A Geração 20/30 de António Costa

A Moção Política de Orientação Nacional com que o actual Secretário-Geral do PS, António Costa, se apresenta ao próximo Congresso, tem como título “Geração 20/30” e as suas propostas desenvolvem-se sobre 4 vectores fundamentais que, segundo o líder socialista, se constituem como “as grandes questões estratégicas que se colocam ao país”.

A saber:

  1. As Alterações Climáticas
  2. A Demografia
  3. A Sociedade Digital
  4. As Desigualdades

O facto de serem quatro “as grandes questões estratégicas” é, em si mesmo, parte significativa da estratégia de António Costa, que pretende centrar e estabilizar o discurso político com o qual justifica uma certa suspensão da acção governativa em torno dos postulados e do dogma da “regra de ouro”, buscando com isso uma anestesia, ou mesmo uma regressão da expectativa, a qual considera já plenamente satisfeita com a “devolução de rendimentos” e o “fim da política de empobrecimento”.

O Quatro, que corresponde ao Quadrado, é a tradução geométrica e morfológica de uma estado mental – no caso, com expressão política e psico-social – caracterizado pela pulsão de defesa do Centro, de estabilidade e reserva, instintos conservadores que visam produzir uma sensação de segurança e protecção em face das possíveis ameaças do meio externo. É, para todos os efeitos, uma reacção primária de medo, uma atitude receptiva, de quem pretende assegurar na organização estática dos quatro ângulos rectos um território inviolável, mas sem capacidade de expansão. A expansão, por seu lado, pressupõe o risco. Exige que o Quadrado se liberte por um Quinto Elemento cuja natureza se funda na síntese dos Quatro, mas os ultrapassa e transcende por uma operação exclusiva do Espírito, que só ele pode dinamizar por via dos recursos criativos pertencentes à condição humana, ao Valor humano.

Todo o discurso da Moção Estratégica tem um perfil burocrático, extremamente limpo e frio do ponto de vista emocional. Dele está praticamente ausente o fio ideológico – filosófico seria o termo correcto – do qual possa extrair-se um vestígio de Humanismo e empatia vital susceptíveis de congregar ânimos colectivos, de estimular vontades, criar desígnios ou reforçar afectos. E uma Nação é uma comunidade de afectos. A frieza tecnocrática das estatísticas mais ou menos arranjadas, o discurso ainda austero dos números, no qual, em grande medida, se funda o poder simbólico da própria Austeridade enquanto ideologia, mantém-se como única possibilidade emotiva da política e do governo do país, crescentemente adornada pelo mito tecnológico, pela vertigem digital e pela ilusão de uma sociedade composta e unida por gente “actualizada”, com “formação” e “preparada para os desafios do futuro”, perfeitamente capaz de distinguir notícias verdadeiras, as boas, da poluição semiótica das fake news e das teorias da conspiração. Receptiva à “internet das coisas”, à “energia limpa”, versada em código, com relações sociais desmaterializadas, sempre em rede, “inteligente e sustentável”, “voltada para o futuro” e disponível para “a mudança”. Este jargão 4.0 do novo analfabetismo vital pretende legitimar, tornando-a supostamente inteligível, a colonização do Espírito Humano pela chamada Inteligência Artificial, um verdadeiro Cavalo de Tróia que fará regredir o ser vivo para estádios inferiores de desenvolvimento, porventura ao ponto de tornar dispensável a sua presença no planeta e inútil qualquer tipo de sociedade humana. Pois, ao contrário do que alguns optimistas sugerem, não nos encontramos no plano antevisto e desejado por homens como Agostinho da Silva, em que à humanidade a vida seria entregue de graça e o Tempo se transformaria na matéria-prima de uma Poesia superior, do Homem poeta de si mesmo, cantor do Universo e filósofo das estrelas. Estamos do outro lado, no outro extremo.

No que se refere ao primeiro ponto da Moção Estratégica de António Costa – o único que aqui será analisado -, “As Alterações Climáticas”, o actual Secretário-Geral do PS começa por afirmar que “as próximas décadas confrontam-nos com um mundo em mudança acelerada” e que “se avizinha uma mudança” para a qual devemos estar preparados. António Costa não apresenta, porém, qualquer estudo científico ou artigo em revista americana especializada que comprove a sua tese. Os ancestrais chineses, cuja cosmovisão se estabeleceu há mais de 5.000 anos – pelo menos – já defendiam o princípio da mutação como única constante do Universo, não gastando para isso mais recursos do que os necessários para ficar alguns minutos a olhar para a carapaça de uma tartaruga. Confúcio perdeu décadas de vida estudando tal fenómeno e erguendo o Império do Meio, actual especialista no fabrico de lâmpadas Led.

António Costa refere o “desafio das alterações climáticas”, apontando como exemplo dessas alterações “a seca extrema dos últimos meses” e “a devastação provocada pelos incêndios florestais do verão passado”. Adianta ainda que, mesmo que cumprido o objectivo do Acordo de Paris quanto ao aumento da temperatura – impedir que esse aumento seja superior a 2 graus -, “o número de dias de calor extremo irá quintuplicar”. Não evoca, no seu documento estratégico, a extinção dos dinossauros, ou do Homem de Neandertal, o que se afiguraria pertinente no âmbito de uma análise escatológica da História, do seu fim, do princípio da Enantiodromia, ou da contextualização contemporânea, burocrática e positivista da experiência apocalíptica de João, quando clamou, ante o Número de Dante : “Eu vi a Visão”.

A NASA confirma que, de facto, o planeta do qual somos hóspedes tem sofrido modificações sensíveis ao nível do Clima, com aumento da temperatura média, degelo, desaparecimento de praias, adulteração do Mojito e fenómenos atmosféricos extremos, de que são exemplo as ventanias que tomam agora o nome de pessoas, uma tendência antropomórfica e antroponímica que remonta, pelo menos, à antiguidade clássica, e que alcançou o zénite com Bugs Bunny, o famoso coelho desenhado pelo inventor das mãos de quatro dedos, Walt Disney, 33º Grau de um termómetro poluído com mercúrio e metais pesados.

É possível que um dos motivos pelos quais um documento como a Moção Política de Orientação Nacional apresente como primeiro ponto de análise e intervenção estratégica do PS “As Alterações Climáticas”, seja o profundo trauma social causado pelos incêndios do ano passado. A verdade é que, independentemente da bizarria atmosférica que os tenha provocado – exponenciada, ou não, por mão demasiado humana -, os seus tremendos efeitos sobre as populações e o território deixaram exposta a grande fractura que existe entre o Estado desmaterializado, filho do SIRESP, das Web Summits, do Blockchain e da “Revolução Digital”, e as pessoas de carne e osso – o tal Ser Humano -, filho da Pátria e da terra onde esse Estado se funda com indisfarçável despesa. Habituados que estamos a tudo traduzir em números, gráficos, estatísticas e algoritmos, às tantas parecemos esquecidos da desagradável materialidade da vida e do sofrimento alheios. Habituados que estamos à produção contínua de um discurso circular sobre o real, e à sua forçada inscrição no lugar que o real ocupa por necessidade vital, parecemos esquecidos que um país não se faz de palavras, muito menos de palavras que, por vezes, parecem apenas pretender disfarçar a ausência do país.

O resto do documento segue o mesmo registo de um relatório e contas, espelhando o dogma tecnocrático que tomou de assalto o governo da coisa pública e demonstrando, para lá de qualquer dúvida razoável, que não há, de facto, alternativa.

Assim seja!

 

 

Resumo dos restantes pontos:

Quanto ao “desafio demográfico”, o Secretário-geral do PS manifesta igualmente preocupações de fundo, informando que, num período de tempo que não determina, a população portuguesa irá diminuir de 10 para 7 milhões de habitantes, o que se deverá, fundamentalmente, ao envelhecimento da população. António Costa afirma que esta realidade coloca em causa a própria “sustentabilidade da sociedade portuguesa”, pelo que se torna necessário contrariá-la, objectivo que se propõe alcançar através de incentivos à natalidade e estímulos à imigração.

Outro “desafio” apontado é o da “Sociedade Digital”, destacando a influência que esta pode ter no “funcionamento da Democracia” e sublinhando os receios de “instrumentalização” das “ferramentas digitais”, a ponto de constituirem uma ameaça ao tal “funcionamento da Democracia”.

Indica igualmente a “robotização” e a “automação” como fenómenos que podem vir a resultar na eliminação de 14% dos actuais empregos e “alterar de forma significativa o perfil de especialização de outros 32%”, apontando a necessidade de um “esforço de formação ao longo da vida para a população activa, garantindo que a tecnologia integra e não exclui trabalhadores”.

Por último, “As Desigualdades”. O Secretário-Geral do PS diz que é necessário “garantir às gerações futuras uma sociedade menos desigual e com mais oportunidades para todos”, lembrando que, em 1980, 0,1% da população mundial detinha 10% da riqueza, estimando-se que venha a deter 25% em 2050. Outro aspecto apontado como fundamental por António Costa no domínio das “Desigualdades”, é a diferença salarial entre homens e mulheres que hoje existe em Portugal.

Comments

  1. Paulo Marques says:

    É extraordinário que em 2018 ainda se relativize o impacto da alteração global do clima, a mais óbvia das catástrofes ecológicas deste século que mudarão a humanidade para sempre.
    Claro que o problema da moção é andar a paliativos, mas quem não tem soberania e quer ainda menos, também não tem muito a dizer.

    • Bruno Santos says:

      Nenhum relativismo, caro leitor. Relativismo poderá encontrar em breve, no Coliseu do Porto, quando o ex-Presidente dos Estados Unidos lá proferir uma conferência – adivinhe – sobre “Alterações Climáticas”, pela módica quantia de 500 mil euros. Isso, sim, é relativismo.

      • Bento Caeiro says:

        Relativismo, ganância e falta de vergonha, de um ex-presidente de um dos países mais poluidores do planeta. Aliás, na esteira de outro grande hipócrita, Al Gore.
        Mas, também, dever-se-á perguntar a quem vai buscar estas personagens, se acha que os portugueses são burros, ao ponto de um americano lhes poder ensinar – será pelos bons exemplos? – algo sobre o clima e sobre o meio-ambiente?
        Eu diria ao Obama: vá ensinar, se é que tem algo a dizer de válido, à gente da sua terra – que bem precisa, a começar pelo Trump.

        • Bruno Santos says:

          Olhe que quem traz o Sr. Obama ao Porto é leitor do Aventar.

          • Bento Caeiro says:

            Gostava de saber quem é a peça que nos tem em tão baixa consideração, por um lado; por outro, este, que é leitor, poderia borrifar-nos com um pouco da sapiência do seu convidado. Certamente, ficaremos deslumbrados, quiçá nos guindando às estrelas, por tal demonstração de sabedoria ambiental, planetária, cósmica? Ou será cómica? Nã sê!


        • Eu também gostava, exactamente como diz Bento Caeiro, de ….” saber quem é a peça que nos tem em tão baixa consideração, por um lado; por outro, este, que é leitor, poderia borrifar-nos com um pouco da sapiência do seu convidado. …”

      • Nascimento says:

        É pá ,se o tipo inda for mamar uns Barcas Velhas,Vale Meão, ou umas boas Colheitas…. inda deixa algum guito aí pra cima,né? Isso é que vai ser cá uma festarola! E as Sel-FAS COM O PALHAÇO DE SERVIÇO? ui, será que vem com o cão -zinho? O que o animal percebe de ” alterações”! Por exemplo, o fecho de Guantanamo! Também
        ” alterou”….a sua ” Posição”!!! E em dois mandatos!Obra nã é? Pois.


  2. Felicito e agradeço esta sua análise político-filosófica, Bruno Santos. a fazer ler de novo e a reflectir.

    …a política real tão longe destes seus considerandos, e os políticos tão medíocres e tão subjugados ao sistema de poder/mercado dominante nacional e global !

  3. Bento Caeiro says:

    O MEIO DA FLORESTA
    Como o Bruno deverá saber, quando nos embrenhamos numa floresta – seja ela qual for – com vista a atravessá-la em linha recta (a direito) há um momento, ponto, em que começamos a sair e, repito, sem que a conheçamos. Podendo, a maior parte das vezes, começarmos a sair sem que o saibamos e mesmo chegar ao outro ignorando o que fizemos – mas fizemos, é um facto. Contudo, para isso acontecer, é necessário coragem, empenho e algum conhecimento – quando tal não acontece, poderá ser um desastre completo e, então, ou desistimos ou ficamos pelo caminho.
    Assim me parecem muitos políticos, políticas e seus enredos. Até porque para sabermos onde estamos, na floresta, e para nos indicar o caminho, é bom possuir uma boa bússola, saber ler os sinais do ambiente que nos rodeia e, também, saber ler as estrelas. Até porque sendo a floresta frondosa, muitas das vezes nem as árvores conseguimos ver – apenas os troncos.
    Tal como agora, e o Bruno muito bem se apercebeu, os quatro pontos acima indicados, mais não são que um dos lados de quatro árvores que, em dado momento dessa travessia, nos vimos rodeados. Mas como não vimos o todo e desconhecemos se ainda vamos a entrar ou já estamos a sair da floresta, confundimos a parte com o todo e tampouco vislumbramos o tipo de árvores que nos rodeiam.
    A Árvore do Clima, sempre lá esteve e em evolução. Tem a ver com o sistema onde o planeta está inserido e apenas temos de nos adaptar; outra coisa é o lado que nos é lado observar e onde fazemos mais mal que bem, que é o ambiente – e neste alguma coisa podemos fazer – mas não confundamos a parte com o todo. Mas talvez o objectivo seja esse, precisamente, para pouco ou nada fazer em áreas onde poderá ser feito.
    A Árvore Demográfica, obviamente tem a ver com o ambiente, mas antes é preciso esclarecer o que se quer. Na Roma antiga proletários eram os cidadãos do estrato mais baixo da sociedade que serviam essencialmente para votar e fornecer soldados para os exércitos – para o resto, havia os escravos – e para consumir, servidos pelo estado que os queria contentes – daí o célebre “Pão e Circo”. Claro que, de uma maneira ou outra, todas a sociedades têm funcionado assim: tem de haver muitos para apoiar, defender e, à falta de escravos, trabalhar para garantir o bem-estar de poucos. Porque, na verdade, olhando para o lado ambiental da primeira árvore, há gente a mais. Mas, para aceitar isto e a alteração política requerida, seria necessário actuar segundo outro paradigma.
    A Árvore do Conhecimento é simples de observar, já os relatos míticos nos alertavam para o bem que pode trazer, mas, também, o mal. Porque nesta o homem tomando consciência de si, quer ir muito mais além e os limites é que serão necessários estabelecer. Até porque, os interesses de alguns poderão subverter o que será de mais interesse para o próprio. Porquê a aberração de pretender criar algo que o possa vir a substituir? Ligue-se isto à idéia e receio de alguns em deixarem de poder contar com o homem para o que pretendem, assim substituindo-o. Já diziam os mitos: “o homem na posse do conhecimento, quererá ser como deuses”.
    A Árvore da Justiça Social, donde vislumbram a desigualdade, de grande porte, é de uma vastidão imensa e tem a ver com a construção de uma sociedade mais justa e actuante, em todas as suas vertentes; não certamente sob o paradigma do consumismo e do politicamente correcto, redutor, assente em causas que longe de aproximar os cidadãos os irá afastar.
    O ponto, que o programa acima enunciado não vislumbra e a partir do qual se começa a sair do emaranhado que se nos depara, é precisamente o meio da floresta – a linha que divide a floresta em duas partes iguais, no sentido que tomarmos.
    Mas, friso, poderá ser sempre, porquanto incógnita, utopia ou ilusão.

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