A novela do Infarmed

Uma cidade faz-se e cresce a partir da força das suas instituições e da massa crítica que consegue gerar. Essa massa crítica resulta não apenas do grau de consciência cívica dos seus cidadãos e do modo como estão prontos a colocá-la ao serviço da cidade, mas também do seu lastro histórico, ou seja, de como e em que medida essa massa crítica foi construindo Cultura (Civilização) aos longo dos anos e dos séculos, sedimentando-a num corpo colectivo e identitário chamado Cidade. Uma Cidade não é um lugar onde vão muitos turistas que pagam para se divertir. Isso é um bordel.

Vem isto a propósito da inaceitável instrumentalização de importantes instituições do país, a que se assistiu na novela da putativa transferência do Infarmed para o Porto, já antes agravada por uma brincadeira eleitoral que teve como epicentro a Agência Europeia do Medicamento e uma “candidatura” vergonhosa, feita numa capela, que colocou em causa não apenas a credibilidade do Porto, mas a de Portugal como um todo.

Ambas as instituições – Infarmed e AEM – foram, e continuam a ser, objecto de uma instrumentalização política só possível por via da degradação da massa crítica da segunda cidade do país e do país no seu conjunto. Em nenhum lugar civilizado – na verdadeira acepção do termo – se aceitaria que os representantes do poder brincassem desta maneira com os cidadãos – que tratam como tolos – e com a dignidade das instituições que dão corpo à República e sentido à Democracia representativa.

Seria bom que se acabasse com esta brincadeira de uma vez por todas.

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    O PS lançou a ideia do InFarmed para o Porto, com nítidos objectivos eleitorais regionais, depois da desastrosa gestão do processo de captação da AEM para Portugal, primeiro em Lisboa, depois a pedido de várias famílias, na Invicta, profetizado no edifício Atlântico, ex sede do BPA, blá blá blá, pardais ao ninho…
    Como se os países do centro da Europa, alguma vez deixassem ir uma instituição desta envergadura científica para um país como Portugal. Há gente que pensa nisto como o festival da Eurovisão.
    Quanto ao assunto do InFarmed propriamente dito, a forma como o governo diz e se desdiz, parece uma brincadeira de putos. Note-se que este sempre foi o registo do PS. Lançar o barro à parede a ver se cola. Por vezes até o lançam e escondem a mão. Outras dão o dito por não dito.
    Nada a que não estejamos já habituados.

    • Nina Santos says:

      Aprenderam com o PSD, exímio nessa estratégia, em que comentadeiros encartados lançavam salpicos de decisões e depois ficavam nos covis à espreita.
      O que me espanta mesmo é esta aparente ingenuidade que leva à defesa de certos quintalórios.

  2. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    Estes espectáculos são, de facto recorrentes e mostram o perigo de uma descentralização protagonizada por caciques. Temo que com os autarcas que temos, passemos a ter, não uma descentralização que precisamos de facto, mas uns feudos governados por um novo tipo de feudalismo.
    Já vi isso no passado e continuo a ver no presente.
    No meio do eudeusamento e do populismo que o nosso presidente teima em propalar fingindo que não vê (far-lhe-ia bem olhar por ele abaixo, por exemplo), penso que esta impreparada classe política acabará por descredibilizar a descentralização, como o tem feito com a política.
    Estamos perante “guerrinhas de alecrim e manjerona” que se destina, apenas a distrair o comum dos cidadãos.
    No Porto, há muita sarna para os autarcas se coçarem, se quiserem, de facto, ter a cidade nos píncaros. É preciso dar exemplos?

  3. Ana Moreno says:

    “(…) só possível por via da degradação da massa crítica da segunda cidade do país e do país no seu conjunto.”
    Oi Bruno, diria que, nos tempos que correm, basta uma pessoa andar informada sobre o que se passa REALMENTE em qualquer lado, para se abismar e desesperar com a degradação da massa crítica. Este sistema criou as maiorias de que precisa, centradas no umbigo e cansadas… ou descansadas demais.
    Abraço forte!

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