A Cómoda

Há um erro gigantesco e utilíssimo que todos aprendemos na escola, erro esse que teve e tem a função de nos ajudar a ver o mundo como uma cómoda de quarto, cheia de gavetas.

Uma das gavetas é para as peúgas, outra para as camisolas, outra para as ceroulas, e por aí adiante. As pessoas que percebem desses assuntos chamam-lhe “especialização”, arte que consiste em compartimentar, o mais possível, a realidade, de maneira a fazer dela uma espécie de trama infinita, e infinitesimal, infinitamente segmentada, infinitamente dividida em realidades sempre mais pequenas, micro-gavetas da velha cómoda onde se guardam fibras microscópicas das peúgas, cuja utilidade temos esperança de vir a descobrir.

Este erro gigantesco e utilíssimo é o que vem a constituir o fundamento, a estrutura, não apenas da nossa cosmovisão – uma cómoda do tamanho do Universo -, mas de coisas bem mais terrenas, como a nossa organização social, as nossas teorias do conhecimento, a base doutrinal comum a todas as ciências, a todas as artes e até – daí a sua utilidade – do governo dos países e do mundo.

Este processo de especialização é o resultado de uma progressiva racionalização de todos os fenómenos, racionalização essa que conduziu, nos dias que correm, à sua intelectualização radical, para cujo sucesso, aliás, contribuiu decisivamente a cómoda de gavetas, cumprindo estas o papel de circunvoluções cerebrais depositárias, cada uma delas, das diferentes verdades definidoras dos diferentes fenómenos engavetados. Certamente que, sendo o cérebro, ou seja, a Cabeça (Capita), a expressão anatómico-fisiológica da intelectualização de todos os fenómenos da vida, ninguém estranhará que essa mesma vida – assim mesmo, com “a” minúsculo – seja dominada, até à sua mais ínfima expressão, por um tipo de sistema que toma o nome de Capitalismo. Na verdade, este Capitalismo, mais ainda na forma agressiva que toma nos dias de hoje, mais não é do que o exercício do poder absoluto pela Cabeça, o intelecto, cuja capacidade de compreensão dos fenómenos que compõem aquilo a que chamamos Realidade, está limitada pelo processo infinitesimal de segmentação e compartimentação desses mesmos fenómenos e consequente especialização da sua apreensão e manipulação.

Foi esta geometria ou, mais propriamente, esta matemática, dominada integralmente por processos intelectuais, assentes na ultra-racionalização do mundo, que nos conduziu, quer enquanto sociedade, quer mesmo enquanto espécie, à condição irreversível de escravos, submetidos, por ironia cósmica, à exactidão irredutível do produto do seu próprio intelecto. Como a exactidão é uma janela para o nada, ou seja, como define de modo intransponível a suprema verdade de todas as coisas, nenhuma alternativa sobrou senão investir na Máquina a dignidade do Ser e chamar-lhe Inteligência Artificial. Sem muito mais que se lhe possa acrescentar para a definir, esta Inteligência Artificial inaugura um novo tempo, glorioso, exacto e protocolado do infinito ao infinitesimal, mas onde a Humanidade já não acha serventia. Nem a cómoda.

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