1_5373 mundos

CAPÍTULO II
O Jardim

Sobre as origens de Josef Knecht não se sabe nada.
Herman Hesse, O Jogo das Contas de Vidro

 

DEUS, clemente e misericordioso, cujo Nome é Santo, não me deixa mentir. No dia vinte e dois de Setembro de mil seiscentos e dezasseis, à mesma hora em que na cidade de Estrasburgo se conhecia a primeira edição das Bodas Alquímicas de Christian Rosenkreutz, uma brisa morna e um canto de Poupa abriram o céu do Jichang Yuan, o belo jardim de Wuxi, onde há mais de quatro mil e quinhentos anos o Imperador Amarelo plantou uma árvore infinita.

Dizia-se que quem comesse o seu fruto não conheceria a morte.

Mocenigo Alba vagueou durante alguns minutos entre os lagos de nenúfares, enquanto esperava por um homem que desconhecia e com o qual marcara este encontro havia mais de cento e oitenta anos.

Comments

  1. Bento Caeiro says:

    O PODER DA IMAGINAÇÃO

    “Dizia-se que quem comesse o seu fruto não conheceria a morte.”

    Contrariamente ao que os Divino EL e ELAT queriam: que as Árvores do Conhecimento e da Vida fossem para benefício do homem, um tal deus – que na sua imensa presunção, se afirmava como “eu sou aquele que é” e como tal “eu sou o único” – não queria que assim fosse. Justificava esta sua atitude com a afirmação: depois de saberem, tendo comido dos frutos da Árvore do Conhecimento, quererão, comendo dos frutos da Árvore da Vida, viver eternamente e ser como nós, os deuses.
    Contudo, foi de imediato denunciado, sobre as suas verdadeiras intenções por Enki e Maat que logo informaram EL, que o tal Deus apenas pretendia manter para todo o sempre o homem sob a sua alçada e escravizado.
    Já sabemos o que aqueles fez nos seus domínios: deu-lhes ordem de despejo e pôs-los a milhas, mas ainda assim ficaram por ali, mas a trabalhar e a penar; e, ao que fizeram – comer frutos da Árvore do Conhecimento – chamou-lhes pecado e do qual seriam para o sempre culpados e carregados de culpa.
    Contudo, outros domínios existiam – como este de que agora vou falar, que ficava a Leste dos domínios do Deus “eu sou aquele que é” – sob a alçada de outros deuses, entre os quais os domínios de Enki, que, como amigo do homem, afirmava para quem o quisesse ouvir – comentando a atitude do Iavé, o tal do “eu sou aquele que é” – “e todavia o homem não é culpado” e assim, tendo também nos seus domínios as mesmas árvores, incentivou-os a comer dos seus frutos.
    Ali, na tribo dos filhos do homem se iniciou o conhecimento e a eternidade dada pela imaginação. De onde, muito mais tarde, pelo desenvolvimento e pela dispersão saiu o conhecimento e a ciência, pela curiosidade e pela investigação.
    De igual modo, também, estas árvores foram daqui cedidas por Enki a quem lhas pedisse e assim foram espalhadas por esse mundo fora. Contudo, como sempre acontece, atingindo mais uns que outros. Foi assim que Hermann Hesse, como não poderia deixar de ser, usando aquilo que há muito fora dado ao homem, a imaginação, se tornou naquilo que se tornou e soube, por esse facto, da existência dessa Árvore e de um filho do homem, Josef Knecht, que teria comido dos seus frutos e dele falou, mesmo pessoalmente não conhecendo.
    De quem, agora, o Bruno, quiçá àqueles pertencendo, agora se lembrou e em boa altura falou.

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