro Hospitalar de Gaia. Conforme se pode verificar, às 21h00 havia 66 pessoas na urgência do Hospital de Gaia identificadas pela Triagem de Manchester com a cor verdeMenos Urgente – e que, segundo o Ministério da Saúde, tinham à sua frente 39 minutos de espera até serem atendidas por um médico. Havia 70 pessoas identificadas com a cor amarelaUrgente – que iriam esperar 2h30m e, finalmente, 4 pessoas identificadas pela cor de laranjaMuito Urgente – que esperariam, segundo o Ministério da Saúde, 22 minutos até serem observadas.

O leitor pode perguntar por que motivo um doente Urgente espera 2h30m, enquanto o Menos Urgente espera 00h39m, segundo a informação prestada pelo Ministério. Não faz nenhum sentido e por isso não se compreende. Mas há coisas que se compreendem ainda menos. É que tudo isto é mentira.

Na verdade, as 70 pessoas identificadas na urgência do Hospital de Gaia como doentes Urgentes e às quais foi atribuída a pulseira Amarela, esperaram ontem mais de 7h00 – Sete Horas – até que o seu problema de saúde fosse diagnosticado por um Médico. Das 66 pessoas identificadas com a cor Verde – Menos Urgente -, muitas esperaram cerca de 12h00 – Doze Horas – para serem atendidas e as restantes simplesmente desistiram e foram embora.

A Urgência do Hospital de Gaia está transformada em unidade de internamento, com doentes arrumados em macas espalhadas pelos corredores. O cheiro a urina é nauseabundo e a falta de higiene medieval. O caos no atendimento e os longos tempos de espera foram denunciados pela Ordem dos Médicos que fala em “24 pessoas internadas no serviço de urgência”. A administração do Hospital negou, afirmando que o serviço “está a funcionar regularmente, dentro do expectável para o período do ano”. Sete horas de espera para um doente Urgente são, para o Hospital de Gaia, um exemplo de “funcionamento regular”. O caos, o cheiro pútrido, a falta de higiene, o internamento nos corredores, presume-se que “sejam expectáveis para o período do ano”.

Ontem mesmo, no Portal da Queixa, uma cidadã em desespero conta a experiência de um familiar que chegou inconsciente ao Hospital de Gaia no dia 26 de Dezembro e ao qual a Triagem de Manchester atribuíu a pulseira Laranja – Muito Urgente. Ao fim de 6h30 a família foi informada por um recepcionista que deveriam solicitar transporte aos Bombeiros, pois a doente iria ter alta para o domicílio. Após uma discussão com a médica de serviço, a família levou a sua doente para um hospital privado da cidade, onde faleceu menos de 24 horas depois.

Esta realidade quotidiana – a da carne viva – é um pouco diferente das vergonhosas acções de propaganda em torno da Agência Europeia do Medicamento ou do Infarmed, brincadeiras de políticos ociosos sem nenhum respeito pelo seu semelhante e para quem o governo da coisa pública se equipara à gestão de um circo. O seu único propósito é permanecer donos do chicote.

O exemplo do Hospital de Gaia retrata a destruição premeditada que está a sofrer o Serviço Nacional de Saúde, às mãos de responsáveis públicos eleitos para o proteger mas cujas prioridades são bem diversas. A Câmara de Gaia, por exemplo, acabou de gastar a módica quantia de 56.854,29€ em mobiliário de escritório para o gabinete do seu presidente e, para que o saneamento financeiro a que autarquia falida foi sujeita tenha préstimo decente, pagou pela promoção das fantasias natalícias deste ano 236.153,85€ ao grupo Global Media. Só no dia de hoje, 3 de Janeiro de 2018, o Jornal de Notícias trazia um rodapé de primeira página e mais três páginas inteiras de publicidade ao evento. Este presidente foi eleito pela primeira vez prometendo um novo Hospital público para Vila Nova de Gaia.

Comments

  1. Paulo Marques says:

    Honra seja feita a Paulo Macedo.

    • Bruno Santos says:

      Já foi.

      • Paulo Marques says:

        Já foi, mas rapidamente a CS se calou sobre as consequências dos cortes e da situação pouco diferente da que descreve (resta saber se piorou ou não, em média). Os velhos a morrer após 8 horas no hospital desapareceram ao fim de uma semana por entre os milagres da troika e do pós-troika um tudo nada mais ligeiro.
        A história é a mesma, seja no SIRESP, na PJ, no SNS, em Tancos ou noutro sítio qualquer: a eurolândia é um desastre e só quando cair uma ponte ou três é que alguém vai perguntar como foi possível destruir um continente durante tanto tempo.

        • Paulo Marques says:

          Mas continue lá com a sua cruzada com aquele que já pensou ser Deus na terra, quando sair há-de continuar tudo na mesma.

  2. Olinda Cunha says:

    Os tempos do seguidismo político parecem estar a desaparecer no Aventar Está agora mais próximo da verdade: não interessa se é de esquerda ou e direita, interessa sim se esta certo ou não, segundo o nosso critério pessoal ou a nossa consciência, sem medo de sermos apelidados de fascistas, ignorantes, etc.

  3. Ana A. says:

    O SNS é um alvo a abater! Um país pobre onde o SNS é (ou foi) um dos melhores do mundo, é um mau exemplo para os países com economias avançadas!


  4. Infelizmente não é só no SNS, que se esbanja , mas como é um serviço que mexe com o que de mais nobre um ser humano tem (Saúde ) é mais visível. Vejamos o caso dos empresários que também esbanjam em carrões topo de Gama altíssima entre outras coisas, e que prestam serviços públicos e pagam ordenados de miséria aos trabalhadores que estão 14 horas ao serviço!!!!! A estes ninguém os vê!!!!!

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  2. […] se aperceber (Duarte Marques nunca desilude), o pobre está a fazer, em parte, uma autocrítica: o Serviço Nacional de Saúde está a piorar progressivamente devido às políticas deste governo, que se limita a prosseguir o trabalho iniciado por José Sócrates e continuadas entusiasticamente […]

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