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No longínquo século XV, uma armada de eunucos liderada por Zhen He abriu caminho pelos vastos oceanos ao que pouco tempo depois viria a ser conhecido como Epopeia dos Descobrimentos. A razão por que era de eunucos essa armada*, sendo o próprio Zhen He um eminente castrati, prende-se com estranhas interpretações que os chineses desse tempo faziam sobre a influência hormonal na submissão das pessoas ao poder hierárquico. Presume-se que ao oferecerem a um homem a rara possibilidade de contemplar os seus próprios testículos numa pequena caixa de jade, os chineses se convenceram que o tornariam não apenas mais dócil, como mais inteligente e disciplinado.

Reza a lenda que a tradição é muito antiga. Tão antiga que já no século XXI a.C., se usava esse procedimento mítico-animalesco-extractivo na cidade suméria de Lagash. Todavia, não será necessário viajar tanto no tempo e no espaço para encontrar exemplos desse ritual subtractivo da masculinidade. Aqui bem perto, na muito germana terra de Freamunde, em pleno Vale do Sousa, estão em verdadeira carne viva hábitos que a romanização legou por via dos males de sono do delegado de Roma. Diz essa lenda que a parda eminência não dormia de noite e que, não havendo ainda a indústria farmacêutica provido a magia soporífera com que nos adormeceu a todos, decidiu proibir os galos de cantar, missão que cumpriu mandando cortar-lhes os testículos. Criava-se desse modo o mundialmente famoso Capão de Freamunde, um galo mudo, comido e cantado ao longo dos séculos por nobres e insuspeitas goelas, de Gil Vicente a Camilo Castelo Branco.

Não tendo por que entediar o leitor com a famigerada receita tradicional do Capão à Freamunde, até porque a hora é mais de repouso que de repasto, não deixará de ser elucidativa a exposição frugal e sucinta da ancestral técnica da capadura.

Comecemos por compreender que se trata de uma verdadeira especialidade cirúrgica dominada por uma mão cheia de iluminados e cuja execução exige o mais elevado rigor, sob pena de nos aparecer no prato uma neurose galinácea, o Rinchão, em vez do delicioso Capão com que tantos fantasiam. Nem vão os incautos leitores a Freamunde comprar gato por lebre, Rinchão por Capão, e regressar de tão jesuítica terra com mais um mito desfeito no estômago.

Pois deve então o pito mártir jejuar por dia e meio, de forma a produzir o estado endócrino ideal ao seu destino. Ao fim desse período, deve o cirurgião extractor segurar-lhe as asas, deitá-lo de costas e estender-lhe a coxa direita ao longo do corpo. Depois de consolidada a posição, puxa-lhe a coxa esquerda para trás de forma a expor o lado esquerdo do animal. Seguidamente depena 7cm2, junto à última costela, para de imediato lavar a zona com álcool e molhar a penugem circundante para que não se erga e atrapalhe o procedimento. Faz então, a meio do flanco exposto, um golpe de 4cm, usando para tal, à falta de bisturi sueco esterilizado, uma boa faca de cozinha, bem afiada. Por essa abertura introduz o dedo médio untado com azeite, dedo esse com que procura, de ambos os lados da coluna vertebral e na direcção da última costela, os tão desejados testículos. Deve então o cirurgião destacar com o máximo cuidado um testículo de cada vez, pressionando lentamente com a unha, de forma a evitar desnecessárias e sempre perigosas hemorragias. Para extirpar suavemente os greiros, fá-los escorregar com a cabeça ou a polpa do dedo encostados à parede abdominal. Quando estiverem finalmente cá fora, respirando autonomamente o ar frio do Inverno (esta operação realiza-se apenas na estação do frio), pode então o capador coser a fístula com uma vulgar linha preta e lavá-la com desinfectante. O mártir galináceo, agora iniciado Capão, poderá então gozar de plena liberdade, sendo-lhe mesmo atribuído o privilégio, quinze horas depois, de uma lauta refeição de leite ou papa ralada, na condição, porém, de se não empoleirar nos 4 dias seguintes.

Depois mata-se, cozinha-se e come-se. 

 

*Adenda a 28/06/2018 – A Armada de Zhen He não era composta apenas por eunucos, embora estes marcassem nela uma presença proeminente.

Comments


  1. deve ser prática comum em Portugal tomando em conta a disciplina como o Português aceita a austeridade, pagar os erros dos banqueiros e ser gozado pelos políticos e boyzada

  2. Miguel Bessa says:

    Os chineses têm uma “epopeia dos descobrimentos”.
    Em Portugal não podem existir descobrimentos porque os descobertos já lá estavam. É isto? Ai ai marxismo cultural!

  3. Bento Caeiro says:

    Anda para aí uma Confraria do Politicamente Correcto que, organizada em Bando distintos – conforme a finalidade – gostaria de transformar todo o cidadão em Capão, moldando-o, segundo as suas idéias e preconceitos, aos seus interesses e forma de estar.
    Temos o Bando do Revisionismo Histórico – o tal, do que nada é descoberto porque já lá estava, como por exemplo a cura do cancro: já lá está, só que está a jogar ás escondidas com os cientistas;
    Temos também o Bando Feminista – o tal do, se não vai pela esforço e pela competência, vai às costas da maioria das mulheres e por quotas;
    Temos, ainda, o mais perigoso: O Bando da Porta Aberta (Idiotas Úteis) – o tal, de que, os países e as nações são de todos e, como tal, cada qual vai para onde quiser e fará o que bem entender, até maltratar as populações e estes apenas terão de os acolher bem e dar-lhes as condições, que eles muitas vezes não têm.

    Transformar-se-ia assim, o País, e mesmo a Europa, numa imensa Capatónia onde mandariam os de fora, porque mais agressivos – Capão é manso – com os seus usos e costumes.

    • Paulo Marques says:

      Tanto reaccionarismo faz mal à saúde, homem. A sua hora há-de chegar e poderá culpar a implosão da eurolândia na Catarina.

  4. César Sousa says:

    ……. “Depois mata-se,cozinha-se e come-se”.
    Foi a única parte que a Dona Alice percebeu ,de um texto tão interessante.

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