7_5373 mundos

Sagres (Regressa)

CAPÍTULO 66
César

Um Anjo aproximou-se de mim e disse:
-Oh, desgraçado e insensato jovem! Oh, terrível condição a tua! Atenta na masmorra ardente que estás a preparar para ti, por toda a eternidade, e onde irá levar o caminho que prossegues.
Ao que respondi:
-Talvez tu queiras mostrar-me o que a eternidade me reserva, e juntos contemplaremos o meu destino para vermos qual será o mais desejável, o meu ou o teu.
William Blake, A União do Céu e do Inferno

-A tatuagem, para o homem arcaico, era um gesto ritual que assentava num princípio de sacralidade do corpo enquanto extensão e fala, Verbo, do Universo e dos Deuses. O corpo-templo era marcado por sinais iniciáticos, emblemas que o inscreviam num Cosmos significativo, cuja Ordem advinha de um significado, de uma pluralidade de significados coerentes.

Havia uma continuidade entre o mundo e o corpo, assim como entre o Espírito do Homem e o mistério Sagrado da Criação. A tatuagem, que por vezes esculpia a carne, era o sinal – ou os sinais – com que o Espírito registava no seu próprio Veículo os momentos-chave, os marcos arquetípicos da sua transformação, da sua crescente integração no Todo Sagrado e da sua união com a Alma Grande do mundo. Hoje, a tatuagem é um grafíti que suja o corpo como se ele fosse a parede de uma casa em ruínas. É a expressão tribal da absoluta descontinuidade entre o Corpo e o Cosmos e o registo indelével e subconsciente da profanação do Templo, da perda, quem sabe se irremediável, da ligação do Espírito ao mundo da Eternidade. Tem horas, senhor Drameille?

-É meio-dia, Padre Carranza.
-Tem alguma tatuagem, senhor Drameille?
-Tenho uma, no braço esquerdo.
-Permite-me que a observe?
-Claro que sim.

Drameille despiu o sobretudo preto de caxemira e levantou a manga da camisa até ao ombro, deixando exposto um braço fibroso, bastante maltratado, com marcas de fractura, várias cicatrizes e um buraco, junto ao cotovelo, que parecia ter sido feito por uma bala. Sobre o músculo deltoide lá estava a tatuagem antiga.

“Amor de Mãe”

-Pois saiba, senhor Drameille, que todas as tatuagens do nosso Tempo são simplesmente sucedâneos da grande marca da Morte. Aquela que consegue unir, no mesmo traço, o Céu e o Inferno.
-E que marca será essa, Padre Carranza?
-Você conhece-a, senhor Drameille. Chama-se Cesariana.

Comments


  1. …” Hoje, a tatuagem é um grafíti que suja o corpo como se ele fosse a parede de uma casa em ruínas. É a expressão tribal da absoluta descontinuidade entre o Corpo e o Cosmos e o registo indelével e subconsciente da profanação do Templo, da perda, quem sabe se irremediável, da ligação do Espírito ao mundo da Eternidade…”

    ) pois que as minhas ” tatuagens ” são cicatrizes na pele, e que me marcaram para sempre, sucedâneos de uma infância feliz vivida em espaços abertos em que brincar e saltar inocente e livremente e descobrir fazia parte da Vida e do Tempo ….e a Morte só existia na fantasia dos contos à lareira .

  2. Psicografo says:

    Pior, ou melhor,as tatuagens que o Tempo vai lavrando no mais íntimo.As que permanecem.

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