Chico Fininho

O actor Vítor Norte como Chico Fininho, no filme de Sério Fernandes inspirado no tema de Rui Veloso (de 1979).

Um jovem doutorando da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto publicou, no passado dia 29 de Dezembro, um estranho artigo no jornal Público, sob o título “Queres tomar MDMA? Informa-te”. O título do artigo diz ao que o jovem vem e corresponde ao seu conteúdo. Trata-se de uma subtil apologia do Ecstasy, uma droga dura e sintética que nos anos 90 era presença assídua nas raves e que aparecia quase sempre associada à música tecno.

Diz nesse artigo o jovem doutorando que o MDMA (Ecstasy) é uma das “substâncias” mais procuradas em Portugal e que a informação que circula sobre ela não é muito fidedigna. Mais adianta que se trata de uma “substância psicoactiva” que “provoca efeitos estimulantes, de bem estar e empatia”. Todo o texto evolui neste tom subtilmente apologético, tratando uma das drogas  sintéticas mais duras e perigosas que existem como se fosse uma simples aspirina. Por outro lado, o mesmo jornal publica hoje um outro artigo com um alerta para as dietas ricas em sal, “substância” que, segundo o texto de Andrea Cunha Freitas, pode “comprometer funções cognitivas e neurovasculares” quando consumida em excesso.

Quem se der ao trabalho de comparar os dois artigos, sem nenhum conhecimento prévio sobre o tema, ficará com a ideia de que comer uma sandes de presunto é tão perigoso para a saúde como tomar uma pastilha Ecstasy. Como é óbvio, isto não é verdade. Existe vasta literatura médica sobre o Ecstasy, retratando os efeitos que o seu consumo pode ter sobre o organismo, efeitos esses que vão desde os danos neurológicos permanentes até à morte. Sendo certo que talvez não faça bem à saúde comer sandes de presunto todos os dias, comparar o fumeiro a uma pastilha de MDMA é um absurdo. Mas, por vezes, parece ser esse o caminho que trilhamos, rumo à acumulação e propagação de pseudoconhecimento intrinsecamente contraditório.

A recente e curta discussão sobre a Cannabis e o seu uso médico ou recreativo faz parte deste caldeirão (des)informativo. Poucos são os que se preocupam com o aprofundamento da informação sobre o assunto, partindo quase de imediato para posições fechadas e protegidas por  alegadas verdades científicas de difícil escrutínio, frágil consenso e poderosas motivações económicas, com base nas quais se pretende legislar e, por essa via, desenhar e promover modelos de comportamento legítimo ou socialmente aceitável.

Se é um facto que a Cannabis é uma planta usada há milénios pela humanidade para diversos fins – a sua fibra, o Cânhamo, desempenhou um papel muito importante nos Descobrimentos  marítimos portugueses, por exemplo, – também é verdade que perdeu parte da sua integridade genética, tendo sofrido alterações – designadamente, mas não só, ao nível da concentração de THC, a substância psicoativa – que a tornaram num produto cujo consumo está longe de ser inofensivo. E por muito grande que seja o esforço por estabelecer comparações entre aquilo que foi o mundo nos anos 60 ou 70 do século passado e aquilo que ele é hoje, nenhuma dúvida resta sobre a profunda transformação que nele se operou a diferentes níveis. Essa transformação deu-se na cultura, nas motivações e na natureza dos problemas que afectam as pessoas, mas também na química da própria Cannabis, desde a semente que cai à terra, até à super-estrutura de produção, processamento e distribuição do produto de consumo. Mas não só.

Quem hoje passar à porta de uma escola e inspirar profundamente, corre um sério risco de experimentar leves modificações ao nível da percepção, tal é a quantidade de gente nova que aderiu ao fascínio do charro e o fuma praticamente em qualquer circunstância e sem a preocupação de resguardar o seu gesto do olhar e do olfato alheios. Mas essa aparente atmosfera de liberdade, vagamente inspirada no rasto da força simbólica herdada de movimentos pró-legalização do século passado, aparenta não ter em conta transformações importantes entretanto sofridas, quer pela planta, pelos rituais e pela cultura a que estava associada, quer pelas próprias pessoas, hoje muito mais expostas a adicionais mecanismos de alienação aos quais têm muita dificuldade em resistir.

Comments

  1. Paulo Marques says:

    “um alto teor de sal (oito a 16 vezes mais do que a dieta normal)”
    “Falta saber de que quantidade de sal a mais estamos a falar, durante quanto tempo e, ainda, quanto tempo demoraríamos a conseguir recuperar deste dano se travássemos esta dieta errada.”

    Mais uma vez, coisa nenhuma sobre o consumo de sal numa refeição normal.

    ” tratando uma das drogas sintéticas mais duras e perigosas ”

    Infelizmente, não é mesmo um dos mais perigosos psicotrópicos artificiais, mas não é por aí que é recomendável.

    “A recente e curta discussão sobre a Cannabis e o seu uso médico”

    Comparado com a praga extremamente lucrativa e destrutiva dos opioides, venha a cannabis, ontem.

    • Dragartomaspouco says:

      Não gastem o sal todo, porque vai fazer falta para a salgadeira, que é o vosso destino


  2. Parabéns pela informação e alerta importante, Bruno Santos.

    ….que desinformação, alguma tendenciosa, sim, abunda por aí perigosamente.

  3. Fernando Manuel Rodrigues says:

    Fosse esta desinformação apenas circunscrita às drogas. Infelizmente, a “praga” perpassa toda a sociedade, com artigos igualmente desinformativos e pseudo-científicos sobre o racismo, a xenofobia (vidé o que se passou recentemente com a estátua do Padre António Vieira), o “género”, a transexualidade e as operações para mudança de sexo, e agora o tema do momento – o assédio sexual.

    Sobre o malefício do sal (como do açúcar, do vinho, das gorduras saturadas, dos produtos de fumeiro, do queijo, do glúten, do leite, do sol, da falta de exercício físico, do colesterol, etc., etc. – a lista de perigos e substâncias perigosas podia ir por aí fora a perder de vista) só tenho a dizer uma coisa – a sociedade está doente, e receio bem que já tenha ultrapassado o ponto de possível cura.

    E o politicamente correcto é uma das manifestações mais visíveis dessa doença. Os artigos mencionados são, de resto e em minha opinião, derivações dessa mesma linha de pensamento “politicamente correcto”.


    • Subscrevo a mil por cento, Fernando M. Rodrigues !!

    • Paulo Marques says:

      … diz o homem branco do alto do seu privilégio. Que já foi maior quando o racismo alemão não lhe tocava a ele.

  4. Mafarrico says:

    Talvez valesse a pena questionar como é que uma civilização sobreviverá aceitando a alienação como algo normal, quase desejável, enquanto controla cada vez a vida individual dos cidadãos.

  5. Alfredo Martens. says:

    … e o que é que essa ” informação ” que aqui veiculas tem a ver com o Victor norte, Rui Veloso, e essa merda do Chico fininho filme??, e esse Imbecil e autêntica fraude chamado sério Fernandes, não entendo …


  6. Dá pena falar de alguém que não se pode defender… como esses imbecis, abortos atirados á natureza, e atrasados mentais que seguem esse ” sedutor ” chamado sério fernandes um autentico malabarista um Alves dos Reis dos tempos modernos que fez ? mas será que fez ? esse filme ? a que se dá o nome de “chico fininho” … a partir daí as penas de pavão, o ego, a imbecilidade não deixaram de crescer. Um triste. Quanto ao Rui Veloso ele não nasceu em Lisboa ? faz coisas boas sem duvida o outro o que começou a ver cinema aos 35 anos só teve de se aproveitar do momento, nome, estatuto, e fazer esse tormento. Conclusão á custa dessa treta faliu fraudulentamente a produtora despedindo sem qualquer pudor os funcionários que lá trabalhavam. Só me vem um nome á cabeça. Um autentico vigarista bem falante. Uma nódoa que se faz passear pela Invicta Cidade do Porto.