O Exame Final Nacional de Português do 12º Ano

O Exame Final Nacional de Português do 12º Ano (Versão 1) começa com a análise do único poema da Mensagem ao qual o autor, Fernando Pessoa, não atribuiu um título. Este poema aparece na TERCEIRA PARTE do Livro, no capítulo sob o nome de O ENCOBERTO e sob a designação II – OS AVISOS, a qual sucede a I – OS SÍMBOLOS e precede III – OS TEMPOS.

Nesta segunda secção (Os Avisos) da TERCEIRA PARTE, estão três poemas, ou seja, três AVISOS:

  • PRIMEIRO: O Bandarra
  • SEGUNDO: António Vieira
  • TERCEIRO: Sem Título (Screvo o meu livro à beira-mágoa) [O título encoberto deste poema é “Fernando Pessoa”, ele próprio Aviso e discípulo de António Vieira e de Bandarra]

O que se segue é uma breve análise dos critérios de correcção/classificação propostos pelo IAVE – Instituto de Avaliação Educativa, I.P., demonstrando que esses critérios estão, pelo menos parcialmente, errados.

GRUPO I
Apresente as suas respostas de forma bem estruturada

PARTE A
Leia o poema:

Terceiro

Screvo meu livro à beira-mágoa.
Meu coração não tem que ter.
Tenho meus olhos quentes de água.
Só tu, Senhor, me dás viver.

Só te sentir e te pensar
Meus dias vácuos enche e doura.
Mas quando quererás voltar?
Quando é o Rei? Quando é a Hora?

Quando virás a ser o Cristo
De a quem morreu o falso Deus,
E a despertar do mal que existo
A Nova Terra e os Novos Céus?

Quando virás, ó Encoberto,
Sonho das eras português,
Tornar-me mais que o sopro incerto
De um grande anseio que Deus fez?

Ah, quando quererás, voltando,
Fazer minha esperança amor?
Da névoa e da saudade quando?
Quando, meu Sonho e meu Senhor?

 

1. Caracterize o estado de alma do sujeito poético, expresso nos seis primeiros versos.

CRITÉRIOS ESPECÍFICOS DE CLASSIFICAÇÃO

  1. 16 pontos

Para caracterizar o estado de alma do sujeito poético, expresso nos seis primeiros versos, devem ser abordados os tópicos seguintes, ou outros igualmente relevantes:

‒  a dor/mágoa/tristeza/amargura manifestada pelo sujeito poético;

RESPOSTA:
Em nenhum lugar, nos seis primeiros versos, o sujeito poético exprime MÁGOA, afirmando, outrossim, que escreve o seu livro “à beira-mágoa”, ou seja, na antecâmara da MÁGOA, que não é, evidentemente, ainda a própria MÁGOA, mas um sentimento que se situa na sua fronteira exterior. A palavra da língua portuguesa cujo significado talvez mais se aproxime da expressão “beira-mágoa” é SAUDADE.

Em nenhum lugar, nos seis primeiros versos, o sujeito poético exprime TRISTEZA. Exprime, na verdade, um DESPOJAMENTO ontológico e uma separação definitiva da POSSE, Estado de Alma que define afirmando “Meu coração não tem que ter”, ou seja, já nada existe que queira POSSUIR, sua sede de Mistério não pode já ser saciada senão com a presença directa ante o próprio Mistério – o Senhor. Este Senhor não é uma entidade antropomórfica, nem um Deus, nem sequer um Rei. Ele é, sim, o próprio ENCOBERTO, ou seja, o AMOR. Esse AMOR é A PLENITUDE que enche os “dias” e os “doura”, ou seja, transmuta alquimicamente o “vácuo” – Chumbo – em PLEROMA, PLENITUDE – Ouro. Nada disto é dor/mágoa/tristeza/amargura. Tudo isto é Ritual Iniciático do Encoberto, RITO do V IMPÉRIO.

Em nenhum lugar, nos seis primeiros versos, o sujeito poético exprime DOR. A expressão, por mero exemplo, “tenho os meus olhos quentes de água” é uma referência à coniunctio oppositorium, à união entre o Fogo (quentes) e a Água, operação necessária à VISÃO do Encoberto. É verdade que são simbolicamente Lágrimas, mas plenas de Alegria e Esperança.

‒  a desilusão/frustração sentida relativamente à pátria do presente;

RESPOSTA:
Em nenhum lugar, nos seis primeiros versos, o sujeito poético exprime desilusão/frustração sentida relativamente à pátria do presente. Este tópico é simplesmente absurdo. O sujeito poético não refere  sequer a Pátria, a não ser mais adiante, e em registo simbólico, quando utiliza a expressão “Nova Terra e Novos Céus”, referindo-se à Jerusalém Celeste descrita no Livro do Apocalipse. E mesmo aí não exprime desilusão/frustração mas, pelo contrário, AMOR E ESPERANÇA. De qualquer modo, esta referência não está “nos seis primeiros versos”.

‒  a esperança na vinda do «Senhor», a qual preenche o seu vazio interior.

RESPOSTA:
Em nenhum lugar, nos seis primeiros versos, o sujeito poético exprime esperança na vinda do “Senhor”, tal como não afirma que essa “esperança” preenche “o seu vazio interior”. O que o sujeito poético afirma é a PRESENÇA do Senhor, PRESENÇA essa que, através do seu SENTIMENTO e do seu PENSAMENTO, torna cheio (pleno) e dourado aquilo que de outro modo seria apenas vácuo.

Em suma, a resposta correcta a esta pergunta (“Caracterize o estado de alma do sujeito poético, expresso nos seis primeiros versos”) não poderia sequer recorrer a “outros tópicos igualmente relevantes”, uma vez que os tópicos apresentados não têm qualquer relevância no entendimento da mensagem que o sujeito poético pretendeu transmitir. E como para serem igualmente relevantes, esses outros tópicos teriam que ser irrelevantes, não sobra senão a opção de responder sucinta e objectivamente com a verdade.

Que é a seguinte:
– O “estado de Alma” do sujeito poético, expresso nos seis primeiro versos, é a ADORAÇÃO.

CONCLUSÃO:
Em face do atrás exposto, afigura-se prejudicada a utilidade da análise aos critérios de correcção das restantes perguntas do Exame, critérios esses que se apresentam contaminados pelos mesmos vícios de interpretação da meta-linguagem presente na poesia épica portuguesa, nomeadamente a que nos foi legada por Camões e Pessoa, ou até na que dá corpo simbólico a poesia enquadrável noutros géneros, como são os casos, também presentes no Exame em questão, de Alexandre O’Neill e Eugénio de Andrade.

Comments

  1. Luís Lavoura says:

    Discordo do primeiro ponto. A expressão “à beira-mágoa” exprime, a meu ver, “dor/mágoa/tristeza/amargura”. Dizer que exprime “saudade” é perfeitamente ridículo, dado que a “beira-mágoa” pode ser causada por qualquer outra coisa (fonte de tristeza) que nada tenha a ver com saudade.

  2. ZE LOPES says:

    O melhor é perguntar ao próprio. Tá bem, o Pessoa já faleceu. mas muitos dos 2458 heterónimos recenseados ainda está vivo. É só procurar. Nos lares da terceira idade, por exemplo.

  3. Roberto Palos says:

    Dias vácuos, vazios… É uma festa!

    Por outro lado, é facto que se centra nos 6 versos iniciais, mas o resto do poema está fechado à resposta? Bom, não foi assim que me ensinaram, quando me remeteram para procurar a resposta na globalidade, mesmo quando centrada numa espécie de parcialidade.

    Um exercício de parvoíce!

  4. ZE LOPES says:

    O que me parece é que o autor dos critérios de correção é capaz de ter trocado as rimas. Senão vejamos:

    Screvo meu livro à beira-água.
    Meu coração não tem que viver..
    Tenho meus olhos quentes de mágoa.
    Só tu, Senhor, me dás ter.

    Só te sentir e te voltar
    Meus dias vácuos enche a Hora.

    (O resto não interessa, meninos!, São só os primeiros seis versos!)

    Assim já bateria tudo certo, pelo menos com o primeiro tópico.

    Quanto aos outros dois, com um pouco de boa vontade, também se lá chega. Por exemplo, quando o autor menciona os “olhos quentes” pode estar a referir-se à necessidade de consultar um oftalmologista e, por não ter possibilidade devido a eventuais listas de espera, estar desiludido com a pátria do presente.Pode ser um tópico relevante, atendendo a que o homem usava uns óculos um tanto fortes.

    Já alusão aos “dias vácuos” vai no sentido do seu preenchimento. Á falta do “Senhor” talvez o preenchimento se realizasse na tasca da esquina onde o poeta foi por várias vezes apanhado em “flagrante de litro”.

  5. o Calcinhas do Dafundo says:

    Parabenizo os exegetas pessoanos.
    Tem uma mina por aqui, excelente Bruno Santos.
    Sorte assim

  6. JgMenos says:

    ‘Meus dias vácuos enche e doura’
    Tanto bastaria para o choradinho da ‘dor/mágoa/tristeza/amargura’ ser despropositada.

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.