O Apanha Alminhas

Almada Negreiros. Óleo sobre tela. Sem título.

 

Conta-se que vivia no Porto, pelos finais do século XIX, um certo Typo Estranho, como lhe chamavam os jornais da época. Estranho no sentido em que ainda hoje o são alguns tipos que habitam as margens do quotidiano, muitas vezes em solidão voluntária, e que se destacam por terem algumas características peculiares. Às vezes é o modo como vestem, ou a atitude alheada, ou os gestos que não combinam com a coreografia comum das ruas e das pessoas e dos espaços citadinos. Sempre houve esses Typos. Por vezes chegam e partem levando consigo a tragédia que já traziam, ou não, apenas a comédia ou a elevada consciência do momento, que os faz transbordar para um plano paralelo ao mundo comum.

Pelos finais do século XIX, o Apanha Alminhas era visto pela zona dos Clérigos, no Porto. Diziam que o seu porte era de aristocrata e o trajo, embora andrajoso, denunciava um passado nobre, de elegância entretanto comprimida por um peso desconhecido. Caminhava absorto, de olhar sempre posto no infinito, por vezes falando sozinho. De quando em vez inclinava-se para o chão parecendo apanhar qualquer coisa que talvez lá estivesse mas que mais ninguém via, que de seguida colocava debaixo da cartola. Dizia-se que eram Alminhas o que ele recolhia do chão e por isso lhe chamavam o Apanha Alminhas.

O quadro a óleo que se vê na fotografia foi pintado por Almada Negreiros e não tem título. Não está sequer datado ou assinado. Esteve por estes dias exposto no Museu Soares dos Reis, no Porto. Representa um Anjo apanhando do chão uma Estrela de Cinco Pontas – Pentagonal – que, presume-se, irá guardar no pequeno cesto que traz no braço. É uma obra absolutamente maravilhosa, de um Artista ímpar na História de Portugal e do mundo. Para pintar este quadro, Almada Negreiros teve que “Pintar o Sete três vezes”, como escreveu Mário Cesariny, ou seja, teve que ir ao fim do mundo e regressar. É claro que, tal como diriam os transeuntes da Rua dos Clérigos em finais do século XIX, não há estrelas no chão, nem anjos que desçam do céu a recolhê-las em cestos ou debaixo da cartola. Ainda que a estrela do Anjo de Almada – que quer dizer Ponte em Árabe – tenha a forma vitruviana do Pentágono e seja na simbólica do Cinco que se condensa toda a esperança humana na eternidade do Espírito.

Comments


  1. Na minha rua também costuma andar um indivíduo que, pelo vestir, andar e comportamento, se distingue da maioria dos outros que por aqui andam ou passam. Anda muito devagar, dá uns passos, curva-se, apanha algo do chão, avalia o que apanha e depois mete no bolso da camisa. Certamente, já sabem do que se trata: apanha beatas do chão que, mais tarde, penso eu, fumará; porque jamais o vi a fumar.
    Não será muito provavelmente registado em qualquer quadro ou aguarela, mas pergunto-se – já que falou em ponte – que caminho seguiu que o leva a que passe ao nosso lado quase sem dar-mos por isso.


  2. Vim aqui ao fim de um dia difícil e aflito, e aceder ao vosso talento de deixar no “papel” estes dois pedaços de boa literatura pelo humanismo que nos trazem e sensibilizam, o meu bem hajam, Bruno Santos e Bento Caeiro. coisas bonitas vão acontecendo, e nós a sermos capazes delas, que bom !