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Rollerball pen e Tinta da China | Desenho do autor

 

CAPÍTULO 8
A Loja Malkuth

Diz-se também que estes dois planetas [Saturno e Júpiter] são os mais importantes para o destino do mundo, e em particular para o destino dos judeus.
Carl Gustav Jung, AION

 

Simon de Monfort era o nome simbólico de Simões Aboab, um judeu sefardita cuja família se radicara na cidade do Porto no início do século XV. Aboab era respeitado e temido na sua comunidade, não só devido à pistola que trazia sempre no tornozelo, mas principalmente porque se sabia que era membro destacado de uma das mais poderosas e antigas sociedades secretas portuguesas, a Loja Malkuth, pertencente a uma Obediência selvagem formada por agentes duplos dos dois principais movimentos maçónicos existentes em Portugal.


A reunião da Loja Malkuth da noite de treze de Outubro de dois mil e dez viria a marcar para sempre não só a Maçonaria portuguesa, mas o destino de uma boa parte da Europa. Nessa noite a Loja reuniria na Tumba do Meio, o nome dado às reuniões a que só os membros com o grau de Mestre podiam assistir, num templo secreto situado numa zona antiga da cidade do Porto, dominada presentemente por tríades chinesas, prostitutas e ashrams indianos. Nessa reunião participariam alguns dos mais influentes políticos e empresários do país, alguns deles oriundos da conhecida Seita dos 50, bem como importantes convidados franceses e alemães, em representação das duas lojas mais influentes da Europa continental: a Grande Loja de Estrasburgo, sob domínio francês, e a poderosa Bauhütte, alemã, a mais antiga e mais poderosa de todas as lojas da Europa, herdeira directa do Sacro Império Romano-Germânico.

– Meus Irmãos, de pé! Em nome do Tempo Profano e do Tempo Eterno que nos une, Irmãos Primeiro e Segundo Grandes Chanceleres, anunciai nos vossos Vales como eu faço na Montanha de Kaf, que estão abertos os trabalhos da Sublime Loja Malkuth, a Oriente do Porto, no Grau de Mestre do Rito Lusitano Antigo!

A voz de Simon de Monfort fez estremecer como um trovão as galerias escuras da antiga sinagoga que agora servia de templo à Loja Malkuth. Todos os obreiros se colocaram de pé e à ordem, uma expressão usada em Maçonaria para designar o que os militares chamam de continência. O Irmão Inspector de Cerimónias levantou-se solenemente do seu lugar, muito esticado, como se tivesse engolido uma tábua de engomar, e caminhou pelo pavimento de xadrez segurando um enorme bastão encimado por uma pomba de prata com um morcão de ir às trutas preso no bico, dirigindo-se sempre no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio e fazendo rigorosos ângulos rectos quando mudava de direcção. Chegado à Menorá, colocada sobre o altar junto ao rolo da Tora e a um manuscrito antigo do Sepher Yetzirah, acendeu com um fósforo as sete velas do candelabro e exclamou:

– Fiat Lux!

Simon de Monfort ergueu-se do seu lugar segurando na mão direita uma espada de três lâminas e na mão esquerda o malhete de Venerável:

– Ordo ab Chao! À Glória do Grande Arquitecto do Cosmos!

Depois de repetirem em coro as palavras do Venerável, todos os obreiros ocuparam os seus lugares em silêncio, sentados em posição egípcia, à ordem subliminar do Venerável:

– Sentem-se, meus Irmãos? Vai usar da palavra o Mestre Orador, o Mui Poderoso Irmão Ezequiel.

Ezequiel era o nome simbólico usado por Nicolau Krebs que, ao contrário do que seria de esperar, permaneceu num silêncio imperturbável. Estava sentado à direita do Venerável MestreSimon de Monfort, no lugar reservado ao Orador segundo o ritual, sob um dossel escarlate do qual pendiam 9 cordas de ouro entrançado, encimadas por uma estrela de seis pontas no centro da qual estava inscrita a esfera armilar manuelina e três letras do alfabeto hebraico: Alef, Daleth e Shin.

O olhar de Ezequiel perdia-se no infinito e a sua respiração era muito profunda e muito lenta, destacando-se apenas do seu rosto pétreo o compassado inflar das narinas. Depois da ordem para que usasse da palavra, Krebs, ou melhor, Ezequiel, permaneceu imperturbável, não mostrando qualquer intenção de romper o silêncio em que mergulhara, nem de proferir qualquer discurso, como era suposto que fizesse. A assembleia começou a estranhar a sua atitude ao fim de quase um minuto de expectativa. Instalou-se alguma perturbação na sala, muitos dos Irmãos teciam comentários críticos em surdina, espantados com a atitude inesperada do seu irmão Orador, até que Simon de Monfort retomou a palavra com severidade, batendo três vezes com o malhete na mesa do altar:

– Irmão Ezequiel, tens a palavra como Mestre Orador da Sublime Loja Malkuth. Nessa qualidade, peço-te que, de acordo com o que estabelece o ritual, faças uso dela assim que desejares!

Krebs, ou melhor, Ezequiel, fixou um olhar fulminante em Josse Dotzinger, nome simbólico do Irmão Primeiro Grande Inspector da Sublime Loja de Estrasburgo, Cavaleiro Kadosh, o trigésimo grau do Rito Escocês Antigo e Aceite, convidado de honra dessa sessão. Ezequiel levantou-se lentamente da cadeira, sem desviar os olhos de Dotzinger e, para espanto geral, começou a erguer os braços num movimento lateral e circular, ao mesmo tempo que inspirava profundamente pelas narinas, enchendo por completo todo o seu tronco, desde a zona clavicular até ao baixo ventre, e fazendo com que as costas das mãos se tocassem por cima da cabeça. Instalou-se definitivamente o espanto na assembleia e alguma desordem começou a reinar, com vários dos convidados manifestando ruidosamente profundo desagrado pela atitude inexplicável e completamente irregular do Mestre Orador, Nicolau Krebs, ou melhor, Ezequiel.

Após uma breve pausa em que susteve a respiração, com todo o seu tronco pando e repleto de Ar, Ezequiel começou então a baixar lentamente os braços, no mesmo movimento com que os erguera, mas agora expirando pela boca o ar que acumulara no tronco. À medida que baixava os braços entoava um som incrivelmente poderoso, uma vibração funda, dilacerante e tenebrosa, vinda das suas próprias entranhas, que rapidamente e com grande violência tomou conta de todo o Templo e foi fazendo tombar inanimados, um a um, todos os que ali se encontravam.

Todos, menos dois. Simon de Monfort e Comenius, o Grande Guarda Interno, estavam deliciados com a proeza do seu Irmão, enquanto acendiam um cigarro e retiravam dos ouvidos os tampões de silicone.

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