Um homem é um homem e um bicho é um bicho.

Os factos que a seguir se relatam são verdadeiros e estão documentados.

No dia 18 de Setembro de 2017 respondi por email a uma oferta de emprego surgida no conhecido site Net-Empregos. O anúncio era anónimo, informando apenas que se tratava de um “conceituado grupo de Empresas de Engenharia e Construção localizado em Vila do Conde” que pretendia recrutar um Designer Gráfico.

No dia seguinte, de manhã, recebi um telefonema da responsável pelo departamento de recursos humanos da empresa, Ana Cunha, informado-me que eu tinha sido seleccionado para entrevista de recrutamento e dando-me conta que a entidade em causa pertencia ao Grupo Azevedos, tratando-se, mais concretamente, da Construtora Lucios, uma empresa com actividade pujante em todo o país na área da reabilitação urbana e em outras áreas da indústria da construção. Assim sendo, convidou-me a realizar uma entrevista no dia 21 de Setembro, nas instalações da empresa, convite ao qual obviamente acedi com entusiasmo.

Realizada a entrevista, fui convidado pela empresa, ainda no âmbito do processo de recrutamento, a fazer um “teste” que consistia na criação de uma “marca gráfica” que assinalasse os 75 anos de existência da Lucios. Este desafio foi lançado às 18h26 do dia 22 de Setembro de 2017, uma sexta-feira, e o trabalho deveria ser entregue até ao final da manhã da segunda-feira seguinte. Às 8h36 dessa segunda-feira remeti o trabalho concluído. Foi este:

No dia 26 de Setembro, pelas 18h56, a Lucios formalizava uma proposta de contratação, afirmando, no email que me remeteu com as condições contratuais, que “recebemos com bastante agrado a indicação que aceita este nosso desafio e que poderemos em breve contar consigo. Da parte do Grupo Azevedo’s e da equipa do Dep. de Marketing, tudo será feito para que tenha a melhor integração possível e que encontre na nossa organização uma carreira de sucesso.” 

No dia 2 de Outubro de 2017 iniciei o exercício de funções na Lucios. Como é normal nestas circunstâncias, a responsável dos recursos humanos da empresa informou-me em detalhe das regalias e deveres a que estava sujeito, fez comigo uma visita guiada pelos vários departamentos da empresa, apresentando-me aos outros colaboradores, incluíndo a administração.

Iniciei o trabalho no Departamento de Marketing, sob a responsabilidade de Ondina Machado, a directora de Marketing da empresa, que me tratou com toda a cordialidade e me foi pondo ao corrente dos vários projectos em curso, aos quais eu me iria dedicar.

Um desses projectos é o Mercado da Beira-Rio, um empreendimento cujo proprietário é a Câmara Municipal de Gaia e cujo projecto de reabilitação foi da responsabilidade da Lucios. A Lucios é igualmente detentora, juntamente com outra conhecida empresa, dos direitos de exploração desse equipamento. Acrescente-se que o Mercado da Beira-Rio é um dos mais importantes projectos que a Lucios tem neste momento e uma das mais significativas obras levadas a cabo pelo actual executivo da Câmara de Gaia.

Como é sabido, fui exonerado do cargo de adjunto do gabinete de apoio à presidência da Câmara de Gaia em Julho de 2016, na sequência directa de um artigo que aqui publiquei, e mantenho com o presidente da Câmara, Eduardo Vítor Rodrigues, um litígio judicial que aguarda julgamento. Esse facto não deixou de ser tido em conta quando aceitei a proposta de trabalho da Lucios, mas presumi que, tratando-se de uma empresa idónea, de prestígio nacional, ele em nada influenciaria as suas opções de recrutamento, feitas com base na qualidade pessoal e profissional dos candidatos e não noutro qualquer factor a isso alheio.

Depois de iniciar, a 2 de Outubro de 2017, as minhas funções na empresa, o trabalho decorreu com absoluta normalidade durante cerca de uma semana, momento após o qual a directora de Marketing, Ondina Machado, que é a responsável da empresa pela gestão do Mercado da Beira-Rio, propriedade da Câmara de Gaia, sem nenhum motivo que o justificasse deixou, praticamente, de me dirigir a palavra. Estanhando a mudança repentina e totalmente injustificada de comportamento, percebi que algo de mais grave e profundo se poderia estar a passar, pelo que decidi comunicar o facto, por escrito, a algumas pessoas cuja identidade, por agora, não vem ao caso. Disse-lhes que alguém estava a tentar prejudicar-me profissionalmente e a fazer chantagem sobre a Lucios para que me despedisse.

No dia 16 de Outubro de 2017, catorze dias depois de ter iniciado as minhas funções, enviei um pedido de informação à responsável de recursos humanos da Lucios, Ana Cunha, perguntando-lhe para que data estava prevista a assinatura do contrato de trabalho, que ainda não tinha sido assinado. Na resposta, Ana Cunha informou-me que o documento me seria entregue “nos próximos dias”.

No dia 18 de Outubro de 2017, pelas 11h48 recebi um email do departamento de recursos humanos da Lucios, dando-me instruções no sentido de me dirigir ao DRHU para “assinar o seu Contrato de Trabalho”, coisa que fiz de imediato.

A 26 de Outubro de 2017, oito dias depois de assinar o contrato de trabalho, fui despedido. A justificação que me foi dada pela directora de marketing, Ondina Machado, pessoa a quem coube comunicar-me o despedimento, foi que “não houve química”.

Não tenho, obviamente, qualquer prova material de que o meu despedimento se ficou a dever a pressões com origem na Câmara de Gaia, motivadas por sentimentos de vingança pessoal e relacionadas com o litígio legal que me opõe ao presidente da Câmara. Por não ter provas materiais desse facto, não posso afirmar que a Lucios cedeu à chantagem e às pulsões de vingança de Eduardo Vítor Rodrigues e que, por via dos interesses em causa no Mercado da Beira-Rio, me despediu oito dias depois de ter assinado comigo um contrato de trabalho.

Mas posso contar, e conto, esta história, que é verdadeira. Porque um Homem é um Homem e um bicho é um bicho.

Comments

  1. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    Era exactamente assim que a PIDE funcionava e aparentemente funciona ainda.
    E tal como no tempo do fascismo, nunca se sabia quem eram os “bufas”, alguns dos quais condecorados por um presidente da república já na era da dita democracia.
    Provavelmente, a mesma que faz com que as coisas funcionem ainda deste modo.
    Por outro lado se um presidente condecora “bufas” é muito natural que andem aí uns espécimens que se pretendam colocar na linha da frente.

  2. Ana A. says:

    “Não houve química?!!” A sério?!
    Acho que o Bruno devia processar a empresa por tentativa de assédio sexual!


  3. Não acredito em bruxas/os, mas que as/os há, há.
    Simplesmente ignóvil.

  4. Rui naldinho says:

    Ora vamos lá ver se eu entendi.
    Estou aqui sentado algures na Serra da Malcata, no cimo de uma fraga, com o meu cajado entre as pernas, o “tablete da maçã” nas mãos, e as minhas cabras sapadoras lá em baixo, tomando conta do pouco pasto que ainda resta. O meu cão pastor, importado diretamente da “Rafeilândia”, esse país encantador que dá os melhores bichos caninos da Terra, faz a guarda de honra às cabrinhas.
    Então, Bruno vamos lá entender-nos.
    A “Lúcios – Engenharia e Construção” gostou do seu trabalho, e dispôs-se a contratá-lo perante a evidência de que o meu amigo tinha valor. Achou que você seria uma mais valia para a empresa. Certo? Caso contrário, você ficava na prateleira dos dispensáveis ou dos adiados.
    A “Lucios” é uma empresa privada. Uma das tais empresas ditas competitivas do mercado, que defendem o mérito de quem trabalha, de quem tem engenho e arte, em detrimento dos ditos “coiros”, que sabemos hoje, são muitas das vezes aqueles que sendo melhor do que muitos outros, não se põem de cóqueras, perante certos déspotas.
    A “Lúcios” trabalha para varias autarquias, incluindo a de Gaia, em nome do prestígio e bom nome do sector privado, que pasme-se, em nada se confunde com essa cáfila de malfeitores da função pública e seus derivados.
    Eis senão, que por uma simples coincidência, a “Lúcios” despachou o meu amigo poucos dias depois de lá ter chegado, dispensando a sua colaboração, sem que alguém lhe tenha dito ao que vinha.
    Só posso chegar a uma conclusão:
    O sector privado em Portugal funciona ás mil maravilhas. De facto, de privado pouco ou nada tem. É mais, uma espécie de “estado de exceção” dentro dos domínios do Estado, pois coloca e descoloca trabalhadores, não em função do mérito deles, e dos seus próprios interesses como empresa privada cujo lucro é o objetivo, mas em função das benesses do Estado, a quem serve.
    Nunca tive dúvidas que o nosso liberalismo português tinha muito mais a ver com o caciquismo de que com o capitalismo.


  5. Rui, mas as empresas magnificas e empreendedores excelcios não estão, na maioria, dependorados nos orçamentos do Estado-Câmaras-Juntas e outras sucursais?
    Corporativismo de Salazar!? Era do catano…
    Este empreendorismo é chupista, predador…

  6. ZE LOPES says:

    E depois as pessoas ainda se admiram que os professores, por exemplo, se oponham ao fim dos concursos nacionais e da municipalização do ensino…

    Há uns anos li uma prosa do Dr. Joaquim Azevedo, considerado o “pai” do Ensino Profissional. Dizia ele que “nas Escolas Profissionais (EP) os professores não faltavam(…)” e que “a escolha dos professores era feita localmente. Sem dramas(…)”. Nesse mesmo dia – vejam lá as coincidências! – um aluno de uma EP do centro do país lamentava-se de que a prática de Mecânica tinha sido prejudicada porque o professor tinha faltado bastante e, passadas umas horas, um professor da mesma EP relatava-me que não iria continuar no ano letivo seguinte porque…um membro da administração (representante de uma associação de comerciantes) o tinha imposto, por não ter gostado de um artigo de jornal da sua autoria – o professor tinha uma coluna semanal num jornal local…

    “Sem dramas”…


  7. “Um homem é um homem e um bicho é um bicho”. Por vezes é assim, mas nem sempre. Coisa que o Bruno Santos esqueceu, ou melhor – por aquilo que conta – não teria de ter presente. A muitos já o mesmo lhes aconteceu; ou porque se veio a saber que o indivíduo não era tão alinhado como parecia – afinal até pensava por ele próprio; ou porque, eventualmente a sua presença iria fazer perigar a boa relação entre as entidades em causa. Como todos nós sabemos, primeiro as negociatas e a fidelidade canina, só depois o desempenho e a competência. Como quem diz, querem um bicho dócil que lhes lambam as mãos e não um homem que lhes venha causar problemas.

  8. Fernando says:

    “não houve química”

    Estas três palavras dizem muito da cultura neoliberal que se tem vindo a instalar desde os anos 80.

    Não, não é apenas em Portugal e não, não é sustentável.


  9. Pois, pois…o Min. Público devia passar a pente fino TODOS os contratos entre esse privado sem “espinha” e todas as entidades públicas – a mulher de César…

  10. antero seguro says:

    influências estranhas que mexem com a vida e com o pão das pessoas. Simplesmente indigno e miserável.


  11. …solidária com todos vós e ainda a surpreender-me com toda esta podridão instalada e dominante sem controle disto tudo que acabam de relatar e que acabo de conhecer, fica uma indignação enorme que dói de verdade. gritar e denunciar é possível ou….já não há nada a fazer ? que os vampiros estiveram sempre por aí e regressaram com mais dentuça ainda e circunstância ?

  12. Carlos Almeida says:

    Boa noite Bruno Santos

    Após ler o seu relato de como foi indecentemente despedido de uma empresa que é fornecedora da Câmara de Gaia, que já o tinha despedido anteriormente, comecei a tentar perceber porque é que o Presidente da Câmara de Gaia, do Partido Socialista, não terá gostado do seu post no Aventar relativamente à condecoração de Marco António Costa, do PSD.
    Comecei por procurar informação do MAC, de quem ja tinha uma ideia pouco positiva mas sem ter contudo dados aprofundados.
    O que encontrei sobre este cavalheiro é extraordinário e só não percebo como é que ele consegue após estes anos todos de malabarismo politico consegue ainda andar na ribalta.
    Esse sujeito é do pior que existe na politica.
    Li alguns artigos sobre o curriculum dele e aqui abaixo indico os links :
    http://www.sabado.pt/portugal/politica/detalhe/a-ascensao-do-homem–que-controla-o-aparelho

    https://sol.sapo.pt/artigo/388347/a-den-ncia-de-paulo-vieira-da-silva-sobre-marco-antonio-costa

    http://visao.sapo.pt/actualidade/portugal/como-cresceu-o-big-mac=f824432

    http://visao.sapo.pt/actualidade/portugal/menezes-e-marco-censurados-e-toxicos=f823659

    Mas o que é mais interessante é a “cumplicidade” do actual Presidente da Câmara de Gaia Eduardo Victor Rodrigues do PS, com o Sr Dr Marco Antonio Costa, conforme o artigo da Visão de 26/06/2015, que reproduzo parcialmente abaixo, depois do separador a tracejado.

    É muito estranho o PS ter votado com o MAC a transferência da posição da autarquia para a Águas de Gaia no contrato celebrado com o consórcio SUMA, liderado pela Mota Engil.

    `É aqui que está a raiz do problema. Alguma coisa pouco clara existe entre o MAC e o Sr Rodrigues. A ligação MAC – Rodrigues cheira mal
    Claro que o fornecedor da Câmara não quer perder o cliente, mesmo fazendo coisas eticamente reprováveis.
    ———————————————————————————
    Por 19 vezes ao longo de 264 páginas, a bold, o Tribunal de Contas emite um “forte juízo de censura” a Luís Filipe Menezes e Marco António Costa pela forma como geriram a Câmara Municipal de Gaia entre 2008 e 2012. O ex-presidente e o antigo “vice” da autarquia, uma das mais endividadas do País, são os mais citados nas duras críticas que constam do relatório preliminar da auditoria à gestão do município naqueles cinco anos a que a VISÃO teve acesso. O atual “número dois” do PSD foi, de resto, o responsável pelo pelouro financeiro em quatro dos cinco anos auditados, mas a lista de “culpados” é mais extensa: envolve vários vereadores, diretores, administradores e até a oposição socialista à época, liderada pelo atual presidente Eduardo Vítor Rodrigues, que votou favoravelmente uma das operações ruinosas: a transferência da posição da autarquia para a Águas de Gaia no contrato celebrado com o consórcio SUMA, liderado pela Mota Engil. O negócio revelou-se prejudicial para a empresa municipal e o erário público……………
    …………………………………………………………………………………….
    Curiosamente, em entrevista recente ao jornal regional Gaiense, o socialista que lidera o município não se limitou a atenuar o papel de Marco António Costa na gestão da autarquia. Pelo contrário, elogiou-o. Socorrendo-se da “análise fria dos dados”, Eduardo Vítor Rodrigues atribuiu ao antigo vice-presidente a responsabilidade pela redução dos prazos de pagamento e do passivo entre 2005 e 2011. “Visto de vários ângulos, o balanço financeiro parece ser claramente positivo nesse período”, assume, explicando que, apesar de discordâncias antigas e descontado o facto de Marco António não lhe ter encomendado o sermão, “a verdade é claramente favorável a um adversário político”

    • Bruno Santos says:

      Obrigado pelo seu comentário.
      Como imagina, conheço razoavelmente bem o assunto.
      Em momento próprio e na forma própria – por escrito – dei nota da minha discordância com essa “cumplicidade” que refere, em competente documento dirigido ao presidente da Câmara, de quem, na altura, era adjunto. Fui o único que o fez, no cumprimento do meu dever e no respeito por princípios elementares de honestidade e frontalidade cívica e política. Não tenho especial apreço por títeres.

      • Carlos Almeida says:

        Boa noite

        Se era adjunto do Presidente era porque ele tinha apreço e muita confiança em si, pois de outra maneira não fazia sentido.
        Qual será o poder que esse senhor do PPD/PSD de origem muito humilde natural de Fanzeres tem sobre uma pessoa do PS, para que esta despeça uma pessoa em quem confia e é o seu braço direito.?
        Que o Sr Marco é muito ambicioso e golpista, foi a conclusão a que cheguei depois de ler os artigos sobre ele nos link que coloquei, mas que tenha o poder de fazer que um Presidente da Câmara de um outro partido e ainda por cima concorrente, despeça o adjunto, é muito estranho. Tem que haver aí qualquer coisa e grave, para tanto amor entre esses dois.

        Quanto ao perfil do Sr Rodrigues. O PS tem ainda muita gente dessa.
        Mas em 1975 tinha muito mais. Conheci muitos na antiga Emissora Nacional, hoje RDP. Tudo que era informadores da PIDE; bufos, ex-legionários e bandidos do género do antes do 25 de Abril de 74, passaram-se todos para o PS e eram todos muito democratas. Perigosos, porque tinham o apoio da direcção do PS.
        Como nessa altura o PPD e o CDS praticamente não se mexiam, era o PS que fazia o jogo da direita, e extrema direita, incluindo Spinola e a a rede bombista.

        Cump

        Carlos Almeida

  13. JgMenos says:

    Ou da química ou da alergia do camarário de Gaia, ou doutra coisa qualquer, subsiste a suspeita de que ‘quem se mete com o PS leva’.
    Como andou por lá, saberá do que a casa gasta.

    • Bruno Santos says:

      Os partidos políticos não estão previstos na Constituição da República como organizações criminosas – que, aliás, são proibidas – mas como estruturas organizadas de cidadãos, fundamentais no sistema político democrático, sob a égide do Estado de Direito.

      • JgMenos says:

        Conta a praxis, não a formula.
        Se a todo o militante fosse exigido conhecer os princípios programáticos do partido, tanto bastava para os despovoar.

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.