As cortinas de fumo e os spin doctors de serviço

A agressão de que terá sido vítima uma cidadã portuguesa na cidade do Porto, agressão essa cujo autor foi, alegadamente, um elemento do corpo para-militar privado contratado pelos STCP para efectuar serviço de segurança, suscitou, como não podia deixar de ser, uma reacção imediata dos spin doctors do costume. A função desses spin doctors foi a de reduzir instantaneamente o acontecimento a um fenómeno racista, ocultando, distorcendo e falseando factos essenciais, sendo que o primeiro desses factos é que a responsabilidade pelos acontecimentos cabe, em primeira instância, ao Conselho de Administração dos STCP, que já deveria ter sido exonerado e accionado criminalmente pelo sucedido, procedimento após o qual caberia analisar a responsabilidade solidária da tutela, designadamente dos seis municípios da Área Metropolitana do Porto responsáveis pela gestão da empresa.

Não podendo negar-se, à partida, a possibilidade de estarmos, na verdade, perante um crime com motivações racistas, hipótese que deve ser plenamente investigada, essa seria sempre uma qualidade acessória de um acto muito mais grave do ponto de vista penal, o de ofensa à integridade física qualificada, com a agravante de ter sido perpetrado por um agente ao serviço de uma empresa pública, crime cuja sanção pode chegar aos 12 anos de prisão.

Querer transformar este episódio, de gratuita e bárbara violência, em mais um argumento em favor daqueles que lutam diariamente pela destruição da memória e do legado universalista português e o significado profundo da sua História, comparando-a à de qualquer Reich sanguinário e racista, é uma ignóbil traição, essa, sim, com laivos discriminatórios e até racistas, aos nossos valores civilizacionais autênticos e uma inaceitável falta de respeito pela dignidade histórica dos portugueses e de todos os povos em comunhão com os quais esses mesmos portugueses evoluíram no mundo.

 

Decidam-se:

A pessoa no chão é Nicol Quinayas, 21 anos, nascida na Colômbia, desde os cinco anos em Portugal.
Diário de Notícias, 27 de Junho de 2018

Nicol Quinayas, de 21 anos, nascida em Portugal, mas de ascendência colombiana
Diário de Notícias, 29 de Junho de 2018

Comments

  1. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    A política de Trump e da Europa fascista (Polónia, Hungria, Itália, …) deixa rasto … Não será difícil ligar a causa ao efeito.

  2. Bruno Santos says:

    Não devemos esquecer que todos esses “fascismos” eclodiram após a época dourada da TINA.

    • Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

      Caro Bruno Santos.
      Pensei se deveria ou não escrever sobre isto, mas dado que refere os “spins doctors do costume”, gostaria de lhe deixar umas palavrinhas, pois não concordo, de todo, com uma parte da sua análise, nomeadamente na responsabilidade directa que atribui ao Conselho de Administração do STCP.
      Refiro que não tenho qualquer avença na defesa de tal conselho, mas penso de outra forma que passa pela análise das causas de raiz destes problemas, em vez de mandar a primeira pedra ao ente mais próximo na escala do acontecimento.

      Gostaria de lhe lembrar três coisas:
      1 – A utilização de segurança dita privada não é nenhum crime.
      2 – Não está provado que o Conselho de Administração dos STCP procedesse dolosamente no que toca à contratação de terroristas. Logo seria conveniente fazer a distinção entre o acto legal e o acto próprio da barbárie e, neste caso, ir até ao fim para perceber porque é que a segurança privada tem bárbaros ao seu serviço.
      3 – Em Portugal, como deve saber, ainda não há legislação sobre as companhias privadas ditas de segurança. Aliás lemos sistematicamente nas parangonas dos pasquins nacionais que tal legislação se prepara… Pois, esperemos … sentados.

      E lembro ainda outra coisa:
      O nosso primeiro ministro, vindo de uma reunião europeia sobre a imigração, não deixou de dizer que a reunião, a que assistira, havia sido horrível, o que contrasta com a posição das galinhas chocas da Europa que a consideraram produtiva.

      Portanto, estamos claramente naquela fronteira que, por mal definida, faz com que certas entidades (normalmente são privadas, o que também não custa muito a perceber porquê) se dão ao luxo de traçar a sua própria lei como, por exemplo, contratar bandidos que se treinam e se inspiram naquelas avantesmas dos filmes americanos que nos inundam diariamente, mas que os desmiolados seguem qual religião.

      Está, assim, traçado o entorno do problema, faltando ir às causas de raiz que ao fazê-lo, temo que me introduza na confraria dos “spins doctors do costume” embora, desde já lhe diga que nunca associarei o que quer que seja à universalidade da epopeia dos descobrimentos. Conheço o suficiente de História para não cair nessa esparrela. Acontece é que não pertenço à confraria dos mortais de asas e vestidos de branco…

      Na minha óptica, o fenómeno em causa insere-se numa atmosfera fascista que – diz muito bem, já vem de longe – mas que hoje, na falta de atitudes correctivas contra tal gentalha, está em clara progressão, também por razões claras, mas que não V~em à discussão.
      Trump, o fascista do outro lado do Atlântico é hoje o padrão, dos fascistas ocidentais, que lutam contra imigrantes e imigração. E a ele, esta manada política da Europa presta vassalagem de um modo criminoso, embora, cobardemente vão dizendo dele “cobras e lagartos”. Uma espécie de “bate-me, beija-me” comum dos seres sem espinha dorsal.
      Portanto, quando António Costa fala em reunião horrível, isto quer dizer que à mesma mesa desta Europa decrépita se sentam pessoas normais e fascistas, o que representa bem o retrato da onda do politicamente correcto em que a sociedade se insere. O mesmo politicamente correcto que nos permite, entre muros, ter personagens políticos que não passam de fascistas reciclados (alguns mal) e outros que são socialistas envergonhados que travestiram o encarnado num qualquer rosa…
      E depois dão-se alvíssaras por termos mais um lídimo representante dessa confraria do “politicamente correcto” a liderar a Organização Internacional para as Migrações, como se se partisse do princípio que esta figura, que se tem revelado uma verdadeira “amiba social”, vá resolver alguma coisa.

      De forma que o meu caro amigo Bruno Santos misture todos estes ingredientes e perceberá porque chegamos a este ponto: há empresas privadas ditas de segurança, para as quais não há legislação, há quem, ao abrigo da lei (ao menos uma vez!) as possam contratar, há uma atmosfera política que absorve toda esta criminalidade social. Atmosfera política, onde se adoptou o politicamente correcto, como doutrina, para se deixarem as coisas como estão.

      Termino caro Bruno Santos. Aprendi, fruto da educação que tive e que muito respeito, que à minha mesa não se senta quem quer. E se a mesa não é minha, sou eu que me não sento, pois não fiz os convites e tenho consciência de opção.
      Desta forma não viria nunca para a praça pública falar de “reuniões horríveis”, o que representa, quanto a mim, um verdadeiro erro de casting de enorme irresponsabilidade.
      E é esta mentalidade que está na base da situação que muito bem descreve. E enquanto não houver uma solução que passe pela ruptura deste estado de “paz podre”, não vamos a lado nenhum. Seremos só e apenas “spins”, doutores ou não.
      Mas recuso-me a parar num qualquer Conselho de Administração.

      Cumprimentos.

      • Bruno Santos says:

        Caro Ernesto Ribeiro:
        Legislação: http://www.psp.pt/Pages/segurancaprivada/Legislacao.aspx

        Há um aspecto que o meu texto, de facto, não contempla. É a possibilidade – real – de a actuação do agente de segurança privada em questão não configurar qualquer crime. É o pior dos cenários, mas devemos contar com ele.

        • Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

          Caro Bruno Santos.
          A lei que me apresenta é de 2013.
          Contudo, recordo que em 17-11-2017 foi anunciado pela TSF (e seguramente outros órgãos) que :

          “17 de NOVEMBRO de 2017 – 14:39

          O ministro da Administração Interna informou que as propostas de alteração chegam às entidades até ao final deste mês. Responsabilização de quem contrata empresas de segurança deve constar da lei.
          O ministério da Administração Interna vai apresentar, no espaço de duas semanas, anteprojeto de lei que regula a segurança privada. O anúncio foi feito por Eduardo Cabrita, esta tarde, em Lisboa, no final do Conselho de Segurança Privada.
          “Tendo em conta as propostas e considerações feitas, será circulada por todas as entidades que aqui estiveram, até ao final do mês de novembro, de modo a que o processo legislativo permita que no início de 2018 a lei de segurança privada possa ser enviada à Assembleia da República para discussão e aprovação”, afirmou o ministro.
          Para já, sobre a proposta, nada de concreto, apenas a intenção do Governo de que o diploma faça uma clara distinção entre o que é a intervenção das forças de segurança, o que é segurança pública e quais as competências da segurança privada. Do diploma deve constar também um aprofundar da responsabilização das empresas e de quem as contrata.
          “Responsabilização conjugada, quer das empresas de segurança privada, quer também daqueles que beneficiam dos seus serviços”, disse Eduardo Cabrita, que fala ainda de uma maior fiscalização de todas as partes envolvidas: “Iremos revisitar os rácios entre pessoal de segurança privada e nível de frequência de instalações, iremos ter em conta as características diferenciadas da segurança num edifício de escritórios, num estabelecimento de diversão ou relativamente ao setor financeiro”.

          Repare que se fala em ante projecto, o que significa que muita água passará por debaixo da ponte até se transformar em lei. Acresce que não li mais nenhuma notícia sobre esta matéria, mas ainda há poucos dias ouvi o mesmo ministro repetir o que aqui vai escrito, presumindo portanto duas coisas:
          1 – A lei actual e que o Bruno Santos me enviou é um simples regulamento de organização e a definição dos atributos e competência é escassa.
          2 – Que a actual lei que, eventualmente, regula, nomeadamente …”as competências da segurança privada”… não existe, a que acresce a necessidade de “… aprofundar da responsabilização das empresas e de quem as contrata…”, o que vale por dizer que a situação actual é cinzenta e portanto, as eventuais responsabilidades a apurar serão nulas, bem à vontade dos nossos legisladores.

          Neste contexto, parece-me que a atitude bárbara do animal que se diz polícia pode ser defendida por um qualquer advogado sem consequências para o vil agressor. Estão protegidos pela “lei”.
          Gloria sic transit mundi …

          Cumprimentos..

  3. o Calcinhas do Dafundo says:

    É raro fazer-se essa destrinça.É raro ? Ainda não vi noutro lugar.
    A ideia hoje é rasurar todos os Alpedrinhas ganhando a vida por Alexandrias e Mokambos. Vieira e Pessoa condenados à fogueira dos tribunais da estória.

  4. Bento Caeiro says:

    “Querer transformar este episódio, de gratuita e bárbara violência, em mais um argumento em favor daqueles que lutam diariamente pela destruição da memória e do legado universalista português e o significado profundo da sua História, comparando-a à de qualquer Reich sanguinário e racista, é uma ignóbil traição, essa, sim, com laivos discriminatórios e até racistas, aos nossos valores civilizacionais autênticos e uma inaceitável falta de respeito pela dignidade histórica dos portugueses e de todos os povos em comunhão com os quais esses mesmos portugueses evoluíram no mundo.”

    REPRODUZO E APLAUDO, caro Bruno Santos, o que acima é dito. Desejando que as pessoas se apercebam, de quais são os verdadeiros objectivos e reais intenções dos vários Bandos da Confraria do Politicamente Correcto.

    • Paulo Marques says:

      Queremos que não seja normal dizer “Volta para a tua terra, preta de merda”. Somos pessoas horríveis, eu sei.

  5. Anibal Marques says:

    Felicito-o pelo texto. Não encontrei até hoje, alguém que escrevesse sobre agressividade e violência na vida social de forma racional. As pulsões e o imediatismo nas relações sociais são o padrão, maioritário, geral, na comunicação e na vida social.
    Todos os dias assisto às mais diversificadas atitudes e comportamentos de transgressão das normas mias básicas de convívio social e isso não tem de relação com a cor da pele. Tem relação com a educação cívica que manda ter atenção às regras e ao mais próximo (cidadão como eu).
    No caso, se as raparigas transgrediram as regras de posição na fila para o autocarro, todos os que sofreram essa transgressão porque estavam mais adiante na fila deveriam protestar sem ofender.
    Mas também se assiste com frequência que quem tenta valer a sua posição por direito, é enxovalhado e insultado por quem transgride.
    Quem usa o metro do Porto e os autocarros da cidade e arredores assiste todos os dias a comportamentos insólitos e perpetrado por gente verdadeiramente associal.

    • Bento Caeiro says:

      As atitudes de chico-esperto não têm cor nem sexo.
      Por vezes assiste-se a este tipo de atitude e, como é óbvio, às reacções mais ou menos agressivas de quem é prejudicado.
      A questão é que ultimamente desenvolveu-se um tipo de atitude – incentivado por essa gente do politicamente correcto – em que, quando o infractor é negro, asiático, este logo remata que está a ser objecto de atitude racista – obviamente se o opositor não o for.
      Em países como os EUA isto já se tornou comum e não existe acção contra negro que não tenha como resultado a acusação de racismo.
      Obviamente que, a maior parte de nós, já viu onde esta gente quer chegar: quer fazer-nos sentir mal, quer tolerância e impunidade. Fazendo que o acto que praticaram passe para segundo plano e de agressor passa a vítima – tal como se está ver.
      Mas nessa não podemos alinhar e também nos tem de levar a repensar o tipo de gente que queremos acolher entre nós. Estou no meu País entre os da minha Nação, com os nossos hábitos e costumes, pelo que quem estiver mal que se mude.
      E já vai tarde.

      • Paulo Marques says:

        E o velho rezingão nunca mais morre, irra.

      • Bento Caeiro says:

        Como filho do homem, comi do fruto da Árvore do Conhecimento e assim, apesar da oposição do vingativo e invejoso Yhvh – mas com o apoio dos magnânimos Maat e Enki -, comi dos frutos da Árvore da Vida; como tal, para degradado de muito filho da mãe, tornei-me eterno, como os Deuses.

        • Paulo Marques says:

          Não, Max Planck tinha mesmo razão sobre o avanço da sociedade, mesmo tendo restringido o comentário à ciência.

  6. Anibal Marques says:

    Não escrevi nada sobre cor de pele. Para mim isso não é relevante para a vida colectiva. Para mim é relevante a educação cívica que orienta os nossos comportamentos de vida em sociedade.
    Quando se insulta alguém fazer referência à cor da pele é uma redundância porque a cor é o que é. É a mesma coisa do que me apelidar de branco de merda. Há formas de insulto social que valem sempre em temo de conflito. Chama-se a torto e a direito Filho(a) da puta a qualquer um(a).

    • Paulo Marques says:

      Filho da puta é figura de estilo, tal como os australianos e parte dos britânicos chamam cunt aos amigos.


  7. Várias décadas após a morte de Bertolt Brecht podemos ainda afirmar:
    ” Ainda é fértil o útero de onde saiu a besta imunda.”

  8. Carlos Almeida says:

    Quando o Sr Bruno Santos é aplaudido por quem acha que os políticos são todos iguais, há qualquer coisa que não me cheira bem

    • Bento Caeiro says:

      Não completou a frase… são todos iguais, no que respeita aos fins e objectivos pessoais, mas há uns mais iguais e que cheiram mais mal que os outros, como são, por exemplo, os do PCP e do BE.
      É cá um fedor a cadáver !!!

      • Carlos Almeida says:

        Estimado Sr Bento Caeiro

        Ainda bem que esclareceu alguns mais distraídos.
        Eu já estava esclarecido há muito tempo e replicando o que outro bandido disse, não tenho duvidas e raramente me engano, com estes sintomas.
        Mas para tirar alguma duvida mesmo residual, faço sempre o que fiz e funciona sempre.
        Saem sempre do buraco

        • Bento Caeiro says:

          Para se esconder no buraco é preciso haver motivos para lá estar ou, então, o perigo ser de monta. Como é óbvio, gente como você ou aquilo que defende, não mete medo a ninguém – muito menos no que me diz respeito.

          Houve tempos em que algumas pessoas – nunca foi o meu caso – até pensavam que certos escondidos teriam algo de importante a dizer e a fazer, quando saíssem dos seus buracos; contudo, como se viu, só de lá saíram ratos e ratazanas asquerosas e esfomeadas, que foi necessário ir abatendo.

          • Paulo Marques says:

            “Como é óbvio, gente como você ou aquilo que defende, não mete medo a ninguém ”

            Você sabe lá, se calhar usa turbante, é mestiço ou fala numa língua estranha e você borrava-se mesmo todo.

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