2_5373 mundos

 

CAPÍTULO IV
Chove

Um dia, o xeque Khircani, que descansava sobre o próprio trono de Deus, sentiu uma grande vontade de comer uma beringela.
Farid Ud-Din Attar, A Conferência dos Pássaros

 

Do lado esquerdo do quarto, por baixo de uma grande janela, estava o leito da morte de Basilides Villanova, um homem cujas rugas do rosto, se pudessem unir-se numa só linha, chegariam para dar uma volta inteira ao mundo e traçar três vezes o labirinto de Chartres. Basilides era um velho tranquilo mas marcado por uma vida muito longa que o deixara exausto.

– Chumbei, Krebs – dizia, sorrindo ao seu filho, estendido no leito da morte. – A possibilidade de conhecer com a razão termina quando chegamos a vislumbrar o que somos. E como somos apenas espelhos do mundo, resta-nos a consolação da viagem pela espiral divina, o velho caduceu de Hermes, por esse jardim que se estende pelos céus em círculos de raio crescente e que nunca terminam. Se não ganhamos altura e amplitude, se não mudamos em nós a escala da Visão, chumbamos, Krebs. Mergulhamos na noite do Deus sob o peso do chumbo, que é o peso do mundo de Sísifo, da repetição circular e do tédio. Do labirinto. No fundo, é como se nos matássemos, meu filho. Somos condenados pelo Eterno e pelos fantasmas de Blake a viver como árvores pela infinitude dos tempos.

Krebs tremeu por dentro ao ouvir as palavras do pai. Achava-as injustas, até cruéis, ditas de si mesmo por um homem que toda a vida lutara pela justiça e pela harmonia do mundo. Mas naquele momento não tinha força nem ciência para ripostar. Não tinha sequer os setenta e dois anos que permitam ao seu pai uma tal soberania e tanta impiedade sobre o seu próprio mistério.

– Mas nem tudo está perdido, meu filho – prosseguiu o velho Basilides, acendendo um cigarro. – O Alquimista sabe que não se chega ao Ouro sem conhecer o chumbo e que a vida é o laboratório secreto onde a grande transmutação lentamente se opera. Lentamente. Muito lentamente. Mas deixemos agora isso. Que farás quanto à proposta que te fiz, meu filho?

Krebs apertou involuntariamente a frágil mão de Mocenigo, que se mantinha aparentemente distraído e silencioso, e disse a primeira coisa que lhe veio à cabeça:

– Chover, meu pai! Eu quero chover!

Comments

  1. Bento Caeiro says:

    Para que o homem seja como um deus entre os deuses, precisa de libertar-se da sua carga: chovendo. O Nazareno teve a coragem de o fazer, será que mais algum o voltará a fazer? Duvido!

    As potências espirituais e causais, que em cada um existem ou podem vir a manifestarem-se, revelam que o Verdadeiro Deus é Um Deus Desconhecido, também que, como tal, jamais será apreendido – assim negando, pela impossibilidade, qualquer tipo de representatividade ou clero;
    Revelam, também, que todas as manifestações tidas como se de deuses se tratassem são apenas partes distintas daquele. Às quais o homem, cada homem – mau grado alguns dos deuses, já manifestados – também poderá aceder e ser, de igual modo, um deus entre os deuses.
    Se imbuído de potência espiritual, de poder ser; e causal, de poder fazer, por vezes, para que a primeira se eleve e o faça subir às estrelas – aí, dando livre curso ao seu estado de alma – terá de libertar-se da causa que, como carga, o sobrecarrega: e, como se fora uma nuvem, fá-lo, chovendo.

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  1. […] Publicação original: https://aventar.eu/2018/06/21/2_5373-mundos/ […]

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