Deputada Isabel Moreira contra os “populistas” e “raivosos”


A nossa forma de organização social e política, o modo como a Constituição da República consagra a separação de poderes e a responsabilidade de cada um deles, os direitos que a mesma Constituição estabelece no âmbito da liberdade de pensamento e de expressão de que é legítima usufrutuária a chamada sociedade civil – os cidadãos -, parecem, por vezes, ser um enfado, uma chatice, para a senhora deputada Isabel Moreira.

É verdade que a senhora deputada é uma das mais inteligentes – e influentes – figuras do Partido Socialista, conhecedora profunda dos mais acertados métodos de unir inteligência e influência, mas por vezes parece que o nosso regime fica algo aquém da sua potência esclarecida e da suprema razão que detém sobre tudo o que diz e que tantas vezes, com tanto sacrifício, tenta explicar aos mortais republicanos que cegos vagueiam na sombra da sua saia.

Decidindo ressuscitar um assunto quase morto – o financiamento dos partidos – a deputada Isabel Moreira fez-se descer do trono e esclarecer o povo, através das páginas do Expresso, que “mais do que críticas normais em democracia que podem ser feitas às opções do legislador legislador foi o termo com que a senhora deputada baptizou o grupo de deputados que urdiu em segredo a conspiração fiscal – ou à forma como um procedimento legislativo decorreu – a senhora deputada chama procedimento legislativo a reuniões secretas, sem acta e sem identificação dos autores das diferentes propostas articulares -, interessa-me estar atenta ao fenómeno da ignorância perigosa e militante sobre o que é uma democracia representativa”.

Isabel Moreira está preocupada com a “ignorância perigosa”, pois diz que “essa ignorância é explorada pelos populistas (…) para capitalizar a raiva de quem precisa de culpados pela sua circunstância”. A senhora deputada não explica exactamente – por manifesta falta de espaço-tempo, supõe-se – quem são os “populistas” e que “raiva” é essa que contamina a sociedade portuguesa mas que, paradoxalmente, lhe reserva, legislatura após legislatura, uma cadeira forrada na Assembleia da República. Mais afirma – sem, contudo, explicar por que afirma- que a “alegada retroactividade” – da lei vetada pelo Presidente da República- é uma das mentiras propagadas por essa turba “populista”, “raivosa” e sedenta de se vingar da “classe política”, a que com tanta inteligência e eficácia a senhora deputada pertence, circunstância que lhe tem permitido, sem legitimidade representativa comprovada, concretizar uma agenda política pessoal, que uma grande parte do próprio eleitorado do Partido Socialista não subscreve.

Acontece que há “legisladores” e “legisladores”. E terá sido por, certamente nefasta, influência dos tais “raivosos” e “populistas” inimigos da “classe política”, que Isabel Moreira desencanta no meio do seu discurso de vítima de classe, que o jurisconsulto Jorge Miranda – que me absterei de apresentar à senhora deputada – escreve no Público (3/01/18):

“Muito mais grave vem a ser, enquanto norma transitória do conjunto de diplomas, dispor-se a sua aplicação tanto aos processos novos como aos processos pendentes à data da sua entrada em vigor que se encontrem a aguardar julgamento, sem prejuízo da validade dos atos praticados na vigência da lei anterior (art. 7º). Eis uma norma de carácter retrospectivo e que colide com o regular funcionamento das instituições, por atingir processos pendentes de decisão do Tribunal Constitucional”.

A deputada Isabel Moreira termina o seu artigo no Expresso afirmando que “não gosto de ver falsas virgens a terem por escandaloso o que sempre foi feito, a tirar proveito eleitoral de quem não percebe que os Deputados representam o país…” Duas informações gratuitas à senhora deputada Isabel Moreira: 1) nem sempre “o que sempre foi feito” está certo ou é aceitável. Se assim fosse, ainda teríamos Polícia Política, Negreiros ou soldados em África. 2) Não sei exactamente que país a senhora deputada pensa representar, mas não é o meu.

Comments

  1. antónio que se livra do demónio says:

    Bom mesmo era uma “democracia” com partidos apoiados pelos supermercados ou a EDP, tudo na maior transparência claro está.
    Acho que o CDS já o é, senão terá de explicar muito bem como faz figura de rico tendo meia-dúzia de apoiantes.

    • joão lopes says:

      já existe o partido celtejo(celulose da zona de vila velha de rodão) que comprovadamente tem feito sucessivos ataques ambientais ao Rio Tejo,ás populações que vivem na zona,e mesmo os que vivem do Tejo,e que agora ameaça cidadões portugueses,que tem feito serviço publico(denuncia com provas de ataques ambientais e de saude publica) com pedidos de 250.000 euros de coima por imagine-se,difamação.PS-já agora o ataque anti partidos veio do Observador,cujos donos tem interesses nas celuloses.

  2. Como sabemos – isto é: alguns saberão, outros não sabem, outros não querem saber e, há ainda aqueles que lhes convém que não se saiba – há políticos e políticos, e democratas e democrata. Para certos e determinados políticos – como é o presente caso – o ser-se eleito em representação teria como única finalidade a substituição completa daquilo que se reporta à qualidade de cidadão; que assim, na sua essência, até o deixaria de ser. Dentre aqueles, os defensores da partidocracia – como é o presente caso – que, como os democratas sabem, constitui uma deformação sistemática da democracia, gostariam até de retirar a capacidade de pensar ao referido cidadão – porquanto, a de actuar, no seu entender, é suprimida pelo acto de votar. Não é por acaso que os defensores desta atitude exigem, em relação àqueles sobre os quais poderão exercer um controlo mais directo e eficiente – porquanto membros dos seus partidos – uma total obediência, senão de pensamento, de acção – o tal seguidismo partidário. Assim sendo, obviamente, na sua qualidade de representantes dos cidadãos, gostariam e retirar a estes a sua capacidade de pensar ou de os criticar, contudo, como não o podem fazer, vai daí as tais acusações de populismos e outros mimos que tais. Como sabemos – não vou repetir – a salutar existência e desenvolvimento da partidocracia requer “carneirismo”, na convicção que os eleitos políticos, por este motivo, estarão numa escala muito acima do vulgar cidadão. Podendo aqueles, como alguns deles defendem – entre eles, o presente caso -, deter o poder de fazer o que quiserem e como o quiserem fazer, limitando-se o cidadão, na sua omissão – ditada pelo acto da votação -, a tudo aceitar. Também é por tal que os democratas, mesmo que com algumas simpatias partidárias, sentem grandes dificuldades em pertencer ou, quando o fazem, manter-se nos partidos. São exemplos disto as ameaças de expulsões partidárias por delito de opinião ou de acção, como foi o caso provocado pela participação em listas independentes nas recentes eleições autárquicas. Felizmente que temos pessoas como Jorge Miranda. Bem Hajam. Não esquecendo nós que “Para o Mal avançar, basta as pessoas de Bem nada fazerem”.

  3. ganda nóia says:

    bruno santos, está de parabés, este é um fantástico exercício de distorção das palavras alheias.

  4. ganda nóia says:

    *parabéns.

  5. atento às cenas says:

    populismo

  6. A Isabel Moreira, coitada, está sempre na posição da oprimida. Há para aí muitos meninos maus e poderosos a oprimi-la. Ela, uma indefesa deputada da maioria parlamentar, é praticamente uma sans coulottes.

  7. Se em vez de “consensos” em causa própria, legislassem sobre o que realmente aflige o país há décadas, não teríamos uma falha tão grande do Estado em área como os incêndios, saúde, ou até, oh loucura em ousar tanto, sinistralidade rodoviária, a tragédia silenciosa que parece que ninguém quer olhar, por mais que nos acerte de frente, todos os dias…

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