Está madura a seara da terra.

Portugal acaba de dar uma grande lição à República Francesa, Alma Mater do Iluminismo e berço triádico da Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

A Senhora Le Pen, lá na França maçónica, pode ser candidata à Presidência da República e até conquistar 30% dos votos. Mas isto aqui não é a França. Aqui há uma Constituição da República – a nossa Bíblia laica – e insignes constitucionalistas nas redes sociais e nas praias do Algarve, que aliás acham que a presença da Senhora Le Pen na tal Web Summit seria uma violação da Lei Fundamental. Uma inconstitucionalidade.

Exactamente.

E, aliás, aquela citação que aí anda do Voltaire, é falsa. Toda a gente sabe isso.

Na verdade, Marine Le Pen é perigosa. Não porque veicula um discurso que coloca em causa a paz social, ou seja em si mesmo uma violação da lei. Caso assim fosse, bastaria deixá-la falar e a seguir fazer actuar as autoridades judiciárias e judiciais. Marine Le Pen é perigosa porque o seu discurso germina como eucaliptos em terra queimada e os seus opositores têm medo do confronto directo. E a razão desse medo reside na sua má consciência, no facto inegável de terem sido eles que queimaram a terra e a prepararam para que, agora, Le Pen e Bannon – o grande maestro – possam semear e colher com abundância. Bem sabemos que a senhora Merkel é agora uma excelente pessoa, que até teve a gentileza de oferecer ao Ministro das Finanças português uma cadeira de ouro no Eurogrupo. Mas isso em nada altera a intencionalidade dos seus actos e as consequências das políticas que impôs e impõe a países como Portugal, onde, aliás, encontrou fervorosos apoiantes, por acção ou omissão.

O Nacionalismo Económico e Populista, representado por Le Pen, é uma consequência directa do proto-fascismo camuflado que o mainstream político adopta com assinalável satisfação, quando, por exemplo, estende o período experimental de um trabalhador por seis meses, concede poderes de autoridade policial a grupos privados de segurança, ou aniquila e privatiza serviços essenciais do Estado.

Agora vão colher os frutos.

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    Grande artigo, Bruno!
    Você tem dias arrasadores.

  2. Paulo Marques says:

    Espera aí, a presença é uma inconstitucionalidade? Isso tem que ser explicado, porque uma coisa é o discurso, que ainda nem foi feito, outra é a presença numa cimeira onde não faltam filhos da puta.

    • António de Almeida says:

      O Bruno está obviamente a ser irónico, a sra. Le Pen vem a Portugal sempre e quando quiser, por ser cidadã francesa. Tem esse direito, só não percebe quem não quer. Diferente seria se viesse de fora do espaço Schengen, assim…

  3. whale project says:

    A mulher tem direito a cá vir. Por mim pode vir lavar as banhas no mar que eu prometo que não a tento afogar. Não tem direito é a vir vomitar ódio num evento onde poderá ser seguida por milhões de pessoas. gente dessa já temos cá que chegue, como muito bem disse o articulista. Vomite o ódio lá na terra dela e quem não a conhecer que a compre.
    E quando tiverem expulso todos os negros e muçulmanos vão eles trabalhar para os restaurantes, a indústria pesada, etc… Vergar a mola? Ninguém na Europa do Norte gosta, ao contrário do que dizem os nossos autoflagelantes, e para isso estão lá, para além dos aludidos, os gregos e os tugas, flagelados pela austeridade considerada por tanta gente dos nossos próximos países como necessária para a expiação dos nossos muitos pecados.
    Daqui partiram mais de 500 mil pessoas nos anos da troika, outros mataram-se, outros morreram de doenças perfeitamente curáveis porque os cortes na saúde transformaram os hospitais públicos em pardieiros. Na Grécia um terço da população entre os 15 e os 29 anos já se largou embora. Continuamos a achar normal e lógico tudo o que de mal se fez por cá, o que se continua a fazer, a barbaridade sem armas que se está a coimeter por lá. Acham mesmo que ainda precisamos de uma besta como a Le Pen a botar faladura no palco da Web Summit? Não nos chega o André Ventura? O Rodrigues dos Santos? Os comentadores de serviço nos grandes meios de comuni~cação? Chegam perfeitamemte. fala-se tanto na necessidade de limitar as importações. Vamos lá exportar essa malta para França e Norte da Europa. Talvez uns tempos a viver lá como estrangeiros lhes abra horizontes. Quanto à Le Pen, se simplesmente quiser vor a banhos e mamar uns copos de bom vinho português para aliviar o azedo será sempre bem vinda.

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