A fúria do mar

Há várias façanhas pelas quais os portugueses são conhecidos mundialmente. Terá sido, aliás, Mário Cesariny um dos primeiros a descobri-lo e a demonstrá-lo com evidência científica e surrealista, na sua “pena capital”:

quando acabava de ser identificada a casa onde viveu
Miguel Cervantes, em Alcalá de Henares,
eu saía para o campo com Rufino Tamayo
enquanto um português vivia trinta anos com uma bala
alojada num pulmão
chegava eu ao conhecimento das coisas

A verdade, é que parece haver uma tendência, nos portugueses, para uma certa satisfação pelos extremos e um cultivo alegre do espanto perante fenómenos ou acontecimentos totalmente insusceptíveis de o gerar ou, em gerando-o, mais tendentes, num “povo normal”, a suscitar uma reacção de cautela, previdência e algum recato. Não se trata de uma realidade circunscrita espacialmente à zona do Entroncamento, ou da Cova da Iria, mas, pelo contrário, presente em qualquer lugar onde chegue a alma lusa. A capacidade portuguesa para fazer do banal, extraordinário, e do extraordinário, banal, é algo do nosso quotidiano morno e acontece onde quer que estejamos e sejam quais forem as circunstâncias do tempo e do lugar.

Na auto-estrada, por exemplo, se calha de haver um chega para lá entre mera e inanimada chapa automóvel – nem que seja um fino risco no pára-choques prateado e polido na manhã do Domingo anterior, depois da missa -, de imediato se gera uma imensa fila de automobilistas-espectadores, ávidos de uma narrativa extraordinária, de um happening inesquecível, em busca do qual se acotovelam, na faixa de rodagem do lado contrário – chegando mesmo a parar o automóvel -, espreitando para o outro lado e investigando com minúcia os motivos de semelhante catástrofe. Emitindo, sumária e necessariamente, de imediato, juízos de razão sobre o sucedido, telefonando à esposa para contar a desgraça e, pelo caminho, paralisando uma cidade inteira, causando milhões de euros de prejuízo à economia e horas de sofrimento moralmente excruciante a quem só pretendia prosseguir em paz o seu caminho.

Há ainda as testemunhas dos fogos que, mal pressentem, pelo canal do cabo, que o incêndio é no pinhal ao lado, se precipitam para o local, em roupão e chinelos, tomando conta da ocorrência a dois metros de labaredas dantescas, como se participassem de um espectáculo de variedades transmitido por satélite para todo o mundo conhecido e através do qual garantissem uma celebridade eterna, profusamente exagerada, horas depois, à mesa do Café Central: “Olha eu ali!”

Há as derrocadas, os assaltos, o porco no espeto, a queda de árvores, as inundações de mercearias e, evidentemente, a fúria do mar que aqui nos traz.

Na imagem reproduzida acima está um repórter de televisão fazendo notícia sobre a grande hecatombe marítima que assola a cidade de Faro, representada ao mais alto nível no local pelo seu sorridente presidente de Câmara, que não perdeu a oportunidade para conceder uma entrevista de fundo a dois metros de ondas que podiam medir onze. A salvo, obviamente, de qualquer ímpeto mais violento do mar em fúria, uma vez que não apenas sorri, mas fá-lo trajando o anorak laranja da Protecção Civil.

Este tipo de pedagogia cívica, que leva um canal de televisão e um alto responsável público a adoptar comportamentos de risco e de negligência pura perante milhões de espectadores, é um dos motivos que nos traz, portugueses, no topo dos anais do insólito e no fundo do progresso humano. Nos extremos, portanto, que é onde gostamos de habitar.

Comments

  1. Vitor Manuel Marques says:

    este comentário sim, subscrevo!


  2. é uma das consequências do espírito tacanho, mesquinho e invejoso dos portugueses, resultado de uma cultura e élites que os diminuiram e disseram que a vida rural fechada e de respeitinho é que era de pessoas de carácter… ficam sempre com prazer com o sofrimento alheio, pode ser alguém que não gostemos.

    • ZE LOPES says:

      Não seja injusto, olhe que a coisa devia estar mesmo perigosa. O repórter correu graves riscos. Além do estado do mar, o gajo lá de trás parece ter uma barriga de água…

  3. Rui Naldinho says:

    Uma certa atração pelo “belo horrível”, não no sentido estético do termo, mas talvez mais no sentido dantesco.
    Hoje essa atração cresceu, e muito, por culpa da comunicação social gulosa de “notícias” com impacto mediático.
    O pior mesmo é quando as tragédias se tornam em armas da luta política. Este Verão fiquei com a sensação nítida de que os incêndios fizeram as delícias de uma certa direita ávida de um protagonismo que já não tem.

    • Bento Caeiro says:

      O protagonismo, pelo protagonismo, é a doença que hoje assiste à sociedade e à saciedade. à qual recorrem essencialmente aqueles que nada têm para oferecer. É o domínio dos pobres de espírito.
      Tanto acontece a nível pessoal como a nível de grupo – até, por demais, dentro dos partidos e de outras formações, mormente associações patronais e, também, sindicais. . Não é por acaso que muitos dirigentes políticos vêem à praça como que a fazer prova de vida: vê-se, com frequência, no CDS de Assunção Cristas – o qual, após o congresso do PSD, vem dizer: estamos disponíveis; no PCP de Jerónimo de Sousa – o qual também vem dizer: não queremos nada com o PSD (obviamente que cada qual queixa-se onde mais lhe dói – apesar de ninguém lhes ter perguntado); em sindicatos (CGTP e UGT) em empresas – caso da Autoeuropa.
      Obviamente que, no caso dos partidos e dos sindicatos, o que é característica geral, só é perceptível para quem não sofre de doença ideológica particular; porque, para muitos outros, a doença da procura de protagonismo só é vista naqueles que não lhes são queridos.

  4. César Sousa says:

    Não conheço o Bruno Santos,não sei se é canhoto ou destro,mas que o artigo está 5 estrelas, está !!!
    Parabéns !


  5. Caiu a Ponte de Castelo de Paiva e veio gente de todo o lado para ver se conseguiam ver corpos a boiar. Desapareceu a Maddie e toda a gente foi em romaria para o Algarve para ver se descobriam o corpo. O portuguezinho é assim, tem esta atração voyeurista pelo mórbido.

    Com o aparecimento das redes sociais e dos auto-retratos isto inflacionou exponencialmente a ponto das pessoas porem mesmo em risco a sua própria vida para ver se conseguem uma foto de morte. E às vezes conseguem mesmo.

  6. ZE LOPES says:

    Ó pró ar aterrorizado do tipo que está lá atrás! Que acontecimento dramático!

    Cá pra mim, está aqui está a correr para a água para mandar uns borrifos. Para dar mais realismo!

    • Bento Caeiro says:

      Tem o ar que normalmente apresentam estas ricas figuras do poder autárquico: cara de parvo e de baboso idiota.

  7. Alencar says:

    É folk.A unha do mindinho,tirar pedras d isqueiro do nariz,aspirar a ranhoca acentuando o diálogo,escarrar no fim.
    Deixe ficar.

  8. Antonio Medeiros says:

    Bruno, gostei demais foi de sua descrição magnífica do ser português, mas vamos a ver: Ó rapazes meus camaradas,vamos pedir aos franceses,,se quiserdes,a sua ciência de detalhe,os seus ritmos sábios,os seus processos de observação e crítica,-mas desenrolemos os nossos pergaminhos poéticos,que os temos,vindos do povo,de um quilate riquíssimo.Das cantigas das espeladeiras da nossa quinta,dos rimances rezados pela nossa avó,não sentis vós subir o aroma da poesia,da religião, de doçura e graça que deve ungir as vossas baladas?Não compreendeis a inferioridade mesquinha e commis-voyageuse de importar a crença falsa dos outros, o seu diabolismo literário,a sua alucinação feita de leituras e um intenso viver cerebral num meio horrível, onde há frio, crime,a miséria e o mundo inteiro que não se importa? Nós possuímos contra êles,um intenso horizonte poético,cheio de encanto dos oiros esmaiados e dos veludos gastos. Somos um povo místico e supersticioso,atacado das febres das grandezas, e dela morrendo,como um poeta doido,vestido de sedas velhas no meio de um presépio de cabras.Temos diabólicase sadistas na nossa história, e casos histéricos abundantes em pormenores; há aldeias em Portugal com famílias inteiras de doidos típicos e inéditos.Temos a paisagem moribunda e aguacenta como esta de Coimbra onde as alvas do dia são seguramente,hemotipses da Terra,tísica em último grau. Vá poetas,para aqui desviai os olhos atentos da vossa poesia. Alberto de Oliveira (do Neogarretismo ao Teatro Palavras Loucas).Esta também é uma bela descrição da alma portuguesa e seduz o mundo inteiro. Como assinalou Aubrey FG Bell, …..jamais um povo tão pequeno teve uma obra literária tão grande. E isto nos encanta.

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