Rosas do abismo

“Calmo na falsa morte”, Lima de Freitas, Acrílico sobre tela, 1985

Parece que a nova moda entre uma certa inteligência nacional é espalhar a ideia, não só de que Portugal é um país racista, mas também que toda a sua História é uma expressão antiga, intemporal, desse racismo.

Este ataque ao carácter da Nação e ao seu legado é uma forma de revisionismo, de falsificação histórica e ocultação, que pretende apagar da memória colectiva, principalmente da que servirá as novas gerações, o verdadeiro sentido do projecto Português no mundo e os pilares da sua identidade. Pretende, no fundo, armadilhar o futuro, esvaziando o céu de uma terra que há muito perdeu o chão.

Nenhuma das grandes nações da História está isenta de erro e a evolução da Humanidade sobre o planeta tem sido feita à custa de conquistas, de desastres, de luta pela sobrevivência ou pelo poder, de busca da paz ou da guerra. Mas o contributo dado por Portugal, ao longo de toda a sua História, para a aproximação dos povos, para o conhecimento do Homem pela descoberta do Outro, ficou bem expresso na saga dos Descobrimentos, quando o nosso país liderou um movimento civilizacional de amplitude global, que permitiu a expansão do mundo sobre si mesmo e a abertura de horizontes com os quais a humanidade não sonhava.

O Projecto Áureo português foi bem mais do que a construção de um simples império colonial. Ele representou a expressão plena de um universalismo afectivo e de uma Alma infinita que se contemplava a si própria em qualquer lugar da Terra, do Brasil à Índia, do Tibete a Timor. E ainda que a força do poder e o poder da força tenham muitas vezes sido usados nos diferentes alhures onde chegou a ânsia de conquista – que mais do que do outro, foi a ânsia de conquista de si próprio – o que nesses lugares deixámos de mais importante, porque mais vivo e vivificante, foi a marca indelével de uma comunidade de afectos reunida em torno de uma utopia espiritual. Por isso há hoje portugueses espalhados por todo o mundo. Portugueses de todas as cores, de todas as raças e línguas, de todos os credos e nações. Por isso hoje a Esfera Armilar permanece na bandeira que nos representa, como símbolo de uma vocação fraternal perene e tradução oculta de um lema que fez de Portugal e dos portugueses dignos capitães de uma saga maior, em busca da Verdade, da Justiça e da Paz (Aleph, Daleth, Shin).

“Os dois sois” (assim grafado na fonte), Lima de Freitas, Acrílico sobre tela, 1990

Por isso também resiste nos atlânticos Açores a Ave encimando a esfera do Mundo, sobre a Coroa do seu Imperador – a Criança ou o Pobre – trazidos como luz eterna à noite escura do século pela Rainha da Rosa e pelo Rei que nos lavrou na Alma um destino tanto mais belo quanto incompreensível e sofrido. Sabeis novas do meu amigo? Ai Deus e o é?

Vive em todos os povos, porque é constitutivo do humano, a chaga do preconceito, da ignorância e do temor ao outro. Mas poucos foram esses povos, ao longo de séculos e séculos de desventuras, que como os portugueses buscaram nesse outro a razão de si próprios, vendo neles, reflectida como num espelho, a inocência de um Império intraduzível, sem espaço nem tempo, cujo monarca único é o Amor.

Não. Portugal não foi, não é e não será, por muito que os seus detractores o tentem impor, um país racista. Dorme, é verdade, um sono de morte. Um sono fundo, comatoso, povoado de sonhos lúgubres e dantescos, onde ladrões e necromantes dançam e riem em torno dos círculos infernais. É verdade que Portugal é hoje um espectro, uma sombra, um esquecimento. Mas brilha teimosamente no peito desse espectro “uma pequenina luz bruxuleante”, um vestígio tenaz da sua Alma Eterna que será, se assim Deus o quiser, quem iluminará o caminho da noite e encherá de rosas o abismo.

 

Publicado originalmente aqui.

Comments

  1. Antonio Martinho MarquesAntónio Martinho Marques says:

    Este magnífico artigo, soberba afirmação daquilo que somos enquanto Povo que se auto-mutila envergonhado do muito que somos e da originalidade que continuamos a espalhar, deu-me um ânimo e uma esperança nova no Futuro Português.


  2. Não sei muito bem o que lhe diga, Bruno Santos, só que tem alma de poeta que crê nessa “utopia espiritual” idílica da marca portuguesa pelo mundo tipo 5º Império que contrasta vivamente com a Peregrinação de Fernão Mendes Pinto que nos traz outra “realidade” que a mim apraz muito mais ler e aceitar.
    Conserve no seu peito sim essa “pequenina luz bruxuleante ” bem protegida no seu interior e escreva coisas bonitas para a gente ler e se animar de tanta tristura e desilusão.

  3. Paulo Marques says:

    Portugal não é racista? Que parvoíce. Já foi muito pior, podia ser pior, daí a não ser racista ainda falta imenso. Ou estar toda a gente bem com chamar monhé ao primeiro-ministro, com o uso de preto de merda no futebol, tudo o que se diz da ciganada, etc. não é racista e ninguém me disse?
    Já para nem falar do Omo aos “descobrimentos”.

    • Fernando Antunes says:

      Tudo dito.

      Mas é, os egos patrioteiros cultivam esta versão benigna e inócua do racismo português, como se não tivéssemos sido dos maiores promotores das rotas de escravos, isto é, dos maiores mercadores de seres humanos no mundo. Ah claro, gostamos de nos comparar favoralmente com os outros impérios coloniais, tipo espanhóis, etc.que mataram mais gente.
      Não negamos sequer o nosso racismo, portanto; relativizamos. O que não deixa de ser ainda mais preocupante.

      Contrapomos a História com histórias de uniões consensuais tipo Chica da Silva, as quais contribuem para os nossos mitos de brandos costumes e brandos racismos.

      Faz tão bem ao ego limpar a verdade com Omo, como diz o Paulo Marques; como fazia bem ao ego nacional, no tempo da Outra Senhora, dizer-se que não éramos racistas porque o Eusébio era glorificado… Ainda hoje se usa a estátua do Eusébio como prova do nosso multiculturalismo, o que para mim prova que ainda somos o mesmo país… Os padrões continuam os mesmos.


      • Longe de estarmos isentos de “pecado”, é certo, mas, ainda assim, enquanto nas antigas colónias francesas de de outras potências europeias há “pretos” e há “brancos”, nas portuguesas (e espanholas, diga-se) não faltam mestiços.

        • Fernando Antunes says:

          Rui a confirmar o que eu disse: deu um exemplo que prova que o racismo longe de ser negado, é apenas relativizado, o que é uma forma perniciosa do mesmo.

          Obrigado pela ajuda.

          Já quanto à parte mais específica da mensagem, na verdade o racismo tem muitas formas. O modelo “apartheid”, se quiser chamá-lo assim, por uma questão de simplificação de termos, não é efectivamente o modelo típico Português; mas ninguém pode negar que a escravatura é a maior causa original de mestiçagem, portanto espero que não traga à colação nenhum mito utópico de igualdade de raça e de géneros na origem da referida e elogiada mestiçagem, quanto mais não seja até por uma questão de simples respeito pela racionalidade.

  4. Paulo Marques says:

    Portugal não é racista, porque é normal chamar monhé ao primeiro ministro, chamar preto de merda a um rival e dizer que a ciganada só quer é roubar. Tão normal como usar Omo nos “descobrimentos”.

    • Paulo Marques says:

      Peço desculpa pela repetição, a primeira não tinha aparecido e também não havia mensagem de erro.

  5. Bento Caeiro says:

    A questão amigo Bruno, não está somente na questão do racismo, da escravatura e de outros temas similares, está na atitude concertada e deliberada de um certo tipo de pensamento que pretende avaliar e repensar o passado à luz do presente.
    Por detrás de tudo isto está a Confraria do Politicamente Correcto que, a coberto de boas intenções – condenação disto e daquilo -, mais não pretende que trazer e carregar de culpa os presentes por feitos do passado, sempre desvalorizados – como lhes convém.
    Veja-se as atitudes tomadas sobre os feitos do passado das nações, querendo reduzi-las a meros actos de escravatura das populações negras, por partes das sociedades ocidentais. Esquecendo, obviamente e muito convenientemente, o papel preponderante dessas mesmas populações nos actos de escravatura.
    Procuram, ainda, que nos envergonhemos do nosso passado para, obviamente, obterem benefícios no presente e puderem também influenciar o desenvolvimento futuro das nossas sociedades. É, antes de tudo, uma atitude que visa a obtenção de poder – já nos foi dado observar como o processo funciona: exigência de desculpas aos presentes por actos e feitos passados; colocação de símbolos que permanentemente nos lembrem as nossas culpas – como o que se pretende com um tal monumento à escravatura. Eu até o faria, mas apresentando o como e por quem os negros eram capturados, e quem os levava e vendia aos mercadores nos portos.
    Aquela atitude também passa pela atribuição de todos os males presentes aos que mais intervenção tiveram no passado – e isto passa-se não só a nível dos Estados como no interior das próprias nações e sociedades.
    A nível dos Estados, muitos países, independentes há várias décadas, continuam a atribuir as culpas ao colonizador pelos males presentes, como se o que os seus governantes têm feito às suas populações não interessasse – caso de Angola.
    Mas o caso não se fica por aqui, porque a Confraria, a nível das nações e das suas sociedades, também acha que tem uma palavra a dizer.
    Mas isso é outra conversa e fica para nova oportunidade.

    • Fernando Antunes says:

      É bom lembrar que Portugal (metrópole) na altura dos Descobrimentos tinha apenas algumas centenas de milhares de habitantes. Não tinha hipótese de povoar e extrair as riquezas de um país gigante como o Brasil sem os escravos — muuuitos escravos! E o que tivemos nas colónias, foi consequentemente uma sociedade rigidamente estratificada. Portanto, chamar-lhe-ia racismo de Estado.

      Descontextualizar o racismo para uma vertente da “moral individual”, é não entender a natureza política, a natureza de regime, dessa separação de etnias.

      Aos senhores, cabia a casa grande; aos escravos, a senzala. A harmonia residia, justamente, nesta
      dicotomia. A narrativa da “brandura portuguesa” tem por finalidade suavizar a violência desta relação. E é neste contexto que os primeiros mulatos, de que culturalmente nos orgulhamos pelos vistos, aparecem (para que fique claro, e parece que tenho que fazer o papel de Captain Obvious aqui — não, não foram fruto de escolhas sexuais livres: os homens trabalhavam ao ritmo do chicote e as mulheres eram estupradas — o mesmo sistema de exploração).

  6. Regina Afonso says:

    Caro Bento Caeiro,
    A muito bem baptizada por si da Confraria do Politicamente Correcto alimenta-se de fomentar a dircordia entre a Sociedade, baseado na premissa de quanto pior melhor. Relembra se bem que ao de leve que a escravatura já existia . Falta só dizer que a escravatura quando foi inventada , foi uma grande evolução, pois a escravatura surge no contexto de guerra . E antes da escravatura , o inimigo vencido era pura e simplesmente morto.
    A ideia da escravatura foi uma evolução na medida em que o vencedor passou a poupar a vida dos vencidos trocando esse destino pela escravatura. Infelizmente essa “solução” do fim da guerra tornou-se um motivo da própria guerra!.
    Falta também dizer que o “branco” foi a primeira vítima da escravatura por parte dos “negros” e “islâmicos” com uma duração e dureza muito maiores. Ficou também por dizer que o “branco” que praticou a escravatura durante muito menos tempo que o “negro” e “islâmicos”(eu sei que aqui o uso desta palavra vai originar o vómito dos do costume) e com menos dureza, teve a elevação de acabar com ela…

    Para quem discorda ( Marxistas encartados ) recomendo:

    “Quand les Noirs avaient des esclaves blancs”, Serge Bilé

    “White Slaves, African Masters: An Anthology of American Barbary Captivity Narratives”, Paul Baepler
    há mais se quiserem…

    Regina Afonso

    • Paulo Marques says:

      “Falta também dizer que o “branco” foi a primeira vítima da escravatura por parte dos “negros” e “islâmicos” com uma duração e dureza muito maiores. ”

      Comparar a escravatura negra dos descobrimentos para a frente com qualquer outra não tem cabimento.
      Dito isto, foi o que foi quando foi, o importante não é penar pelo que aconteceu quando nenhum de nós era vivo, é reconhecer como isso informa o que somos hoje e como normalizamos a descriminação.

  7. Olga Santos says:

    Interessante, poético, até!
    Todavia, e porque redigido por um intelectual que acredita na sua crença, passo a tautologia, não deixa de ser uma visão algo «lírica» e até ingénua da «coisa». Helàs!
    Claro que Portugal é um país racista!
    Claro que que fomos numa «missão proselitista e evangelizadora» – « [D]aqueles reis que foram dilatando/ A Fé, o Império, e as terras viciosas/ De África e de Ásia andaram devastando» ( CAMÕES, «Os Lusíadas») -, mas, também «fomos ao rio de Meca, pelejámos e roubámos» (GIL VICENTE, «Auto da Índia») e toda a «Peregrinação de Fernão Mendes Pinto», pois claro! Está lá tudo!

    O autor partilha do «sonho» de Vieira e de Pessoa, entre outros. É legítimo. Não pode ser legitimado.
    Pois, um sonho…

    Somos um país racista e exemplos há-os avonde. Basta ler alguns comentários acima, com os quais concordo.

    Não se trata de negar o passado, de revisionismo, branqueamento da História, ou o que se queira chamar. É uma realidade. Não vale a pena refugiarmo-nos no argumento de que outros, antes de nós e depois de nós também o foram / são. Não é disso que se trata.
    Talvez o mais correto seja afirmar que continuamos a ser (infeliz e desgraçadamente!) um país de racistas.

  8. Regina Afonso says:

    Cara amiga Olga Santos,

    “Nice tray” como diria o outro mas não está pegando, apesar do seu proselitismo.
    Sabe que Portugal não é nem pode ser racista porquanto é um pais, e os países não são racistas como não sentem frio nem calor etc.
    O que eu concordo é que em Portugal há racistas e deixe-me que lhe diga há racismo branco para negro , negro para branco e outros racismos, mas isso não faz dos outros portugueses racistas( como também não aqui no Brasil). O que eu vejo é a tentativa de se passar a mensagem por parte de brancos normalmente o chamado “Intelectual de Esquerda”, que o racismo é um fenómeno de branco para negro o que é obviamente falso. Dando a ideia que o homem branco ocidental é o racista quando foi exactamente o homem branco ocidental que teve a elevação de acabar com essa chaga humana.
    A minha recomendação é que não tenham vergonha de ser brancos, de pertencerem à velha civilização Ocidental que com os seus valores desenvolveu um mundo de bem estar nunca antes alcançado.
    Já agora gostava que dessem uma olhada nesse vídeo bastante elucidativo da doutrinação que se tenta fazer sobre a “sociedade racista” mas neste caso na América.

    Regina Afonso

    • Paulo Marques says:

      “que o racismo é um fenómeno de branco para negro o que é obviamente falso”

      Se a descriminação é uma condição fundamentalmente humana, não deixamos de ser nós quem toma partido disso – ou a culpa é da melanina que os impede de chegar a posições altas nas empresas e nos governos, ou que os faz mais propensos a bastonadas/tiros da polícia, ou, ou, ou…

  9. Bento Caeiro says:

    Como muito bem lembrou a Regina Afonso, a escravatura começou por ser uma alternativa à morte do inimigo. Mas tal não significa, como é óbvio, que se defenda o fenómeno esclavagista, enquanto tal, característico dos grandes impérios: persa, romano. E existente em todo o mundo antigo. O que se contesta é avaliação desse mundo com os valores actuais e a procura de atribuir as culpas do passado ao presente – tal como pretende fazer o Bando da Confraria do Politicamente Correcto, que contudo o faz com intenção: essa de tentar colocar como reféns as pessoas, ao considerar racista toda uma sociedade pela atitude de alguns.
    No entanto, lembro, aos puristas, que não existe nação, por mais culta que seja, que em certas circunstâncias, não assuma atitudes exclusivista, face aos que não considera como da sua nação. Veja-se o caso do povo alemão, na Alemanha nazi em relação aos povos não germânicos – com especial relevo para os eslavos, judeus, ciganos; seguidos, agora, dos judeus face aos palestinianos.
    Note-se também o que se passa neste momento na Itália, na Grécia, na Alemanha, motivado pela crescente leva de refugiados.
    O meu avô – homem generoso – em dada altura, tendo sido obrigado a expulsar um grupo de ciganos dos seus terrenos, respondeu-me, quando lhe perguntei a razão: “a bondade e a paciência, Bentinho, também têm limites”. (apesar do que o meu avô lhes dava – sou testemunha disso – haviam roubado mais do que normalmente faziam e ainda tinham partido várias oliveiras).
    Tal como ele, as nações – porque de pessoas – também têm os seus limites – e, se forçados, acontece o que se sabe.

    Muitos, mais radicais – contrariando essa treta da globalização – defendem: “Cada macaco no seu galho”. Será que têm razão?

  10. Bruno Santos says:

    Agradeço todos os comentários.

  11. Luís Lavoura says:

    As ideias do Bruno Santos são anacrónicas e algo repulsivas.
    Estas ideias de Nação, de Raça, de missão civilizacional, etc são bastante mais apropriadas para o tempo salazarista. Ou para o do Fernando Pessoa.
    Este post parece-me bastante inaceitável, nos tempos que correm.

    • Bento Caeiro says:

      Faça-se o registo: o Luís lavra na Confraria do Politicamente Correcto, mas não está só. Aliás o Bando, tal como os pardais, levantará voo, mas em grande agonia quando os apanharem onde dormem descansados nos seus canaviais; até porque Já há muito deixaram de estar preparados para se defenderem.

    • Bruno Santos says:

      Senhor Lavoura, se ler o texto, irá verificar que não uso o termo “Raça” que, à falta de talento para elaborar uma crítica consistente, o senhor Lavoura decidiu inventar para procurar contaminar o artigo com um preconceito que ele próprio nega.
      Quanto a termos como “ideias anacrónicas e repulsivas”, ou “post inaceitável”, saberá certamente que não eram incomuns nos tempos e nos lugares onde era costume silenciar aqueles de quem se discordava. O seu comentário, em síntese, revela não apenas uma intolerância muito característica da ignorância, mas, pior, da ignorância que conduz ao fanatismo e à tirania. As boas notícias para si, senhor Lavoura, é que vive no tempo certo. Esta é a sua Hora.

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