Do vale à montanha

Aleph | O Ponto da Bauhütte | BS 2005/2018

 

“Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por casas, por prados,
Por quinta e por fonte,
Caminhais aliados.

Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por penhascos pretos,
Atrás e defronte,
Caminhais secretos.

Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por plainos desertos
Sem ter horizontes,
Caminhais libertos.

Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por ínvios caminhos,
Por rios sem ponte,
Caminhais sozinhos.

Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por quanto é sem fim,
Sem ninguém que o conte,
Caminhais em mim.”

Fernando Pessoa
24 de Outubro de 1932

Comments

  1. Bento Caeiro says:

    A procissão(*)

    Tocam os sinos da torre da igreja,
    Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
    Na nossa aldeia que Deus a proteja!
    Vai passando a procissão.

    Mesmo na frente, marchando a compasso,
    De fardas novas, vem o solidó.
    Quando o regente lhe acena com o braço,
    Logo o trombone faz popó, popó.

    Olha os bombeiros, tão bem alinhados!
    Que se houver fogo vai tudo num fole.
    Trazem ao ombro brilhantes machados,
    E os capacetes rebrilham ao sol.

    Tocam os sinos na torre da igreja,
    Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
    Na nossa aldeia que Deus a proteja!
    Vai passando a procissão.

    Olha os irmãos da nossa confraria!
    Muito solenes nas opas vermelhas!
    Ninguém supôs que nesta aldeia havia
    Tantos bigodes e tais sobrancelhas!

    Ai, que bonitos que vão os anjinhos!
    Com que cuidado os vestiram em casa!
    Um deles leva a coroa de espinhos.
    E o mais pequeno perdeu uma asa!

    Tocam os sinos na torre da igreja,
    Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
    Na nossa aldeia que Deus a proteja!
    Vai passando a procissão.

    Pelas janelas, as mães e as filhas,
    As colchas ricas, formando troféu.
    E os lindos rostos, por trás das mantilhas,
    Parecem anjos que vieram do Céu!

    Com o calor, o Prior aflito.
    E o povo ajoelha ao passar o andor.
    Não há na aldeia nada mais bonito
    Que estes passeios de Nosso Senhor!

    Tocam os sinos na torre da igreja,
    Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
    Na nossa aldeia que Deus a proteja!
    Já passou a procissão.

    (*)
    Letra: António Lopes Ribeiro

    Intérprete: João Villaret

    Desculpa lá oh Bruno, não resisti à tentação e segui a procissão:

    Partindo do Vale, terminou no alto da Montanha/
    Esperando, ali estando, ao olhar para as vastidões/
    Poderia belos campos na planície ver e apreciar/
    Triste ilusão: só um imenso eucaliptal me foi dado observar.

  2. Bruno Santos says:

    Caeiro, por quem sois.

  3. César Sousa says:

    O Pessoa é o tal poeta que um belo dia ,com os copitos, achou que era melhor que o Luis de Camões.Quando percebeu que nunca lhe chegaria aos calcanhares, e roído de inveja desatou a dizer mal da obra poética do Camões.Quando se fala na poesia do Pessoa lembra-me logo Garcia Marquez em “O Outono do Patriarca” ,referindo-se a um escrevedor de poemas
    muito conhecido no Caribe : “…escrevia lindos poemas com a mesma mão com que limpava o cu.”
    Ora aí está o que muita gente pensa do Pessoa mas poucos têm coragem de o dizer.

  4. o Calcinhas do Dafundo says:

    Esse Poeta não é para todos.Nem assim se quis.
    É pegar ou largar.Há outros mais chegados ao cumbíbio…

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