O Professor Doutor de Gaia

No passado dia 13 de Janeiro houve um site anónimo que decidiu recuperar uma notícia dada originalmente pelo jornal Público há cerca de um ano sobre as relações entre o actual executivo da Câmara de Gaia e as principais IPSS do Concelho. A notícia refere que “familiares directos do presidente da Câmara de Vila Nova de Gaia, Eduardo Vítor Rodrigues, e do vice-presidente, Patrocínio de Azevedo, a adjunta da presidência e autarcas de juntas de freguesia, todos com responsabilidades políticas no PS, integram a direcção de três das principais instituições de solidariedades social do concelho, a quem a autarquia entregou o negócio das Actividades de Tempos Livres (ATL) nas escolas, que eram geridos pelas associações de pais.”

O presidente da autarquia de Gaia, que faz questão em assinar o seu nome com o prefixo “Professor Doutor”, decidiu, mais uma vez, usar o Feicebuque para fazer prova do seu elevado nível intelectual. Num texto que apagou pouco depois de ter publicado, o “Professor Doutor” de Gaia escrevia o seguinte:

“Uns porcos fascistas, sob anonimato, puseram a circular uma cena a dizer que eu dei emprego a toda a Família na Câmara. Como isso é totalmente mentira, vai para tribunal. Como são anónimos, escapam a levar na tromba”.

Post publicado e posteriormente apagado por Eduardo Vítor Rodrigues

Se este tipo de linguagem é próprio de um “Professor Doutor” presidente da terceira maior câmara municipal do país, cargo que acumula com o de presidente do Conselho Metropolitano do Porto, é algo que cabe a cada um avaliar. A verdade é que este dirigente nacional do Partido Socialista aguarda julgamento pela prática do crime de difamação e mantém, apesar disso, uma postura pública que é difícil de compatibilizar com as responsabilidades dos cargos que ocupa. O prejuízo que causa a pessoas e instituições com as quais se relaciona é algo que será certamente alvo de avaliação competente, sendo certo que a direcção nacional do PS não pode deixar de levar em conta o dano que este tipo de comportamento causa à dignidade do Poder Local, do próprio Estado e à imagem de toda a classe política perante os cidadãos.

Acresce que se ficou a saber esta semana, já depois da declaração que o presidente da câmara de Gaia fez contra os “porcos fascistas”, que, afinal, o Instituto da Segurança Social (ISS) levou a cabo uma inspecção à Cooperativa Sol Maior, IPSS de que foi fundador o próprio “Professor Doutor” e que a notícia aponta como sendo uma das principais beneficiadas pela Câmara de Gaia. Os resultados desse processo de investigação – que demorou mais de um ano a ser realizada – foram remetidos pela Segurança Social ao Ministério Público, uma vez que foram detectadas “várias irregularidades” que a notícia não especifica, mas que, pelos vistos, são suficientemente graves para requererem tratamento judicial.

Contactado pelos jornalistas, o “Professor Doutor” Eduardo Vítor Rodrigues não terá desta vez apelidado ninguém de “porco fascista” nem ameaçado “dar na tromba” a alguém por causa de “cenas” que pôem a circular. Limitou-se a afirmar que “desconhece a auditoria”, recusando-se a comentar “questões às quais é terceiro”. Ou seja, o presidente da Câmara de Gaia é “terceiro” relativamente à sua própria mulher, que pertence à direcção da IPSS que o autarca fundou e viu o seu salário ser aumentado, segundo a notícia, 390% em apenas cinco anos, passando de 475 para 2343,71 euros. É “terceiro” em relação ao seu próprio chefe de gabinete na autarquia, que ocupa igualmente um lugar na direcção da IPSS em causa. É “terceiro” em relação à sua adjunta – irmã do chefe de gabinete – que faz também parte da direcção da IPSS. É “terceiro” relativamente às outras instituições que empregam familiares de autarcas de Gaia e às quais a Câmara Municipal entregou o negócio do ATL. É “terceiro” em relação a um financiamento à IPSS que a sua própria mulher dirige e que o próprio votou em reunião de Câmara.

Resta-nos aguardar para ver se as autoridades judiciais deste país são também “terceiras” em relação a tudo isto.

Comments

  1. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    Realmente, a fazer fé no que aparece escrito, estamos perante uma pessoa de altíssimo nível social, professoral e doutoral.

    Também é verdade que num estédio de futebol, toda a gente sabe disto, é-se incapaz de distinguir o ser com canudo do ser que não o tem…
    Se calhar a figura em causa usará o Facebook para dizer dos detractores o que os assistentes da bola dizem dos árbitros e dos jogadores adversários.
    Posturas que, de algum modo, o bom senso – se existisse – deveria actuar como um catalisador negativo em pessoas tão sanguíneas.
    Mas a ser verdade, ter um Presidente da Junta Metropolitana do Porto – na qual me insiro – como o que aqui aparece relatado é preocupante para a sanidade mental e psicológica da nossa classe política.

    Por outro lado as IPSS parecem ser uma espécie de “Jardim das delícias” a que a gente “socialista” tem dificuldade em resistir no que toca a “provar frutos”, e onde até Secretários de Estado são aparentemente, apanhados a sorver o mel…

    O que me espanta – e se calhar não – nesta novela toda, é o silêncio do PSD e do CDS sempre tão solícitos a acorrer aos desvarios do PS.
    E espanta-me – se calhar também não – o silêncio dos partidos que suportam o governo.
    O que me parece é que estamos perante uma agregação mesteiral e corporativa que julga estar acima de tudo, de todos e da lei, que denuncia e ataca o “adversário” quando lhes dá jeito e que se defende com unhas e dentes quando a sua integridade é tocada, o que nos deverá por a pensar no actual estado dos seus rabos.

    Enfim, do caso super-hiper badalado da Raríssimas, passou-se ao silêncio. Deste caso ainda dele não saímos.
    E entretanto o espírito corporativista dos políticos, bem à Estado Novo, lá segue cantando e rindo…

    • Bruno Santos says:

      Tem toda a razão.
      Há silêncios que são muito difíceis de explicar. Aliás, uma vez que se trata de uma questão que também envolve as Escolas, as ATL e, necessariamente, as Associações de Pais, talvez ainda venha a ser possível conhecer a opinião do meu subtil amigo Albino Almeida, antigo presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais e actual presidente da Assembleia Municipal de Vila Nova de Gaia. Uma vez que é um reconhecido especialista em Educação, a sua opinião sobre esta – e outras matérias – talvez venha a ser um contributo válido para o esclarecimento integral dos cidadãos e até, quem sabe, da própria Justiça. Aguardemos.


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      • Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

        Esperemos então que o Sr. Albino Almeida se possa pronunciar, segregando-se assim, tal como digo no meu primeiro comentário ao seu post, daquela ” (…) agregação mesteiral e corporativa que julga estar acima de tudo, de todos e da lei, que denuncia e ataca o “adversário” quando lhes dá jeito e que se defende com unhas e dentes quando a sua integridade é tocada (…)”

  2. Mr José Oliveira Oliveira says:

    E prontos! É o PS-que-temos, a classe-política-que-temos, o país-que-temos. Mais palavras para quê, são artistas portugueses e usam o politiquês todos os dias.
    Não esbanjámos…..Não pagamos!!!

  3. Filomena says:

    Faça-se um levantamento de todos os “(pro)fessores/as autoproclamados (dau)tores/as” é de bradar aos ceus e de caír para o lado, não são sequer braços direitos esse aprendizes presidentes somente os seus braços articulados, esse fulano do alto da sua frustração julga-se cabeça de polvo e será quenão há ninguém capaz de lha cortar definitivamente?! Livrem-nos dessa peste, pesquise-se e descobrir-se-á muitos desses braços com apenas a 4ª classe e obrigam os subrdinados a tratá-los por doutores, o medo reina nas juntas de freguesia, certos funcionários vão trabalhar com um nó no estômago, bullyng, limpeza geral precisa-se!…

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