Apologia de Sócrates

O cargo – pesemos bem as palavras – de Primeiro Ministro de Portugal, tem uma dignidade própria, dignidade essa que não está dependente das características pessoais do cidadão que o ocupa ou ocupou, nem da maior ou menor simpatia que suscite a forma como o exerceu. É uma dignidade inerente à função e à suprema Honra de servir Portugal.

Ser, ou ter sido, Primeiro Ministro, é ter alcançado o topo da hierarquia do Estado de Direito Democrático, e ter tomado posse, no ritual próprio desse Estado, de um grau e de uma qualidade cívicos, dos quais não há reversão. Por isso sucede ao título de Primeiro Ministro o de ex-Primeiro Ministro e a ninguém pode ser subtraída a Honra que é servir ou ter servido Portugal na chefia do seu Governo.

Nesse contexto, a maior perplexidade que resulta do alarido público formado em torno do futuro profissional do Dr. Pedro Passos Coelho, ex-Primeiro Ministro de Portugal, não é tanto se ele tem ou não tem o estatuto cívico, académico ou administrativo para vir a tomar posse do título de Professor Catedrático – em qualquer dos casos uma despromoção relativamente às altas responsabilidades governativas que exerceu. O que causa verdadeira perplexidade é a diferença incompreensível entre o tratamento que lhe é dispensado e aquele que mereceu o ex-Primeiro Ministro de Portugal, José Sócrates, credor, no mínimo, de uma honra igual. Coisa que, como se sabe, não aconteceu.

À Justiça o que é da Justiça, mas à dignidade institucional o que também lhe pertence. E se o modo como José Sócrates exerceu o cargo de Primeiro-ministro é susceptível de muitas críticas, elas não são nada que se compare ao que merece Passos Coelho, o pior e mais destruidor governante que Portugal conheceu em Democracia.

Não embarcarei, portanto, quer enquanto cidadão, quer enquanto militante do Partido Socialista, nesta evidente tentativa de mistificação da História e na eliminação institucional e simbólica do mais importante militante socialista do pós- 25 de Abril: José Sócrates.

Comments

  1. A. Cabral says:

    Sou da mesma opinião subscrevo portanto o que acabou de dizer e infelizmente os comentários ferozes que vão por aí aparecendo não passam de manifestações de ódio cujo único objetivo até ao momento é abater José Sócrates custe o que custar.

  2. Rui Naldinho says:

    “Desperto para o dia, quando as redes sociais manifestam uma indignação generalizada com a contratação de Passos Coelho pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, equiparando-o a professor catedrático.

    Confesso que, de início, a notícia me colheu de surpresa. Se se sabia que Passos Coelho teria a lata de, sendo um comprovado cábula, dar aulas numa ou mais universidades, julgara que estas seriam privadas e obedeceriam aos ditames dos seus proprietários. Adivinharíamos a falta de qualidade das aulas aí ministradas, mas nada teríamos a ver com isso, porquanto os alunos e os papás, que lhes pagam as propinas, sabem ao que vão, quando com elas se comprometem.

    Convenhamos que, com os meus impostos, estar a contribuir para o ordenado de Passos Coelho, é motivo de enfática indignação, que justifica ruidoso protesto. Mas, uma vez mais, não deixa de ser esclarecedora a personalidade do novo «professor» (sim, com aspas, porque considera-lo enquanto tal, constitui um insulto aos que verdadeiramente o são!), que andou anos a fio a criticar os que se acolhem à sombra do Estado e logo os imita tão só disso tem oportunidade. O menos Estado que reivindicava para os outros, torna-se assim em Estado farto quando se trata de si. ”
    Jorge Rocha in VENTOS SEMEADOS

    Como faço das palavras de Jorge Rocha, minha própria revolta, assalta-me a indignação. A indignação daqueles que sofrendo todo o tipo de atropelos pelo anterior governo, se deparam agora com esta verdadeira encenação da Academia, pior de uma Universidade pública que vive com o dinheiro dos contribuintes, dando ao Dr. Passos Coelho um estatuto académico que ele não tem, por direito próprio, o de professor. É óbvio que o atual presidente da instituição ISCSP da Universidade de Lisboa, só podia ser um ex-deputado do PSD, Manuel Meirinho. Nada acontece por acaso. Meirinho foi um ex-deputado do PSD até 2015, período esse em que fomos aconselhados a emigrar pelo anterior primeiro ministro, e em que o Estado viu reduzidos todos os apoios á Educação, com especial incidência no ensino superior.
    A subsistência económica do Dr. Passos Coelho está mais do que salvaguardada. É um dever do Estado garantir aos ex titulares de cargos públicos, com especial relevância os governantes e deputados, uma vida digna após o abandono de funções. Essa é a parte indiscutível da cidadania e do Estado de Direito. Mas já não é obrigação do Estado promover cenários fictícios a um ex governante, dando-lhe um lugar de professor numa Universidade Pública, a dar aulas, mesmo como convidado, sem que o seu curriculum se coadune para essa função. Esta originalidade na Instituição ISCSP não é nova. Gostaria por exemplo de saber se Luís Amado tem curriculum para ser professor catedrático, uma vez que também dá aulas. Mas como Luís Amado fez parte do rol dos “vendilhões do templo”, também não me admira que por esse facto tenha tido a oportunidade de entrar no Senado.
    Na política não pode valer tudo, mesmo que se pretenda dar às Universidades maior autonomia para maior responsabilização dos próprios. Mas tudo isto ainda se torna mais surreal, quando José Sócrates foi vilipendiado anos a fio pelo seu curriculum académico, precisamente pelos partidos, jornais e comentadores e analistas da área política onde se insere o Dr. Passos Coelho. Não estou a defender José Sócrates. Nutro pelo personagem uma forte antipatia politica. Mas detesto a perseguição a um ser humano, apenas pelo ódio que a direita lhe tem. Ela que tanto se alimentou das suas decisões.
    Gostaria de ver os partidos de esquerda, dentro das competências que lhe cabem, não deixar passar em claro este atropelo ao bom senso, para não dizer à ética republicana, de que todos se reclamam. Admito que a atual Lei, que confere autonomia às universidades, até permita estes devaneios. Mas ainda assim ela deverá ser mudada, garantindo que situações destas não se repitam.
    Haja decoro, caramba!

  3. Antonio Martinho MarquesAntónio Martinho Marques says:

    Porque concordo em absoluto com a sua análise e as suas
    conclusões, permito-me transcrevê-las e sob o título do último parágrafo: “Haja decoro, caramba”:

  4. ZE LOPES says:

    Informo que já tive acesso aos três primeiros sumários das aulas de Economia de Passos Coelho.

    Lição nº 1: “O Diabo”;

    Lição nº 2: “Continuação da lição anterior”;

    Lição nº 3: “Revisão da matéria dada”


    • Obrigada, caríssimo Zé Lopes, por nos fazer rir mesmo no fundo do poço a que chegámos ! 🙂

      • ZE LOPES says:

        Ora essa, Isabela! Não tem que agradecer! E também já se sabem os temas de diversas conferências que este super-turbo-catedrático vai dar nos mais diversos estabelecimentos do nosso Ensino Superior. Eis a lista:

        Universidade Nova de Lisboa: “A Troika em Ação”;

        Instituto Superior Técnico: “Introdução ao Uso do Camartelo”;

        Academia Militar: “Técnicas de Bombardeamento Aéreo”;

        Faculdade de Motricidade Humana: “O Estrangulamento no Judo”;

        Escola Superior de Polícia: “Tiro a Alvos Móveis de Pequena Dimensão”.

        • ZE LOPES says:

          Sim, porque o homem é verdadeiramente enciclopédico.

          Esqueci-me da conferência na Faculdade de Medicina de Lisboa: “A Autópsia Como Fonte de Informação Económica”

  5. Miguel Silva Barata says:

    Mais vale rir, que chorar…

  6. antero seguro says:

    Hoje o cargo de primeiro-ministro assim como o de professor universitário estão muito vulgarizados. Qualquer dia compram-se em qualquer supermercado. Quando ouvimos dizer que Passos Coelho como “professor universitário” atinge já o máximo escalão é mesmo de ficar estupefacto. Com exemplos destes chegar ao topo do Himalaias é uma brincadeira de crianças.


  7. PPC deixou o cargo e fez-se à vida.
    JS foi empurrado depois de deixar as finanças públicas num caos.
    Para mim,entre um e outro, venha o diabo e escolha.

    • ZE LOPES says:

      Escolhe o Passos! O diabo é mau mas não é mal agradecido! Tem sempre uma palavrinha a dar a quem tão carinhosamente o tem invocado!

  8. Carlos Almeida says:

    Boa tarde

    O seu post só pode ser brincadeira ou um insulto ao 25 de Abril.
    Não sou, nunca fui e nunca serei militante desse partido, mas esse “cavalheiro” foi do pior que passou no PS e um dos melhores apoiantes do PPD/PSD, alias Partido do Marcelo Caetano Recauchutado.

    Tenham vergonha.
    A essa gente, porque esse bandido não esteve e não está sozinho, sempre chamei e chamarei, PPD Cor de Rosa.

    Depois admiram-se que a bandidagem laranja, cresça em arrogância

  9. Bento Caeiro says:

    “O cargo – pesemos bem as palavras – de Primeiro-Ministro de Portugal, tem uma dignidade própria, dignidade essa que não está dependente das características pessoais do cidadão que o ocupa ou ocupou, nem da maior ou menor simpatia que suscite a forma como o exerceu. É uma dignidade inerente à função e à suprema Honra de servir Portugal.

    Não embarcarei, portanto, quer enquanto cidadão, quer enquanto militante do Partido Socialista, nesta evidente tentativa de mistificação da História e na eliminação institucional e simbólica do mais importante militante socialista do pós- 25 de Abril: José Sócrates.”

    Que confusão, caro Bruno Santos – ou será tentativa de limpeza de imagem?
    Os cargos, sejam eles quais forem, porquanto vistos em abstracto, mais não são que um ponto, um rectângulo na hierarquia de uma estrutura. Assim sendo, também em abstracto, poderemos dizer que o cargo de secretário-de-estado é inferior ao de primeiro-ministro. Pronto, estamos falados, mas isto – para além de uma questão organizacional, de natureza hierárquica – nada mais nos diz. Pela simples e crucial razão que – para o que verdadeiramente nos interessa – para além do valor hierárquico do cargo, em abstracto, está, em concreto, a qualidade do desempenho de quem o exerce ou exerceu.
    E é aqui que o Bruno pretende introduzir a confusão, ao querer imputar a dignidade própria ao cargo ao titular de quem o exerceu, sem contar com a forma como o desempenhou. Como se este, pelo facto de ter ocupado aquele cargo, não fosse obrigado a dignificá-lo. Como deverá saber, caro Bruno, isto não é sério e não é bonito.
    A questão que se põe é somente esta: em termos éticos, exerceu o cargo com a dignidade que o mesmo merece? Que o mesmo é dizer, esteve à altura do cargo que ocupou? Não.

  10. Alexandre Barreira says:

    …uma coisa é certa….o JS….foi o único que fez frente ao poder judicial….e isso teve um…..preço elevado…….!!!!

    • César Sousa says:

      Pinto Monteiro,Noronha do Nascimento,Cândida Almeida.
      Grande valentão que o JS era !
      O ridículo também mata,cuidado !


  11. Caro Bento Caeiro, permite-me responder a Bruno Santos subscrevendo o seu post/comentário ?
    com que concordo por inteiro, e mais duro ainda o faria se tivesse circunstância e capacidade .

  12. Paulo Marques says:

    Nenhum dos dois tem competência para ensinar os filhos, quanto mais os caciques de amanhã.

  13. JgMenos says:

    Que bonito!
    Que bons sentimentos!

    Um rouba e deixa de herança um país falido e um compromisso quase-inegociável.
    O outro governa sob compromisso e resgata o país.

    A equidade a partir do título!

    • Rui Naldinho says:

      Que inteligente, Menos!
      Que raciocínio tão básico, digno de um (-)!
      A tua lógica é esta:

      Sócrates foi o irresponsável que atiçou o fogo a um bosque.
      Passos Coelho o bombeiro que tentou apagar esse fogo, da pior maneira, pouco restando da mancha verde no final.
      Conclusão do Menos:
      Passos Coelho está habilitado a ir para o Instituto Superior de Agronomia dar aulas de Sivicultura.

    • ZE LOPES says:

      “Um rouba e deixa de herança um país falido e um compromisso quase-inegociável.
      O outro governa sob compromisso e resgata o país”.

      Que argumento fabuloso! V. Exa. não é candidato a um Óscar? Como é possível! Talvez ainda vá a tempo, ainda não começou! Para obras-primas como esta costumam abrir exceções!

    • Paulo Marques says:

      Ainda estou à espera que alguém me diga qual é a diferença entre o PEC e a Troika, além do FMI ser mais credível que o BCE.
      Depois, se não for pedir muito, é a receita para comer a descida de défice e como o usar a diminuição do mesmo para ligar o aquecimento no inverno.

  14. César Sousa says:

    Se o Vasco Santana fosse vivo diria a propósito deste texto infeliz do sr. Bruno Santos : -“Socialistas há muitos seus palermas”.

  15. Carlos Almeida says:

    Ainda sobre o Ze Socas, porque eu da “ratazana” nem sequer falo.

    Apreciem o que o maior vígaro que passou na Faculdade de Direito de Coimbra, diz da Biografia do JS

    http://www.tvi24.iol.pt/politica/dias-loureiro/biografia-de-socrates-o-menino-de-ouro-do-ps

  16. joaovieira1 says:

    Creio não haver português/a, minimamente, consciente e responsável, que não sinta revolta pelo “fácil acesso” dado ao ex-PM Passos Coelho a um dos patamares mais exigentes da nossa pirâmide sócio-educacional e cultural, o ensino universitário, pondo em cheque a idoneidade e probidade de quem decide. Não me permitindo julgar o caso, mas admitindo que continua a haver, em excesso, quem corrompa e/ou seja corrompido, afirmo que tal acto só pode ter resultado de uma total falta de ética e decoro por parte de uma direita que, agora, desapossada do poder e, urgindo a necessidade de acomodar, “profissionalmente alguém a quem se deve favores”, recorreu a uma das suas “capelinhas” para o efeito. Uma ignomínia.

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