Tudo bons autarcas II – ‘pra cima de 300 polvos

Portugal é um país onde ainda existe muito medo de escrutinar o poder. Não faltam machos latinos para insultar homossexuais nas redes sociais, fascistas de armário a clamar por Salazar ou fanáticos preparados para tudo se a honra do seu clube for questionada, mas quando chega a hora de escrutinar o senhor ou a senhora presidente, que tão reverencialmente cumprimentamos no final da missa das 11h, tendemos para comer, engolir e calar.

Porque somos fáceis, e porque os predadores políticos sabem que somos fáceis, a corrupção acontece. Acontece em todas as estruturas estatais, da base ao topo da pirâmide, com maior ou menor descaramento. E porque o descaramento faz parte da equação, nada melhor que gerir uma pequena autarquia, onde o respeitinho que é bonito abunda e o senhor ou senhora presidente é intocável e acima de qualquer suspeita.

Outros factores contribuem para facilitar o trabalho do autarca corrupto: o facto de pessoas em posição de poder precisarem dele, os jobs que têm para distribuir pelos seus boys e girls, as licenças e licenciamentos camarários, o poder do autarca junto do governo e de outras estruturas de poder, a gestão fiscal e a chave do cofre público, apenas para citar alguns. Mais do que reforçar o seu poder, estes factores contribuem para controlar uma parte da população, que depende da autarquia para trabalhar ou investir, fidelizando, desta forma, uma parte do eleitorado. E não são só os beneficiários do tráfico de influência e da corrupção que, desta forma, ficam “presos” ao poder local. São também familiares e amigos que, por sua vez, poderão também eles próprios tornar-se bons discípulos.

Uma vez eleito, o autarca corrupto terá que pagar favores. Pagará àqueles que lhe foram mais leais e próximos, com cargos de chefia, avenças chorudas ou protagonismo partidário, pagará aos financiadores de campanha com ajustes diretos para publicidade, obras públicas ou outras prestações de serviços, pagará à miudagem da jota com estágios e pequenos tachos, não raras vezes criados para a ocasião, e pagará a jornais alinhados e agitadores virtuais, pelo serviço prestado na difamação dos opositores e na conversão dos indecisos. Estaria tudo bem se fosse o partido a custear estas recompensas, porém, o serviço é prestado aos donos do partido, mas a factura fica sempre a cargo do município, o que equivale a dizer a cargo dos nossos impostos.

Para se manter no poder, o autarca corrupto ver-se-á “obrigado” a usar também o nosso dinheiro para alimentar a sua máquina de propaganda. Isto faz-se através de jornais de fachada, que no fundo não passam de folhetins partidários, sustentados por ajustes directos para publicidade e prestações de serviços que, em muitos casos, não chegam a acontecer. Faz-se também através de perfis falsos e páginas nas redes sociais, supostamente apartidários, que falam a língua do poder, partilham os seus conteúdos nas redes sociais, atacam e difamam adversários e críticos e recebem do saco azul, em cash. Faz-se ainda em inaugurações transformadas em comícios, passeios para idosos a fazer lembrar aqueles embustes para vender aspiradores e facas japonesas ou através do controle de grandes associações locais, com ascendente sobre centenas, às vezes milhares de pessoas. A propaganda é essencial para alimentar o culto do chefe, e os nossos autarcas parecem apreciar e conhecer bem essa faceta dos grandes ditadores do século passado.

Existe um ciclo vicioso, com décadas de existência, cujo objectivo é manter, durante o máximo de tempo possível, uma casta no poder. Um ciclo de estruturas públicas dirigidas e ocupadas por pessoas nomeadas pelo poder, de ajustes directos para amigos e familiares, de obras públicas concedidas sempre aos mesmos, de prestações de serviços prestados por empresas diferentes controladas pela mesma pessoa ou família próxima do poder. Um polvo imenso que controla autarquias inteiras, que promove o despesismo e a má despesa pública, que transfere o nosso dinheiro para os bolsos da entourage dos pequenos tiranetes da política autárquica e que gere recursos em função dessas minoritárias elites, subvertendo a essência da democracia. Um polvo poderoso, sem escrúpulos ou vergonha na cara, que juntamente com os outros polvos subtrai, todos os anos, centenas de milhões de euros ao erário público.

O polvo autárquico, qualquer que seja a sua cor, é inimigo do povo português. Como tal, combater esta raça criminosa é um imperativo patriótico, porque o polvo é nocivo e deve ser abatido. Sem contemplações.

E por onde começar?

Pela plataforma Base: contratos públicos online. Nunca ouviu falar? Então talvez esteja na hora de lhe fazer uma visita. Estou certo que encontrará vários ajustes directos suspeitos, cujos beneficiários serão militantes do partido no poder, familiares e amigos dos militantes dos partidos no poder e colegas de partido de outras paragens, mais ou menos distantes, a quem regularmente se compram e vendem favores. E quanto mais escavar, mais porcaria vai sair dali. Experimente, vai ver que não custa nada. E, quem sabe, ainda traz um polvo para o jantar.

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    “Para cima de 300 polvos”, que contrariamente ao verdadeiro, o molusco, de preferência à lagareiro, este não minga na cozedura. Tem até características bem distintas do outro. Este incha na cozedura, pondo em risco a panela. Com a excepção do “ferrado” que o outro lança para se dissimular dos predadores marinhos, estes lançam nebulosas tramóias, nos munícipes, para ocultarem tão deliciosas negociatas. Umas festas no Verão, com o Tony Carreirão, dão um jeitão,…isto para terminar tudo em ão.
    Portugal é isto. Um país de marinheiros, onde não podia faltar o “Polvo”, à mesa da política, não fossem eles todos (quase), uns miseráveis esfomeados.

  2. Ana Moreno says:

    Sobre este assunto é que seria bem-vindo um pronunciamento do sr. Presidente da República, era ou não, João?

    • vitor manuel andrade silva marques says:

      talvez essa resposta do PR fosse em forma de selfie, não estaria mal.

  3. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    Discordo do termo “autarca corrupto” e explico porquê.
    O referido autarca faz o que a lei lhe permite. Logo a corrupção não é autárquica, mas estatal. O problema de fundo desta dita democracia, visivelmente podre, está na lei e nos conluios entre parlamentares e sociedades de advogados que legislam no seu próprio interesse. Esse é o poder e a verdadeira corrupção.
    O autarca é o pião do jogo de xadrez que os políticos corruptos jogam.

    Chamar o Sr. Presidente a pronunciar-se? Só se for com uma câmara na mão para tirar uma selfie enquanto goza com a nossa cara.
    Ele não sabe do que se passa? E se entende estar calado, algo que nele é profundamente difícil, é porque o facto o arranja.

    Não é o autarca que é corrupto. O autarca faz aquilo que uma lei corrupta e legisladores corruptos deixam fazer.

    Por isso, continuo na minha. Votar, sim, mas mandá-los a todos para o sítio que lhes compete.

  4. Ana Maria says:

    É importante referir que, apesar da obrigatoriedade de publicação dos contratos na base.gov.pt , nenhuma autarquia publica todos os contratos. Mas não lhes acontece nada.

  5. Ana Moreno says:

    João, precisavamos de iniciativas destas: https://opencollective.com/fearlesscitiesbrussels#about

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