Eu e as árvores

arvores

[António Manuel Ribeiro]

Hoje um vizinho decidiu terminar com a vida florescente de um pinheiro com uns bons 15 metros de altura. Quando cheguei vi o estandarte, a moto-serra começou a debitar ruído desesperado e os ramos começaram a cair, seguros por cordas que um operário, empoleirado no alto do tronco, faz descer para a relva. É uma decisão.
Comecei a estudar ecologia pelas páginas do vespertino A Capital, anos ’70, onde um senhor jornalista, de nome Afonso Cautela, nos avisava do mal que andávamos a fazer ao planeta e por junto ao bem-estar humano – esse bem-estar não coincide de todo com a política de terra queimada de alguns: matar tudo, cortar tudo.
Mas obrigaria, se houvesse inteligência para tanto, a extirpar a ganância e a arrogância, factores da queda humana continuada. A bem de alguns PIBs, claro, que enchem de regozijo qualquer ministro das Finanças – isolado na sua cátedra, deixa passar o que não lhe diz respeito. É um especialista, logo sabe cada vez mais sobre cada vez menos, para mal colectivo. A propaganda faz o resto.

Há muitos anos, quando fui viver para a Costa de Caparica, junto ao mercado, alguém com poder decidiu tapar a vala que dividia a avenida principal que leva às praias do Sul da Costa, começando por abater os velhos plátanos que bordejavam o riacho e mantinham o centro da Costa como a ilha ancestral que sempre foi – Francisco Manuel de Melo (século XVII) descia a cavalo até as areias, dizia-se que o amor e as letras o chamavam. A passarada, desorientada, esvoaçou e grasnou gritarias desencontradas porque receberam ordem de despejo sem pré-aviso e moradia de substituição. Chateei-me, escrevi um poemazito que se terá perdido nas andanças de casa que foi uma boa parte da minha vida.
Enfim, sou dado a estados de alma, como soe dizer-se, melancólicos, fazem bem, confirmam que os pés estão no chão, sou frágil quanto a força da natureza e o barro não me serve de pedestal. Mas o Randy Newman, que estou a ouvir, também ajuda. Bom dia.

Comments

  1. Antonio Medeiros says:

    Sr. António,também sinto uma dor quando vejo meus vizinhos decidirem a cortar árvores que estão a os atrapalhar.Então lembro-me de um artigo publicado em 1968 aproximadamente na revista Popular Electronics a relatar a experiéncia de um técnico de uma “organização” dos Estados Unidos que ligando duas placas condutoras com um gel condutor ligadas a uma folha de uma planta e levadas á um amplificadorzinho com um galvanómetro como indicador dos testes.Imaginou,então, queimar a folha quando, surpreso, a planta reagiu à intenção. Imaginou, ainda queimar a folha mas sem intenção de faze-lo ea planta discernia entre a verdadeira e falsa intenção. Estudos posteriores mostravam que este facto acontecia também com esporos,sementes e árvores a quílómetros distantes. Passados alguns anos a revista de radioamadores “73” noticiou que este facto era conhecido na India em 1927. Depois dito,passo a pensar que deveríamos ter considerações com a Natureza porque estamos incluídos no mesmo ambiente.


  2. Pois já que estamos em sintonia com a maravilha Mãe Natureza, acedei a este livro interessante :

    https://www.pergaminho.pt/produtos/ficha/a-vida-secreta-das-arvores/17463650

    e a este vídeo que devia ser obrigatório nas escolas das nossas crianças…se tivéssemos pessoal competente ligado ao ensino/educação :

    e atenção, que a RTP serviço público está a cumprir-se :

    https://www.rtp.pt/programa/tv/p35312

    Próximas emissões deste programa
    04 Abr 2018 20:00
    RTP3

    • Fernando Antunes says:

      O documentário é, de facto, excelente.


    • O livro é muito bom. E explica muito bem o porquê das árvores nas cidades durarem tão poucos anos quando comparado com árvores em ambiente natural. Porque são incrivelmente maltratadas.

  3. Bento Caeiro says:

    E então que dizer dos senhores que andam a promover – para escaparem ao que já prevêem para o próximo Verão – o corte de árvores, mesmo de fruto, junto às habitações com o argumento de prevenção sobre os fogos, em zonas onde tal não acontece. Até porque todos sabemos que o que se passou resulta da atitude face à florestação dos campos com espécies como o pinheiro bravo e principalmente o eucalipto, a que se vem juntar, agora, o olival intensivo e super-intensivo – que não cumpre a legislação de afastamento de copas em 4 metros, mas sobre os quais ninguém se pronuncia. Será porque, tal como os eucaliptais, há grandes interesses por detrás dos mesmos?


  4. Aproveito o belíssimo texto do meu amigo Antonio Manuel Ribeiro​ para meter a minha “colherada”.

    Acho que cortar árvores em Portugal parece que está a tornar-se um “desporto nacional”…

    Recentemente percorri algumas zonas verdes aqui do Minho e vim muito zangado com os criadores desta Lei estúpida. Vêem-se autênticos “massacres” florestais. Cortes de árvores indiscriminadamente sem qualquer sentido. Uma razia estúpida que pouco, ou em nada vai contribuir para a segurança de pessoas e bens.

    O Governo pretende queimar mais uns milhões de euros em aviões para o combate aos incêndios, mas nada dizem sobre o que pensam fazer para impedir a principal causa dos incêndios; os incendiários e os seus mandantes.

    Se nada for feito no sentido de os deter não há aviões que nos salve e Portugal continuará a arder e mais pessoas vão morrer. Quase de certeza.

    Tenho apoiado muitas medidas deste Governo, mas neste caso, não.
    Porque é que o Governo e o hiperactivo PR ignoram e subestimam o factor de risco número um?
    Aqui há gato!


    • Pois eu, que não votei em nenhum partido com assento parlamentar estou totalmente de acordo com a pressão que este governo fez para que se limpasse o que nunca foi limpo. A lei tem muitos anos, não foi inventada por este governo. Mas até hoje ninguém fez nada. Mas lei existia para nada porque ninguém limpava nada, nem ninguém fiscalizava nem ninguém se preocupava minimamente o assunto As pessoas deixam o mato entrar casas e empresas adentro, e depois as casas ardem e culpam o governo, seja ele qual for, querendo sacudir a sua responsabilidade.

      As juntas de freguesia, as câmaras municipais nunca fizeram nada, nem onde a responsabilidade é sua.
      E nunca se fez nada porquê? Porque quem tem terrenos são os ricos remediados, não são os pobres. Não foram os pobres que eucaliptaram o país, foram sim os empresários da pasta do papel. E como em Portugal impera o caciquismo, as juntas e as câmaras não estão para chatear os senhores fulanos de tal a limpar! Era o que havia de faltar e ainda iam perder votos com isso!

      Mas então quando é que e Portugal se faz alguma coisa? Só quando acontecem tragédias! Há muito que as pessoas de Castelo de Paiva reclamavam por uma ponte nova, pois a que tinham foi construída para passar carroças e onde passavam, todos os ias, camiões carregados de areia. Mas dizia-se, como hoje, que não havia dinheiro. Até que a ponte ruiu e morreram 60 pessoas. E não havia dinheiro, mas logo a seguir o Guterres construiu não uma, mas duas pontes novas!

      E foi preciso morrerem num ano cem pessoas nos incêndios, para que um governo finalmente fosse obrigado a fazer cumprir a que a lei, a tal que já existia há muitos anos, e que sempre se fez vista grossa. E vêm agora as câmaras municipais dizer que “não têm tempo”? Não? Então e o que é que andaram a fazer durante todos estes anos?

      E a lei é muito específica sobre o que deve ser limpo. Agora se as pessoas, com a desculpa da obrigatoriedade de limpar, cometem verdadeiras atrocidades, e limpam tudo a eito, incluindo árvores protegidas, isso já é outra questão que nada tem que ver com a lei.

    • Paulo Marques says:

      Não sei porque os incendiários não são mais perseguidos, mas sei que basta uma pequena ignição em condições que serão cada vez mais normais para que arda tudo independentemente da água que se atire para cima. A solução é mesmo não haver o que arder, dentro do bom senso de preservar uma das melhores coisas do país.


  5. Infelizmente há cada vez menos sensibilidade para a Natureza. As pessoas aplicam herbicidas por preguiça, por ignorância ou ingenuidade, afinal, se se vende é porque não deve fazer mal! Errado! É cancerígeno e os portugueses estão muito mais contaminados que os seus vizinhos europeus. As pessoas cimentam jardins ou despejam-lhes gravilha ou casca de pinheiro em cima, porque as árvores são uma chatice: deitam folhas para o chão! Em vez de relva, agora veio a moda do plástico a imitar relva, porque lá está, a relva dá trabalho cuidar.
    As câmaras municipais cometem verdadeiros crimes. Ainda há quinze dias deparei-me com este cenário em Penafiel:
    https://bucolico-anonimo.blogspot.pt/2018/03/podas-assassinas-em-penafiel.html

    E parece que isto não choca ninguém, ninguém se insurge, ninguém se manifesta, porque cada vez mais as pessoas estão desligadas da Natureza. Vivem isoladas do mundo a olhar para o Telecrã o tempo todo.

    Quando descobrirem que sem árvores o ser humano não vive talvez já seja demasiado tarde.


  6. Quanta verdade no que escreveu, Konigvs !!

    …” porque cada vez mais as pessoas estão desligadas da Natureza. …”

    e tristemente as gerações vindouras vão ser mais dependentes da inteligência artificial e da realidade virtual e insensíveis à plenitude de uma Natureza única e sábia deste planeta nosso maravilhoso ! que lástima !


    • Há uns meses, num fim-de-semana fui ao Museu do Vinho do Porto ver um documentário interessantíssimo, apresentado pelo Francisco Ferreira da Zero, sobre o que está a acontecer com a desflorestação a propósito da desculpa da biomassa e dos bio combustíveis, intitulado “When biomassa goes wrong”.
      Naquela sala eu e a amiga que me convidou a ir com ela devíamos ser os mais novos, e eu já passei os quarenta! Porquê? Porque infelizmente os mais novos não se interessam pelo ambiente. Pior! quando contei aos meus colegas de trabalho, a pergunta foi: foste ver um documentário sobre ambiente? Mas isso não é uma valente seca?
      É isto que as pessoas pensam sobre o ambiente e natureza: uma valente seca.

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