Subsídio para uma lógica social da Eutanásia

“Os avanços do conhecimento nas ciências naturais, sociais e humanas, não se limitou a dar-nos mais anos de vida. Deu-nos também a capacidade de os usufruir física, emocional e racionalmente. Mas, infelizmente, nem sempre estes anos adicionais de vida são acompanhados da qualidade desejada.
O que acontece quando alguém tem a consciência clara de que a perda de auto-estima, de dignidade e de independência, para além do sofrimento físico e psicológico que o esperam, se irão acentuar nas semanas ou meses de vida de que possa ainda vir a usufruir? Se, para uns, a resposta óbvia são os cuidados paliativos, para outros, o desejo e a possibilidade de pôr fim rapidamente a essa situação, é também muito clara. A Democracia permite formas diferentes de olhar e valorizar a vida.”

29-05-2018 – Debate Parlamentar | Morte medicamente assistida
Alexandre Quintanilha, deputado, Físico e antigo Professor do ICBAS.

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Senhor Professor Alexandre Quintanilha, vou contar-lhe uma história que acabei de inventar.

O Antunes é empregado de mesa num das centenas de restaurantes que abriram recentemente no Porto, financiados com a mão limpa (de luva branca) de fundos de investimento que ninguém conhece, e onde gente fina vai provar iguarias gourmet descongeladas em micro-ondas. Por 50 ou 60 euros saem de lá a arrotar a crisântemos.
Esse Antunes – não o outro – tem um contrato de trabalho com uma empresa de negreiros e ganha 650 euros por mês. Mais gorjeta. Tem 3 filhos, todos em idade escolar. A senhora sua esposa está pelo fundo de desemprego e bebe vinho tinto de pacote.
Certo dia, chegado a casa pelas três da manhã, exausto das doze horas [o patrão só lhe paga oito] que passou a servir alemães, franceses e italianos, o Antunes deu por si deitado na cama, de barriga para o ar, observando cuidadosamente uma grande teia de aranha na parede do quarto, junto ao tecto. Começou, veja lá, a pensar no futuro dos filhos.

Pensou assim:

“Os avanços do conhecimento nas ciências naturais, sociais e humanas, não se limitou a dar-nos mais anos de vida. Deu-nos também a capacidade de os usufruir física, emocional e racionalmente. Mas, infelizmente, nem sempre estes anos adicionais de vida são acompanhados da qualidade desejada. E isto aplica-se, não apenas aos anos adicionais, mas aos outros, aos normais, aos que fazem parte da remuneração base paga em Tempo pelo grande arquitecto disto tudo. Tenho 35 anos, uma licenciatura, e sirvo à mesa. Não sou deputado nem professor universitário. Que qualidade de vida, que futuro, posso oferecer aos meus filhos? Ser criado de turistas estrangeiros? Trabalhar num call center ou numa caixa de supermercado do senhor Azevedo? Fazer inquéritos pelas portas? O que acontece quando alguém tem a consciência clara de que a perda de auto-estima, de dignidade e de independência, para além do sofrimento físico e psicológico que o esperam, se irão acentuar nas semanas, nos meses, ou nos anos de vida de que possa ainda vir a usufruir?”

Em vez de se levantar da cama e produzir uma tragédia, colocando um fim ilusoriamente definitivo à miséria e ao sofrimento que o esperam e que há várias gerações o perseguem – o seu pai foi coveiro e o seu avô paralítico desde os 15 anos, depois de um mergulho mal calculado no rio – o Antunes adormeceu.

Amanhã era outro dia.

Barrosão

As pernas da senhora Merkel até tremem

Mas está tudo bem.

Imagem: JN