5_5373 mundos

 

Desenho do autor

 

CAPÍTULO 5
Basilides Villanova: o nosso planeta

Ora, a alma – diz o nosso autor – está apenas parcialmente encarcerada no corpo, tal como Deus está apenas parcialmente confinado no corpo do mundo.
Carl Gustav Jung, Psicologia e Alquimia

 

-Porque trouxeste o Mocenigo?

-Foi ele que pediu para vir. Insistiu que queria falar com o Avô.

-Porque quiseste ver o Avô, Mocenigo?

Mocenigo não respondeu e virou a cara para a janela por onde começara nesse instante a entrar uma espessa faixa de luz. Cerrou as pálpebras por alguns momentos e fez uma inspiração muito funda, como se além do ar quisesse aspirar um pouco daquele Sol gigante para dentro dos seus pequenos pulmões.

-Porque vieste, Mocenigo? – Insistiu Basilides.

-Avô, qual é a última parte do Céu? – perguntou o pequeno, ainda antes de abrir os olhos.

Basilides conhecia bem esta rara capacidade do seu neto para desfazer num sopro a mais inexpugnável teoria do conhecimento. Embora tivesse apenas cinco anos, Mocenigo tinha apenas cinco anos. Agia e falava como falam e agem as crianças com a sua idade ou o mais cáustico discípulo de Lao Tsé. Um pouco desarmado pela pergunta, o velho Basilides não se deixou vencer à primeira e esboçou uma resposta.

-Sabes, Mocenigo, talvez não exista uma última parte do céu. É muito provável que haja outra parte depois da última e depois mais outra e outra ainda. Essas partes vão sendo cada vez maiores para lá caberem os sonhos e todos os mundos que se vão sonhando nas outras partes, que nunca são tão grandes que não possa haver uma ainda maior. Percebeste, meu filho? É assim como as bonecas russas…

Mocenigo enfiou o dedo no nariz enquanto finalmente abria os olhos e interrompeu a resposta do Avô.

-Estás com a cabeça na Lua, Avô? O Céu nunca acaba nem nunca começa. O Céu está nos nossos olhos. À volta da nossa cara. A nossa cara é o nosso planeta. Agora conta-me outra vez a história do Encantador de Cebolas.

 

Comments


  1. …esta sua atracção pelo belo horrível, Bruno Santos, inquieta-nos e demonstra tb a sua inquietação perante o inexplicável e o mundo surreal …ao qual pertencemos, noutra dimensão.

    Canção trágica e bizarra essa do vídeo ( Es un cuento de invierno una noche sin estrelas )

    No es el rojo del sol poniente
    La mancha en las sábanas de mañana
    No es el rojo de lo que sangramos
    El rojo de cabernet-sauvignon
    Un mundo en ruinas por nada

    No es ese rojo
    No es ese rojo
    No es ese rojo

    No es tan dorada como famosa lluvia de Zeus*
    No es no, en absoluto, viene de arriba
    Está a la vista, pero no es robada

    No es que el oro

    No es tan dorada como la memoria
    O la edad del mismo nombre

    No es ese oro
    No es ese oro
    No es ese oro
    No es ese oro en absoluto

    Deseo que sería su color
    Me gustaría que este fuera su color
    Me gustaría que este fuera su color
    Su color, Deseo

    Es tan negro como el cuadrado de Malevich**
    El horno frío en el que miramos fijamente
    Un tono alto en una escala futuro
    Es un cuento de invierno una noche sin estrellas
    Te queda bien

    Es ese el negro
    Es ese el negro
    Es ese el negro
    Es ese el negro

    Me gustaría que este fuera su color
    Me gustaría que este fuera su color
    Me gustaría que este fuera su color

    Su color, quisiera…

    E faz lembrar a designada “arte bruta”, a expressão pela arte das mentes dos chamados loucos …que veem e sentem para além do nosso suposto normal : ( les fous, les pauvres fous et la sagesse qu´ils nous enseignent )

    https://www.publico.pt/2016/07/25/local/noticia/coleccionadores-de-arte-levam-15-mil-visitantes-a-sao-joao-da-madeira-1739098

    • Bruno Santos says:

      🙂 na fronteira – sublinho fronteira – do Surrealismo, Antonin Artaud ou, para não ir tão longe, Álvaro Lapa. Mas o texto está no plano da infância e da cor absoluta: o branco.


  2. Sim, ” o texto está no plano da infância e da cor absoluta: o branco.”
    (branco, a junção de todas as cores, as cores do arco-íris que guarda na “última parte do céu” aquele tesouro que ninguém consegue)

    E Antonin Artaud mais que Álvaro Lapa, para mim .

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