O “Robles” da descentralização

Debate na Antena 1. Imagem. Clique para aumentar.

 

Há algumas semanas, o presidente “socialista” da Câmara de Gaia e do Conselho Metropolitano do Porto – Victor Rodrigues de sua graça – fez um grande alarido a propósito do acordo de descentralização firmado entre a Associação Nacional de Municípios Portugueses (ANMP) e o Governo do PS. Além de atacar o governo do seu próprio partido com acusações várias, o autarca de Gaia atacou também, do modo agressivo e insensato que o caracteriza, os seus camaradas socialistas e restantes autarcas que dirigem a ANMP, fazendo-lhes as mais variadas imputações, entre as quais a de que este acordo só descentralizava o “pessoal da limpeza”, era um “presente envenenado” e fazia dos autarcas como ele meros “tarefeiros”.

Ainda hoje, em debate com Ribau Esteves transmitido em directo pela Antena 1, o autarca de Gaia teve mais uma oportunidade de exibir a sua arrogância e a sua presunção, sustentadas não se sabe bem em que qualidades. Não foi capaz, contudo, de adiantar um único argumento – sublinhe-se, um único argumento – em favor do seu modelo de “descentralização” e de “emancipação dos municípios”, seja lá o que isso for, além daquele que repete, de modo obsessivo: quer ter mais poder. Apenas isso. Mais poder e mais dinheiro. Quer “emancipar-se”, como ele próprio afirma. Deu-se, neste debate, o caso bizarro de termos, de um lado, um autarca do PS a atacar o governo do seu próprio partido, e do outro, um autarca do PSD, Ribau Esteves, a defendê-lo.

Este desejo ardente de Victor Rodrigues pelo poder e pela emancipação é tão intenso e insólito, que o leva a atacar o governo do seu próprio partido, colocando-se sob o comando político de adversários do PS, como é o caso do “independente” Rui Moreira, Presidente da Câmara do Porto – um dos mais ferozes adversários desta Lei -, numa matéria fundamental da acção governativa e num momento político decisivo, com a aproximação da discussão do Orçamento de Estado e já em plena pré-campanha eleitoral. Ribau Esteves, autarca de Aveiro, chegou a perguntar, durante o dito debate na Antena 1, se não estaria em formação um novo partido em Gaia, intuindo aquilo que alguns sabem há muito. O facto é que Gaia, a maior câmara socialista a norte do Tejo, que serviu de trampolim a Víctor Rodrigues para um conjunto impressionante de outros cargos políticos, vai recusar participar no processo de descentralização proposto pelo governo do próprio PS, facto que configura por si só uma traição política inédita e ajoelha o PS Porto perante Rui Moreira, que sai sorridente e triunfante deste jogo de baixa política. Pelo caminho, é também Vila Nova de Gaia que regressa ao plano da subalternidade regional, colocando-se novamente sob o comando estratégico e político da cidade do Porto, humilhação de que, apesar de tudo, o anterior presidente de Câmara, Luís Filipe Menezes, não pode ser acusado. Menezes manteve sempre uma grande independência estratégica em relação ao Porto, nunca permitindo que Gaia andasse a reboque ou fosse subalternizada pelas opções políticas e ambições hegemónicas da cidade invicta.

Acontece ainda que este repentino herói da descentralização – Víctor Rodrigues mais parece, na verdade, um Robles mal disfarçado, se atentarmos na quantidade impressionante de cargos que passou a concentrar em si mesmo desde que foi promovido, pelo mesmo PS que agora ataca, de presidente da junta de freguesia de Santa Eulália de Oliveira do Douro, a presidente de uma das maiores Câmaras socialistas do país. Senão veja-se: este descentralizador concentra tão somente a presidência da Câmara de Gaia, a presidência da Área Metropolitana do Porto, a presidência da Assembleia Geral da Turismo Porto e Norte, a vice-presidência da Federação Distrital do Porto do Partido Socialista, a presidência do Conselho Fiscal do Clube de Futebol de Oliveira do Douro, a presidência da Assembleia Geral da Federação das Colectividades de Gaia. É ainda membro do Conselho Superior do FC do Porto e do Secretariado Nacional do Partido Socialista.

Como é que alguém pode levar a sério um político que pratica precisamente o contrário do que apregoa? Que espécie de descentralizador é este e que credibilidade se pode atribuir ao que diz, quando exige aos outros que actuem politicamente de um certo modo, dando ele próprio o exemplo contrário? Será uma espécie de Robles, do “olha para o que eu digo e não para o que eu faço”, ou a aplicação prática à política e à ética republicana do princípio do lava-loiça Fairy Limão ultra-concentrado – lava mal, mas limpa tudo?

O que daqui resulta é uma evidente perda de credibilidade do tradicional mas anacrónico discurso regionalista e caceteiro, contra a macrocefalia do Estado e o centralismo lisboeta, ficando claras e à vista de toda a gente as verdadeiras intenções destes falsos “descentralizadores”, que nada mais buscam e perseguem do que a concentração de poder em si próprios, sendo-lhes absolutamente indiferentes os princípios que devem nortear as políticas nacionais de coesão territorial e solidariedade nacional.

Comments

  1. Delfim Loureiro says:

    Este artigo, de opinião, confunde e mistura assuntos e conceitos absolutamente distintos, discriminando quem tem opiniões dissonantes em relação ao partido a que pertence, independentemente do interesse das populações.
    Parece um artigo encomendado, com fins bem precisos e definidos…

  2. Bruno Santos says:

    Agradecia que desenvolvesse: qual é a confusão e quem fez a encomenda. Obrigado.

    • Paulo Marques says:

      Pode começar por explicar o que é o Robles tem a ver com o assunto e como é que não arranjava 99% do PS como exemplo melhor.

      • Bruno Santos says:

        99% do PS pertence ao respectivo Secretariado Nacional?

        • Paulo Marques says:

          Não comprava um livro usado a 99% dos elegíveis Socialistas, tá melhor assim?

          • Bruno Santos says:

            Não, não está. Mas fiquei esclarecido.

          • Paulo Marques says:

            Mas não fiquei eu; tendo um partido com tantos casos de, para ser simpático, gritante falha de ética e vai buscar um caso de quase coisa nenhuma, só se for para quem lê começar a questionar tudo o que você já disse sobre o visado.

          • Bruno Santos says:

            Deve questionar. Foi para isso que nasceu.

  3. César P.Sousa says:

    ” …ambições hegemónicas da cidade invicta.”
    O D.Quixote tambem via perigo nos moinhos de vento,e nessa altura ainda não se fumavam charros.
    A “corte lisbonense” aprecia muito estas invejazitas caseiras do
    Norte de Portugal.
    “BIBÓBENFICA”

    • Bruno Santos says:

      Caro senhor, o uso humano da Cannabis Sativa remonta, pelo menos, ao terceiro milénio a.C., ou seja, para lhe facilitar as contas, há mais de 5 mil anos. Cervantes nasceu em 1547 d.C.

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