O Vale

Quintessência.

 

O Vale*

Que vale eu escrever
se daqui a nada não lembro?
Que traz o gesto
se for só o resto?
Só o suor do ver?

E não fizer como Setembro,
lembrar para viver.

Sei um ninho.

Mas o ninho que eu sei
é feito em desalinho
e as pedras que calquei
para chegar longe do destino
adornam hoje a coroa do Rei.

De que vale então lembrar,
se o mar é o esquecimento?
De que vale navegar,
se o gesto que o mar traz
é um Janeiro nefasto,
um juízo mordaz,

ou uma coisa que nunca se viu?

Mas de que vale também esquecer?
Lembrar o que se ignora?

Ignoto Deo, que pálida carpideira hoje te chora?

De que vale amá-la?

Tê-la como vela. Ela que ilumina só com a janela.
Mais vale sabê-la e curti-la ao sol.

Fazê-la negra.

*(Ano de 2007)

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