Oracular, caro Watson!

Tem-se manifestado notável a vocação oracular da Direcção Geral de Saúde, facto que abre todo um novo mundo de possibilidades ao já amplo universo do conhecimento científico e recupera a esperança nos contributos que o esoterismo pode trazer às sociedades contemporâneas, estruturas complexas das quais vão emergindo problemas também mais complexos, como foi o mais recente surto dessa temível doença chamada Sarampo.

Graça Freitas, Directora Geral da Saúde, afirmou hoje numa audição pública ocorrida no Parlamento, a pedido do PCP e do PS, que “os cientistas estudam agora a possibilidade de vir a ser necessária uma terceira dose contra o vírus [do Sarampo]”. A responsável adiantou que tal conclusão científica “ainda não está escrita em lado nenhum”, mas que “acredita” que vai acontecer, porque “há muita gente” a estudar essa possibilidade.

O rigor científico das ilações premonitórias da Dra. Graça Freitas não deve ser confundido com as crenças não científicas da “gente” que “acredita” nos efeitos terapêuticos da oração, ou na importância de fluxos electromagnéticos com origem em zonas profundas do cérebro sobre o fenómeno da telecinesia. Está á vista – e toda a gente sabe – que são realidades totalmente distintas, pois radicam em pressupostos e tradições epistemológicas que não podiam estar mais distantes do ponto de vista da credibilidade e do rigor metodológico.

Aliás, o oráculo científico – e cheio de estudos – da Direcção Geral de Saúde, já produziu adivinhações cujo grau de exactidão supera o de qualquer relojoeiro suíço, como foi o caso – para dar apenas um – da Nota de Imprensa sobre o Sarampo – lembrando que pode ser uma doença grave – emitida pela DGS no dia 23 de Fevereiro de 2018, cerca de duas semanas antes do primeiro Comunicado, da mesma DGS, a dar conta da “notificação” dos primeiros 2 casos da doença e a declarar a existência de um “surto” (14 de Março de 2018).

Oracular, caro Watson.

Comments

  1. Luís Neves says:

    Fixe.

  2. Paulo Marques says:

    Também Einstein acreditava na relatividade antes de fazer as contas (e pior, em deus). Uma coisa é acreditar sabendo que é uma suposição, outra coisa é acreditar (e actuar) fazendo de conta que não é, isso é que seria grave.

  3. O Barbas do Pau Santo says:

    Esqueceram a 3ª, clássica e aprovadíssima—Estando o doente comprovadamente ensarampado e acamado,sem esperança,
    entrapam-se de vermelho os candeeiros do quarto de modo que
    ao acenderem-se à noite dáo tal visão infernal que só apetece fugir,ao doente e ao vírus.Aconteceu comigo e aos colegas de escola apanhados desprevenidos.Anos 50.
    Hoje talvez a acupuntura reforçada com gengibre e cebola evite tal visão.As coisas avançam.

  4. Bento Caeiro says:

    Nos tempos em que as coisas aconteciam e tudo ficava pelo local – não tenho idéia que algum dos colegas da minha turma, de 40 alunos, tenha escapado à infecção – uma coisa garanto, não havia alarmismos; tudo era encarado de modo natural – assim: já tiveste sarampo? Não? Eu já; na minha sala fui o último. Também posso dizer, que ninguém morreu. Que temos agora? Papagaios enunciando que está tudo controlado, contundo os casos não cessam de aparecer, mas os papagaios não desistem e continuam a repetir-se até, obviamente, o surto ter um fim. Já vimos o filme da legionella e agora é com o sarampo. Outros mais acabarão por vir – tenhamos a certeza.
    É caso para perguntar se o papagaio apenas serve para atormentar os passageiros do navio, também a sua tripulação, porque não o mandar pela borda fora e assim deixar a tripulação trabalhar para preparar o navio para a borrasca, acalmando e tratando os seus passageiros?

  5. Luís Neves says:

    O último “Os Prós e os Contras”. Sobre as vacinas, é claro. O José Cruz – aquele senhor “anti-vacinas” – pergunta da plateia: “Porque é que a vacina do sarampo “vende-se” junta com as vacinas da rubéola e da papeira?”. NINGUÉM DO PALCO RESPONDE A ESTA PERGUNTA! Alguém responde que não faz mal nenhum tomar três vacinas ao mesmo tempo. A pergunta é muito simples e clara. O subentendido também. Esta pessoa não o entendeu ou entendeu-o e não respondeu não se inibindo contudo de responder. Não respondeu porque não era competente ou não estava autorizada a responder. No entanto estava lá a ocupar espaço. Esta pessoa despresou o direito de escolha e o consentimento informado! Estas pessoas! As do palco! Alguém também disse (não sei agora se foi a mesma pessoa) que a da rubéola era boa para as mulheres. E para os homens? Devem-na tomar com a do sarampo porque sim?

  6. Luís Neves says:

    É esta a medida da responsabilidade desta gente. Toma também esta mesmo que não precise porque vem junto no pacote da outra e é o que temos. Como se as vacinas não tivessem efeitos adversos e efeitos adversos reconhecidos pelos próprios fabricantes e que são mencionados nas respectivas bulas sendo alguns deles graves. É nesta gente que mostra assim não saber ponderar os benefícios e os riscos que devemos confiar de olhos fechados como nos pedem?

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