Os professores também se abatem!

 

Hoje, pela primeira vez, dir-lhe-ei algo que nunca ouviu: é elementar, meu caro Watson! Estes cadáveres que caminham são professores portugueses, digo-lho eu! Se caminham, não são cadáveres? Watson, Watson, há mais mundos, é preciso ver mais longe. Estes seres vagamente humanos e aparentemente vivos não só estão mortos como foram assassinados! É certo que nenhum clínico passará a certidão de óbito e nenhum detective reconhecerá o homicídio, mas é como dizia o outro: há mais mundos.

Pense comigo, peço-lhe. O que é um professor? É um licenciado numa determinada área científica e didáctica. Neste país de 11 milhões de habitantes, há cerca de 150000 professores. Sabe o que é curioso, no entanto? Neste mesmo país, todos os outros se pronunciam com grande desfaçatez sobre uma profissão que não desempenham, o que, de certo modo, como perceberá, é já uma inclinação para a agressão, para o crime, no fundo.

Ora, meu caro Watson, e perdoe-me o simplismo, se os cidadãos agridem os professores e sendo os ministros uma emanação desses mesmos cidadãos, o que há a esperar de um ministro que não seja a mesma tendência, a mesma agressividade? Os professores portugueses andam, pelo menos, desde 2005, a ser atacados. Tem razão, Watson: é sinal de um país que se suicida. Os portugueses têm um dito: elas não matam, mas moem. A verdade, Watson, é que tanto moer acaba por matar.

Na realidade, os cidadãos gostam de ministros marialvas, ignoram a destruição do sistema educativo, assistem impavidamente a agressões contínuas e ainda ficam aborrecidos quando a vítima se revolta. Neste ambiente, é fácil a um ministério aprofundar a desvalorização daquilo que é essencial na profissão, percebe? É um crime e os cúmplices, como acontece tantas vezes, são as pessoas que deveriam estar ao lado da vítima. O ser humano, Watson, é verdadeiramente fascinante.

A que propósito é que eu, Sherlock Holmes, resolvi intervir? Preguiça, meu caro Watson, pura preguiça: Portugal tem ou tinha um sol magnífico e este crime é facílimo de resolver, tão fácil que os culpados nunca serão castigados. Além disso, como sabe, sou uma personagem de ficção, ou seja, a pessoa ideal para falar do absurdo.

Comments

  1. JgMenos says:

    Quando num país na cauda da Europa se diz que há uma classe na vanguarda da Europa em mordomias, que haveria de esperar-se?

    • ZE LOPES says:

      Tem alguma coisa contra a cauda da Europa? Afinal quem é que tem o poder de sacudir as moscas à Merkel ou ao Macron? Que o diga o Passos Coelho, que até usou a cauda para aperfeiçoar o penteado do Schauble! Isso não conta?

      Agora a sério: V. Exa. tem toda a razão. Toda a gente sabe que os banqueiros, os Catrogas e os Mexias têm mordomias perfeitamente inqualificáveis! Um horror!

    • Paulo Marques says:

      Essas mordomias incluem pagar as próprias deslocações em trabalho por ninguém perceber que raio de recibo é que nós queremos.

  2. Maria de Fátima Silva says:

    Há 36 anos, quando comecei a trabalhar, os professores ainda estavam na moda. Ao longo desses anos, sucessivos governos “trataram-nos da saúde”: desvalorizaram o nosso papel na sociedade, auxiliados por alguns jornalistas medíocres, desculpem, mediáticos. E foi então que a população passou a olhar de soslaio para aquela pessoa que “tem muitas férias” (que são interrupções para os alunos e não para nós), pouco faz (afinal muitos pensam que cuidamos de crianças e não que ensinamos) e que ganha bem. Acredito que ainda haja bons e dedicados professores, que lutam sem se deixar abater, porque trabalho todos os dias com eles. Mas estamos cansados e tão desvalorizados que, temo, só quererá abraçar esta nobre missão quem não conseguir notas para profissões mais aliciantes sob o ponto de vista do status e da remuneração.

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