Em 2016 emigraram 100 mil portugueses

Há aspectos estruturais da organização da sociedade portuguesa, principalmente na área laboral, que não sofreram, com a entrada em funções do actual governo, as modificações necessárias a uma inversão das tendências e dos indicadores mais negativos que marcaram a governação anterior de PSD e CDS.

Esta realidade é evidente e está traduzida em dados estatísticos que revelam a subsistência de um grave problema demográfico em Portugal, cuja tendência de evolução não foi invertida por este governo, além de outros indicadores que dão conta da manutenção, ou mesmo do agravamento, das desigualdades sociais, da precariedade dos vínculos contratuais, da diminuição do poder dos salários e, enfim, de um clima geral de grande apreensão e insegurança social.

Tem sido também evidente – ao contrário do que por vezes parece – o uso, por parte do governo, de uma estratégia muito eficaz de comunicação e até de metodologia no cálculo dos principais indicadores estatísticos. Diz-se principais no sentido em que a sua proeminência é imposta a partir de Bruxelas, onde foi criada e é estimulada a criatividade metodológica que tem permitido manter, no essencial, as políticas de austeridade levadas a cabo por PSD e CDS ao mesmo tempo que é criada a percepção do contrário.

Podemos repetir mil vezes que “o caminho” passa pela “qualificação dos portugueses” e que será essa qualificação, outorgada por web summits e filiais da Google, que manterá Portugal no pelotão da frente dos países desenvolvidos e os portugueses transformados nos “nórdicos do sul”. Infelizmente, não será a repetição desse mantra que fará alterar a realidade. Portugal continua a ser um país onde uma qualquer Auto Europa tem a coragem de impôr uma semana de seis dias, coisa que não faz em nenhum lugar nórdico. Portugal continuará a ser um dos países mais desiguais da Europa, onde a injustiça social serve de pilar a um verdadeiro sistema de castas que produz uma distribuição profundamente assimétrica da riqueza gerada e garante não apenas a reprodução social, mas o alargamento do hiato entre aqueles que são cada vez mais ricos e os outros, os que são cada vez mais pobres.

Os números da emigração e da natalidade são a prova de que nada de estruturante se modificou com a alteração dos rostos do poder. É verdade – e isso deve ser reconhecido – que houve algumas intervenções cirúrgicas, principalmente no domínio do simbólico, como foi o caso do restabelecimento de certos feriados nacionais, ou outras, de expressão mais concreta, como a devolução de algum rendimento às famílias e o fim de algumas taxas, como foi o caso da sobretaxa de IRS. Mas estamos longe, muito longe, da expectativa que foi criada nas últimas eleições legislativas, quando se prometeu um virar de página e se criou a ilusão de que seria possível uma maior influência da Esquerda no desenho estratégico das políticas públicas. Tal não aconteceu. Na verdade, essa Esquerda, tanto a que pertence ao próprio PS como a que está representada do BE e no PCP, vive hoje sobe a Espada de Dâmocles, ou, melhor dizendo, como Borges, na bifurcação dos caminhos, entre aquele que a prende a um eufemismo da Austeridade que é o verdadeiro programa deste governo e o que a levaria de regresso ao puro e duro custe o que custar da política real que comanda a nossa actual condição histórica.

Comments

  1. Fernando says:

    Como alguém disse, se o PS deixa cair umas migalhas para os plebeus, o PSD-CDS de tão gananciosos até com as migalhas ficam.
    É isto que os partidos “socialistas” hoje se resumem, relações públicas dos endinheirados com uma catrefada de capital nos paraísos fiscais.

    O regime de austeridade continua, por muito que a propaganda do PS e uma certa personagem trágico-cómica, agora convenientemente “afectuosa”, o neguem.

    • Rui Naldinho says:

      É óbvio que as mudanças políticas foram mais de cosmética do que reais. Apesar de tudo pôs-se fim a uma retórica de culpabilização, cirurgicamente planeada pelo Poder vigente, com uma comunicação social colaboracionista, cujo fim era o martírio da plebe, numa espécie de auto flagelação, onde na melhor das hipóteses as gerações vindouras teriam direito a um sub emprego, e os mais velhos a uma reforma reajustada, não aos seus descontos, mas aos ditames do Estado mínimo.
      Aquilo que o Bruno afirma é verdade. Os geringonços, eu incluído, vivem hoje sobre a espada de Damocles, entre o escrutínio puro e duro do Eurogrupo dominado pelos partidos do PPE e pela Alemanha em particular, e ideologia social democrata que guardaram anos na gaveta.
      É por isto que esta solução política atual, só pode durar para além de 2019, se assentar em pressupostos que ultrapassem o imediatismo da reposição salarial, como por exemplo, o favorecimento da escola pública e do SNS em detrimento dos negócios privados nestes sectores, o combate efectivo à corrupção, a descentralização, e consequente descriminação positiva em vários domínios, do interior.

    • Carlos Almeida says:

      Pois é

      ” uma certa personagem trágico-cómica, agora convenientemente “afectuosa”, o neguem.”

      O filho do Ministro, será sempre o Filho do Ministro.
      Ainda vai surpreender muito distraído, o homem do Basto.

      Cá por mim é: “Um olho no burro, outro no cigano”

  2. Paulo Marques says:

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