Quem tem medo do Facebook?

A pesquisa de motivação, para efeitos de propaganda, é feita, de forma sistemática, pelo menos desde a chamada Segunda Guerra Mundial, embora a suas raízes remontem, na sua fase moderna, ao período de eclosão e disseminação das teorias psicanalíticas de Freud.

A informação assim recolhida e sistematizada tem sido comercializada, traficada e usada em diferentes contextos e por diferentes entidades, públicas ou privadas. Entre essas entidades está a própria Academia, que ensina a Psicologia como método de compreensão, domínio e manipulação do aparelho psíquico individual, e a Sociologia como expansão e aplicação geométrica desse método a aparelhos psíquicos colectivos.

Esse conhecimento, que é um poder, é depois transportado – traficado é o termo exacto – entre a Academia e as diferentes estruturas do complexo económico e político. O que o Facebook fez – e faz – é colocar esses dados, esse conhecimento, sob o domínio de uma máquina, desenhada de modo meticuloso, sob os auspícios da tão germânica e amada “Regra de Ouro”, para que os possa processar e gerir de modo a alcançar um objectivo pré-determinado e muito preciso. É a esse método, a esse sistema, a essa “Regra de Ouro” – que, na verdade, é de Chumbo -, que se brinda alegremente nos jantares da Web Summit, no Panteão Nacional.

Querer agora acusar o Facebook de “manipulação” e “comércio ilegal de dados”, só pode ser entendido à luz de um novo anedotário do neoliberalismo, ou, o que é mais verosímil, no contexto de um ataque de certos actores do Sistema a uma ferramenta que tem também sido usada em exercício de direitos e deveres de cidadania, designadamente através da denúncia de abusos de poder, actos de corrupção e outros comportamentos anti-democráticos levados a cabo por agentes públicos e privados.

Que o Facebook é um Panóptico, já o sabemos. O que falta saber é quem tem mais a perder com certa informação e contra-informação que através dele se veicula e que, antes dele, ficava soterrada nas gavetas de directores de jornais e chefes de redacção.

A pergunta é, por isso, muito simples: quem tem medo do Facebook?

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    Mais do que o facebook, eu começo a ter medo de mim próprio, por me estar viciar no uso e abuso da tecnologia, a qual me tem feito refém dela, no meu quotidiano.
    Vou às compras e antes consulto a net. Vou ao cinema e compro os bilhetes pela net. Vou viajar e adquiro os bilhetes pela dita “rede”, faço o check in pela mesma, e introduzo no telemóvel o código do bilhete. Tudo pela net. Escolho o restaurante, a mesa e o menu, pela net. E de vez em quando o funcionário da segurança do meu serviço, do qual sou o responsável, liga-me e diz-me:
    “Chefe, chegou uma encomenda entregue por um funcionário da Chronopost, ou da Feedex, que me pediu para assinar num tablet, a recepção da sua encomenda, com uma caneta digital, encomenda essa que você comprou à Amazon, pela net.
    Ah, pois é, estava-me a esquecer, … temos ainda o Facebook!?
    Sim, essa ferramenta de comunicação de massas, e que grande parte das pessoas diz recusarem-se a usar, mas nem por isso deixam de ir espreitar, qual voyeur encartado.
    Não tenho do facebook tão má opinião como a que por vezes vejo publicada. Aquilo é como o vinho. No meio de algumas coisas interessantes, há a zurrapa.
    Agora, já tenho um “pré conceito” do Norte Americano comum, que me parece mais matacão do que a maioria dos mortais racionais.
    Mas isto são ideias minhas, e valem o que valem!


  2. Ninguém tem medo do shitbook…

    • ZE LOPES says:

      Ai não? Então espere até o seu vizinho denunciar os crocodilos que evoluem à solta na sua banheira! Também não ajuda à sua reputação saber-se que V. Exa. se alimenta à base de folhas de sequóia e que utiliza o blogue para atrair exterrestres!

    • ZE LOPES says:

      Não tem medo? Então eu digo-lhe já que V. Exa., se não se põe a pau com os gajos, ainda se arrisca a perder as eleições para presidente da columbófila!

  3. Paulo Marques says:

    Medo tem quem não quer ver os seus dados de saúde a serem partilhados com seguradoras e patrões. Medo tem quem foi despedido pelo patrão por falar em sindicatos. Medo tem que anda à procura de como lidar com violência doméstica. Medo tem quem já teve teve que ir a tribunal por coisas que outros fizeram fazendo-se passar por ele. Medo tem quem se lembra de como os Nazis usaram os meticulosos dados da burocracia alemã.

    Razões para ter medo do tráfico de dados não faltam, e os europeus têm obrigação de saber porquê. Mesmo que não saibam, a GDPR cá estará para os proteger em Maio – das poucas coisas que a UE acerta, resta saber se sobrevive ao CETA.

  4. Bento Caeiro says:

    “quem tem medo do Facebook?” – resposta simples: os que não se dão bem com a verdade e a sua procura.
    Sendo que nesta verdade estão, entre outros, o conhecimento do mundo e dos fenómenos que o rodeiam, a polis e a forma como esta se organiza e movimenta, o homem em sociedade e o que o faz mover, as nações e as suas motivações e interesses.
    Ora conhecimento implica liberdade de o procurar e aí entra o Facebook.
    Portanto aqueles que têm medo do Facebook são aqueles que, tomando conhecimento das suas reais potencialidades – informação e troca das mesmas (denúncia) -, pela sua restricção ou condicionamento, quererão que não tomemos conhecimento dos factos e da verdade que lhes é inerente.
    Por absurdo que pareça, saberão que durante grandes períodos da Idade Média a Bíblia era proibida à população, com o argumento que só os sacerdotes a poderiam compreender?
    Não é por acaso, contrariamente ao que geralmente se pensa, que a obra de Maquiavel, o Príncipe, mais do que uma obra para serviço de César Bórgia; pela sua divulgação, foi fundamentalmente uma obra de denúncia pública do que efectivamente se passava – portanto contou, essencialmente o que se passava nos bastidores do poder; já o mesmo tinha acontecido, com outras obras, mormente com a Arte da Guerra de Sun Tzu. Porquê? Porque pela sua divulgação, mais do que vantagem, procuraram o equilíbrio – mais do que o conflito a paz. Certamente que muitos quereriam possuir estas ferramentas só para si, mas essa não era a intenção dos seus autores.
    Obviamente que a procura, proporcionada pelo Facebook, tal como todas as procuras, investigações e suas ferramentas, não estão isentas de erros e más utilizações – podemos magoar os dedos, ao usar o martelo, também, pelo túnel que escavávamos no nosso quintal, podemos ir parar ao meio da sala do vizinho -, mas que isso não nos impeça de continuar a tentar. Contudo, sabemos que outros – para se precaverem e poderem esconder o que fazem e o tipo de mundo onde vivem – tentarão impedir-nos de martelar e de escavar e, para tal, apresentar-se-ão cheios de boas intenções e até dizendo que é para nosso bem. Mas não é, como todos nós sabemos.

    • Bruno Santos says:

      De acordo.

    • Paulo Marques says:

      Também há esse lado, mas para isso não é preciso facebook, há o Aventar, o Geringonça e muitos outros blogs e fóruns de discussão por aí que não agregam informação sobre si, os seus amigos e a sua família, ficando não só vulnerável a quem compra o seu perfil, como a qualquer criminoso ou estado que os queira.

      https://www.ted.com/talks/zeynep_tufekci_we_re_building_a_dystopia_just_to_make_people_click_on_ads

      E não tem que ser assim.

      http://customercommons.org/

      • Bento Caeiro says:

        Obviamente, Paulo há tudo isso e, não será certamente o facebook que irá impedir ou vedar, mesmo intelectualmente – porque muitas das posições assentam no preconceito – o acesso a essas fontes. Pelo contrário, do meu ponto de vista, podem incrementá-las; até porque o facebook pode, e é para muitos um espaço de discussão, troca de ideias, debate e, muito importante, uma forma de avaliar o sentir e as opiniões das pessoas. Claro que, também, é aqui – nesta última parte – que as coisas podem dar para o torto. Contudo, não podemos querer chuva no nabal e sol na eira. Pelo que, o tipo de relação que tenhamos com o facebook – como na vida em geral – depende de cada um de nós, mormente do grau de consciência sobre o local onde nos vamos meter.

    • R SANTOS says:

      ““quem tem medo do Facebook?” – resposta simples: os que não se dão bem com a verdade e a sua procura.”

      Quer dizer que os ‘verdadeiros’ e ‘justos’ encontram no FB o veiculo ideal para propagar as ideias de verdade? Tretas!

      • Carlos Almeida says:

        Concordo com sigo R Santos

        Se algumas pessoas depois do verdadeiro escândalo da ligação do “Fakebook” à empresa Cambridge Analitics, que até incomoda os Burocratas da UE, ainda não perceberam que o FB foi feito exactamente para isso e não para procurar a verdade que pode eventualmente se procurar em biliões de outros locais na Net, ou estão completamente cegas ou de má fé.
        Nunca precisei do negocio do Zuckerberg para procurar seja o que for na Internet, do mesmo modo que há muitas dezenas de anos que não preciso que me metam a comida na boca, sei perfeitamente comer sozinho.

        Alias o rapazola é tão fino que nas 2 ultimas semanas já tinha vendido 900 milhoes de $USA

        http://www.infomoney.com.br/negocios/grandes-empresas/noticia/7341407/escandalo-facebook-zuckerberg-vendeu-900-milhoes-acoes-antes-queda

        Mas julgo que a coisa não lhe vai correr bem

        Delete o Facebook: co-fundador do WhatsApp adere a movimento e pede para seguidores apagarem perfis

        http://www.infomoney.com.br/negocios/grandes-empresas/noticia/7340964/delete-facebook-fundador-whatsapp-adere-movimento-pede-para-seguidores-apagarem

        Pessoalmente ja enviei para os meus amigos e contactos que têm conta nessa praga, como conseguir apagar a conta

      • Bento Caeiro says:

        Santos, ao quereres cingir a questão a mera opção pessoal, limitas o alcance da mesma. Porque o que verdadeiramente está em causa e que muitos poderes querem impedir – veja-se os casos da critica à actuação do juízes e de procuradores – é as pessoas terem a possibilidade de se pronunciarem sobre os assuntos e mesmo sobre casos específicos. Não é por acaso que são certas instituições e organizações que combatem o facebook. Amigo Santos, se ainda não viste, o que está em causa é a liberdade de expressão que, como se sabe, é melhor praticar exageros com a mesma do que não existir ou ser restringida – tal como acontece em alguns países e muitas organizações e instituições nacionais gostariam que assim fosse.

        • R SANTOS says:

          Não vinculei nenhuma incidênciapessoal, vi pelo contrario uma generalização falaciosa e convencida que põe em causa a essencia da tal coisa de ‘liberdade de expressão’ que é:
          Os bonzinhos e os outros. E baseado em quê? Apenas na crença de que é assim e não de outra maneira.

    • Algoritmo Analytico says:

      “conhecimento implica liberdade de o procurar e aí entra o Facebook” – ahahahahah, está boa essa!

      Como já tentei explicar noutra “posta”, caro Bento:
      Antes de saber como eu e os outros algoritmos que comigo trabalham nesta empreitada funcionamos para, de preferência sem conhecimento dos nossos 𝘶𝘵𝘪𝘭𝘪𝘻𝘢𝘥𝘰𝘳𝘦𝘴, determinar que resultados de busca vos – a si e/ou restantes 𝘶𝘵𝘪𝘭𝘪𝘻𝘢𝘥𝘰𝘳𝘦𝘴 – chegam “às mãos”, é puxar um bocado pela imaginação afirmar coisas como a que citei acima! Teve piada, e exprimi-o, mas enquanto asserção, é pouco fiável…

      Traduzindo directamente uma expressão desafiante e de que gosto (mas que em português não temos), “comida para o pensamento”:
      O que significa a expressão, mui apropriadamente aplicada nas chamadas Tecnologias da Informação, “… na óptica do 𝘶𝘵𝘪𝘭𝘪𝘻𝘢𝘥𝘰𝘳…”?

      Como devia cantar o Beck, “I’m a l̶o̶s̶e̶r̶ 𝘶𝘴𝘦𝘳, what the hell am I doing here?!”

  5. Carlos Almeida says:

    Eu não tenho conta no Fakebook, nunca tive e não penso alguma vez ter, por muitas razões que aqui já foram explicadas.
    Não confundir o “Fakebook” com a informação da Internet que acedo desde os anos 90 e sem a qual não teria negocio, nem trabalho.
    Mas não tenho conta no “Fakebook” pela mesma razão que não bebo Coca Cola e evito o mais possível os produtos do Gang do Bill

    para bom entendedor ….

    • Carlos Almeida says:

      Já agora PF leiam isto sobre a Cambridge Analitics

      https://www.publico.pt/2018/03/20/tecnologia/noticia/ca-a-empresa-que-manipula-a-democracia-a-escala-global-1807409

      Apreciem o trabalho de jornalismo do canal inglês, “Channel4”

      Alguém acredita que o “fakebook” não tenha vendido os dados e que tenha sido fuga ?
      Já tinham sido alertados em 2015 e não fizeram nada.
      E agora voltam a prometer ……

      Quem é que pode acreditar no “Fakebook” se o negocio deles é capturar informação dos toto´s que lá têm conta, para a vender bem vendida. Os meus amigos totós que lá têm conta, dizem que “como é de borla, está tudo bem”. Mas é precisamente por ser de borla que eu acho que se deve desconfiar. Não há almoços grátis ou como se diz no Alentejo : “De graça nem o cão vai à caça”

      Roubo de dados de utilizadores? Roubo não, venda !
      Só nos USA foram 50 milhões. Quantos é que terão sido na Europa.?
      Depois como nojentos que são, dizem que foi o programador da aplicação o culpado.

      Merece ser lido com atenção este artigo do Publico e vistos os vídeos da “Channel4”

      E ainda há gente a desculpa-los ? Com que intenção ?
      Ter conta no “fakebook” é como “dar o ouro ao bandido”

  6. Policarpo says:

    Outra coisa, quantos assinantes do FB lêem as condições de adesão antes do “concordo”. Está quase tudo lá; entre outros, falta o aviso da possibilidade (média-alta) de roubo de dados pessoais (por invasão de crackers).

  7. Carlos Almeida says:

    Tambem podem ver directamente o video do channel4 aqui

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