A luz de Centeno

O percurso político do actual ministro das finanças pode considerar-se atípico. Atípico e meteórico. Na verdade, em apenas dois anos, Mário Centeno passou de anónimo técnico do Banco de Portugal – e presidente do Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento das Estatísticas Macroeconómicas – a companheiro de selfies da senhora Lili Caneças, Ministro das Finanças da República, Presidente e CR7 do Eurogrupo e cativo da tribuna presidencial do estádio da Luz. Há que reconhecer que não abundam os casos de tão rápida e íngreme escalada social.

Há quem assegure, como é o caso do senhor Primeiro-Ministro, que a rápida ascensão ao estrelato de Mário Centeno se deve exclusivamente ao seu talento invulgar, talento esse que terá ficado demonstrado no milagre operado na economia e nas finanças portuguesas, bem como em diversos indicadores estatísticos – uma das especialidades de Centeno – que dão corpo a esse milagre.

Note-se, a título de exemplo, a hierofania do emprego. Nos últimos dois anos foram criados em Portugal cerca de 242 mil postos de trabalho. Desse conjunto de novos contratos, 36% são contratos a prazo, 30% são contratos ainda mais precários – à peça, à tarefa, à jorna, etc. – e apenas 34% correspondem a emprego permanente. No caso dos contratos que correspondem a  um emprego permanente, o salário médio baixou, só nos últimos dois anos, de 1025€ para 837€. Praticamente todo o emprego foi criado no sector do Turismo e dos Serviços, correspondendo a postos de trabalho de baixa qualificação e, consequentemente, de baixa remuneração e alta precariedade. Há quem chegue, em alguns casos, a falar em escravatura. Radicais. Mário Centeno conseguiu ainda a proeza de transformar o Salário Mínimo no novo referencial para os novos contratos de trabalho, havendo em 2017 mais de 700 mil portugueses que recebem essa remuneração, o que representa cerca de 21,6% do total de trabalhadores com remuneração declarada à Segurança Social. Isto significa um aumento de 9,5% relativamente à estatística do ano anterior.

Ainda assim, diz o Ministro – e o seu governo – que estancou o empobrecimento do país, milagre outro que alguns economistas têm dificuldade em certificar, uma vez que usando dados estatísticos – uma das especialidades de Centeno – que tenham como base a linha de pobreza ancorada ao ano de 2009, o número de portugueses em situação real de pobreza é de 2.175.320 e não 1.886.652 como tem sido divulgado. Ou seja, 21,1% da população. Tal não impediu, é certo, que o CR7 do Eurogrupo perdoasse à Brisa 125 milhões de euros em IRC, valor que representa uma percentagem muito significativa daquele que Centeno gastou a realinhar as tabelas de IRS, ganho extraordinário que os pobres certamente irão canalizar para o seu novo desígnio vegetariano, estourando tudo em couves.

Comments

  1. ganda nóia says:

    outro palhacito do aventar a fazer o servicinho aos saudosistas das trevas de gaspar e albuquerque.

    • Carlos Almeida says:

      Palhacito ?

      Absolutamente NÃO CONCORDO
      Grande Palhaço que tem saudades do tempo em que ainda não tinha nascido, é o que queria dizer !

      Mas os bandidos julgam que a gente não tem memoria !


  2. Se o pessoal se estiver a cagar para as noticias da direita a coisa morre no ovo…

    • Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

      É verdade. O problema é quando a mente está toldada pela bola. Nesta altura, até o Observador e o Correio da Manhã são … inúteis… ma non troppo.

  3. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    Misturar o percurso político do Ministro das Finanças com o Estádio da Luz, só demonstra uma cegueira, igual à de uma boa maioria dos portugueses que escolhem pessoas como Cavaco, Passos Coelho ou insistem no Arco da Governação.
    Este artigo fica, logo à partida, toldado por uma qualquer cor clubística.
    No Estado Novo era exactamente assim que se fazia: misturava-se o futebol com a política para fazer passar mensagens.
    O sistema continua vivo.
    Ou seja, na direita, esquerda e pseudo-esquerda, abunda gente que não distingue o jarro da sanita..
    Oxalá nunca se enganem.

  4. Bruno Santos says:

    P.S.
    A informação estatística contida neste artigo foi recolhida de documentos e declarações de dois conhecidos economistas ligados à extrema-direita: Eugénio Rosa e Francisco Louçã.

  5. Rui Naldinho says:

    “… a companheiro de selfies da senhora Lili Caneças,…”

    A grande vantagem desta foto colocada pelo Bruno Santos no início do seu post, é que ambos os selfados têm cara de totós.
    Por outro lado, e este é o mais importante, temos aqui a demonstração de que os bons alunos, “aquele puto marrão que nunca sai de casa e nunca bebe”, porque quer sacar um vinte no teste, quiçá ganhando no final do curso a melhor bolsa de estudo, faz sempre esta figurinha de otário.
    Já o falecido Jerry Lewis assim era, apesar de grande comediante. Coisas de génio.
    Centeno é muito melhor a gerir a conta pública do que a representar, em especial, a fazer de “Teddy Boy”. E ainda bem para todos nós. Olhem se ele fosse como o Santana das “trapalhadas”, que é muito melhor nas artes de mulherengar, do que a governar!
    Eu sei de “fonte fidedigna”, que Centeno depois de entrar para o Eurogrupo como Presidente, jurou vingar-se do seu antecessor, acordadando com o seu menager, postar umas selfies com umas maduronas da Society. De facto podia ter melhor gosto, mas nem toda a gente se dispunha a isso. A Lili Caneças, que vai a todas, lá lhe fez a vontade e deu oportunidade ao nosso Ministro das Finanças de sair à noite, algures numa festarola qualquer, quem sabe com algumas amigas do Benfica.

    Na próxima semana, siga o episódio da nova novela Portuguesa.
    “Centeno só gosta das Banfiquistas”

    • Rui Naldinho says:

      “Centeno só gosta das Benfiquistas”

      O meu tablet deve ser do Sporting ou do Porto, porque não reconhece a palavra Benfiquista. Assume-a logo como “Banfiquista”, talvez numa alusão aos bancos e às dívidas do clube da Luz.

    • Bruno Santos says:

      Caro Rui Naldinho,
      a questão dos bilhetes para ir apoiar o Benfica contra o Porto é lateral no artigo. Ainda assim, o senhor Primeiro Ministro já veio esclarecer que se o Ministro das Finanças do Governo da República mandou um assessor diplomático pedir bilhetes gratuitos ao presidente da instituição Sport Lisboa e Benfica, é porque “tinha boas razões para isso”. O assunto encontra-se, portanto, cabal e peremptoriamente esclarecido.
      Cumprimentos.

      • Rui Naldinho says:

        Caro Bruno Santos
        “…é porque “tinha boas razões para isso”…”
        Claro que tinha boas razões para isso. Esse assessor diplomático deve ter sido o mesmo, que assegurou a Nicolas Maduro que “ o governo de Portugal lhes garantiria o fornecimento do pernil de porco, para o Natal”. Não lhes disse é que primeiro tinham de pagar a conta do Natal anterior, do ano de 2016, que ainda estava quase todo por liquidar.
        Estes assessores do PS são mesmo uns gajos lixados.

  6. Paulo Marques says:

    Com olhos clubisticos, há sempre estatísticas para dizer bem e para dizer mal. Com olhos rigorosos, continua tudo um castelo de cartas baseado em disparates que não altera os baixos salários, o subemprego, as infraestruturas, a saúde, a educação e o empobrecimento ano após ano. Disto não passará a eurolândia até que um qualquer populista leve com sucesso os mesmos disparates a uma posição extrema de “senso comum”.

  7. Fernando says:

    O ponto mais alto da carreira (e talvez vida) de Centeno foi ter a oportunidade de tirar uma selfie com o monstro intelectual responsável por uma das mais inesquecíveis máximas.
    “Estar vivo é o contrário de estar morto” – filósofa Lili Caneças.


  8. Centeno, como qualquer hábil CR7
    terá uma vida profissional curta… ou encurtada
    se a vida (ou Bruxelas) lhe der
    uma valente canelada

    nada que não possa acontecer


  9. Bruno Santos, no alinhamento de análise crítica inteligente e sarcástica que faz com o seu post, quanto a mim ao lado e fora de cores partidárias e /ou futebolescas das opiniões politiqueiras qb vira o disco e toca o mesmo dos comentadores, eu o cumprimento.
    Com frases como esta :
    …” Praticamente todo o emprego foi criado no sector do Turismo e dos Serviços, correspondendo a postos de trabalho de baixa qualificação e, consequentemente, de baixa remuneração e alta precariedade…” e :
    “…o CR7 do Eurogrupo perdoasse à Brisa 125 milhões de euros em IRC, valor que representa uma percentagem muito significativa daquele que Centeno gastou a realinhar as tabelas de IRS, ganho extraordinário que os pobres certamente irão canalizar para o seu novo desígnio vegetariano, estourando tudo em couves ”
    considero de boa leitura estes minutos consigo no Aventar.

  10. carlota says:

    Vítor Elias:)
    Lili Caneças tirou uma “selfie” com Mário Centeno no Revéillon e aprendeu com o mago das Finanças que, tal como estar vivo é o contrário de estar morto, cumprir o défice é o contrário de não cumprir, silogismo que todos os ministros das Finanças nacionais têm dificuldade em perceber. A eternamente jovem Lili Caneças ensinou ainda a Mário Centeno mais truques para maquilhar as contas públicas.

  11. antónio que se livra do demónio says:

    Extraordinária era a dupla Alburqueque & Tótó Gaspar, 4 orçamentos deram lugar a 8 retificativos, mesmo com a benesse dos cortes nunca acertavam nas contas, nem para roubar tinham jeito !
    Se este blogue continuar assim, ainda vou acabar no Insurgente.

  12. Miucha says:

    Quanto mais comentários leio mais triste fico. O ressabiamento em relação aos portugueses que alcançam notoriedade internacional pela sua competência , é confrangedor
    Orgulho de ser português , precisa-se!!!
    E se o Aventar resolve imitar o Observador, mudo-me para lá! Pelo menos é o original, não é a cópia mal amanhada e venenosa .


  13. Dos 242 mil postos de trabalho criados apenas 1500 foram criados pelo Governo de Centeno:
    https://sol.sapo.pt/artigo/581708/nao-faltam-jobs-for-the-boys-1500-assessores-nomeados-em-ano-e-meio-

    Neste momento já serão mais outro tanto , mas nada parecido com os 242000 , no entanto parabéns pois foi um bom contributo, e pelo que consta estes são bastante bem remunerados, ou seja é emprego de qualidade.

    Rui Silva

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