“O Regulador está no terreno”.

Foi notícia por estes dias que uma pessoa de idade perdeu a vida em sua casa, no interior do país, sem poder pedir auxílio através do seu telefone fixo, última ligação que mantinha com o mundo, mas que não funcionava desde que os incêndios de Outubro destruíram as linhas e estruturas de telecomunicações que estão sob a responsabilidade de uma empresa estrangeira e privada chamada Altice.

Os representantes do Estado Português, primeiros responsáveis pela segurança dos cidadãos que a esse Estado tributam, declaram, com ar extremamente sério e ministerial, que “o Regulador está no terreno a fiscalizar”, querendo com isso significar que a sua responsabilidade, atributo maior e indeclinável de qualquer governante, foi transferida para uma entidade abstracta e incognoscível criada para proteger o lucro da tal empresa privada.

Sucede isto na mesma semana em que a Autoridade Tributária, super-estrutura fundamental daquele Estado cujo dever primeiro é garantir a segurança dos seus cidadãos, dever ao qual clamorosamente faltou deixando arder o país e consumirem-se no fogo dezenas de vidas, decidiu enviar por email ameaças e ordens absurdas a homens e mulheres ainda atónitos, abandonados, vítimas da mais cruel negligência a que um Soberano pode votar quem dele depende.

Podendo parecer episódios laterais da vida quotidiana do país das web summits, do emprego qualificado a servir à mesa e nos call centers, dos centros tecnológicos da Google e dos hubs esotéricos da Amazon, do milagre do Turismo que destrói os últimos vestígios de identidade e enche os bolsos dos negreiros, e da prestidigitação estatística de papas e bolos que coloca o país a crescer acima das alturas de Golias, estes acontecimentos são, na verdade, o retrato fiel de um Estado que retrocedeu décadas no seu desenvolvimento humano e que erra, perdido, no mar do discurso, da ilusão e da propaganda.

Foi precisamente o desenvolvimento humano, em todas as múltiplas vertentes de um tão lato conceito, o Valor mais atingido durante os anos de governação da Troika – que prossegue – e é ele que permanece como testemunha do logro político em que se transformou a esperança na Geringonça. Este facto tornar-se-á progressivamente mais claro, na medida em que também se for tornando transparente o regresso em força do bloco central.

Para nosso descanso, “o Regulador está no terreno”.

 

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    “ Este facto tornar-se-á progressivamente mais claro, na medida em que também se for tornando transparente o regresso em força do bloco central.”

    Não acredito nesse desiderato, ainda que por vezes o pareça, a não ser que o Partido Socialista queira definhar até à sua morte definitiva, como as restantes congéneres.
    Por outro lado, a velha e gasta ideia de que o país necessita de reformas, é um monumental embuste. Os países modernizam-se e actualizam-se nas suas formas de se organizar como sociedades, em função das novas necessidades. Não se reformam. O país necessita sim de reformar a mentalidade dos seus cidadãos, em especial a dos titulares de cargos públicos. Isso talvez.
    Isto é como o vídeo árbitro, que vinha revolucionar o futebol mundial e a verdade desportiva. Ora, parece que a coisa anda “marafada”. Enquanto houver gente intelectualmente desonesta e corruptos, não há tecnologia que nos valha.
    Na política é rigorosamente igual. Sem tirar nem pôr!


  2. É dura e incisiva mas certeira esta sua análise, Bruno Santos,
    e quase dói concordar e sentir consigo que
    ” um Estado que retrocedeu décadas no seu desenvolvimento humano e que erra, perdido, no mar do discurso, da ilusão e da propaganda.” …
    ” …do logro político em que se transformou a esperança na Geringonça ” .

    O “regulador no terreno” teremos que ser nós, cidadãos activos e conscientes interagindo a avisar a malta e a denunciar e a sermos inventivos na demanda e esperança de mudanças de mentalidades e competências possíveis….mas em quem confiar se o panorama é tão assustador ?

  3. Carlos Almeida says:

    Boas Bruno Santos

    “Foi notícia por estes dias que uma pessoa de idade perdeu a vida em sua casa, no interior do país, sem poder pedir auxílio através do seu telefone fixo, última ligação que mantinha com o mundo, mas que não funcionava desde que os incêndios de Outubro destruíram as linhas e estruturas de telecomunicações que estão sob a responsabilidade de uma empresa estrangeira e privada chamada Altice.”

    Muito obrigado por trazer este importante assunto para o Aventar.

    Trabalho na área das telecomunicações em zonas rurais, uma delas no concelho da Pampilhosa da Serra, freguesia do Fajão.
    Com os incêndios de Outubro, a grande parte das aldeias desta freguesia ficou sem comunicações telefónicas, pois os postes e os fios de cobre da rede telefónica nacional, que a ex ministra M Ferreira Leite “vendeu” por 5 tostões à na altura Portugal Telecom, ardeu totalmente. De referir que a maior parte da população dessas aldeias da zona sul do distrito de Coimbra já bem perto das minas da Panasqueira, são pessoas idosas e que sempre viveram em ambiente rural e pobre, tendo algumas limitações e para as quais o telefone era o seu único contacto com o mundo exterior.
    Ao contrario do que o Sr Presidente da Altice, empresa francesa que comprou a Portugal Telecom, e o Presidente da Anacom, que disseram que os problemas de telecomunicações causados pelos incêndios de 15 de Outubro, já estavam resolvidos, as pessoas que vivem nas aldeias do Alto Ceira, Freguesia do Fajão, concelho da Pampilhosa da Serra, continuam sem telefone. E porquê ?
    Porque a não ser que concordem em ter a fibra que a Altice está a montar, e adquirir os serviços de TV e Internet , não vão ter telefone, porque a Altice, só telefone não instala.
    Isso é um roubo para gente pobre e idosa, que a única coisa que pretende é poder receber ou fazer chamadas telefónicas para os filhos e netos.
    Isto passa muito desapercebido porque as aldeias são pequenas e a população idosa, mas se eu já não detestasse o sefardita e restante mafia que o acompanha, começava agora a detesta-lo

    Mais uma vez obrigado por trazer o assunto à baila

  4. Bento Caeiro says:

    Fruto da situação a que conduziram a então PT alguns “grandes e comendados gestores” – Zeinal e Granadeiro -, com a complacência do governo da nação, que entregaram, com grandes benefícios seus, um grupo empresarial a um grupo falido a OI brasileira, que, finalmente, a vendeu a esta burla chamada Altice. Temos o que pedimos, porquê queixarmos-nos?

    • Carlos Almeida says:

      Caro Bento

      Subscrevo completamente “finalmente, a vendeu a esta burla chamada Altice. Temos o que pedimos, porquê queixarmos-nos?”

      Mas o que mais me impressiona é as pessoas e as empresas continuarem a dar credito e serem clientes dessa “coisa” propriedade do Sr Patrick. Felizmente que o mercado não vai em tretas e as acções da Pharol já estão só a 0.23 € em Lisboa e as da Altice em Amsterdão em apenas 7.62 € quando há 2 ou t3 meses andavam pelos 10 €

      O chamado Regulador, vulgo ANACOM, que permitiu que a Altice quando comprou a PT, rasgasse um acordo de partilha de fibra, recomendado pela UE, que em 2014 tinha sido feito entre a MEO e a Vodafone sem tomar nenhuma medida, está cheio de gente que no tempo da PT, tinha migrado da PT e com ela tinha muitas afinidades e ligações.

      A Anacom e a PT, têm o mesmo pai: os CTT, onde o que é agora a ANACOM se chamava DSR/CTT ou seja Divisão dos Serviços Radioeléctricos dos CTT. O nome e a estrutura é diferente, mas muita da gente mais velha e influente é a mesma e as conexões estão vivas.

      Razão tinham e pelos vistos ainda têm, os outros operadores em dizer que a que a Portugal Telecom era protegida pela Anacom. Pelos vistos, mesmo agora que a PT que era nacional, foi comprada por uma empresa estrangeira, as ligações de cumplicidade continuam a todo o pano.
      Este importante activo da PT foi adquirido também pelo sefardita.

  5. ZE LOPES says:

    Quanto a mim o Regulador deveria encarar a hipótese de estar no terreno, mas de forma permanente. Ou seja, enterrado.


  6. “Quem nada tem de seu, até os cães lhe mijam nos pés.”
    Temos de mudar o regime…

  7. Paulo Marques says:

    Dura Lex, sed Eurolândia. E viva o Ceta, que também proíbe fazer alguma coisa.


  8. BOA! Paulo Marques, quanta verdade contida neste inteligente comentário .

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