Ainda a questão da Hora Legal

A questão da mudança da hora, recentemente suscitada pela Comissão Europeia, passou por aqui sem grande discussão ou esclarecimento público, pelo menos sem a discussão e o esclarecimento que eventualmente mereceria, para além do referendo digital que, alegadamente, veio estabelecer uma opinião maioritária dos “europeus” sobre o tema. E, ao contrário do que possa parecer, o tema é muito importante: o Tempo abstracto. Pois foi a criação do Tempo abstracto que, ainda antes da invenção do relógio mecânico, fundou as bases do capitalismo e, em grande medida, a subjugação do Homem ao poder de outros homens.

A coisa parece ter começado no interior dos mosteiros beneditinos, onde uma premente necessidade de Ordem levou os monges a estabelecer uma divisão do dia em partes iguais, assinaladas pelo badalar dos sinos. No século VII, o Papa Sabiniano decretou a divisão do dia em sete partes, ordenando que os sinos dos mosteiros tocassem sete vezes a cada vinte e quatro horas. Estas sete badaladas ordenavam toda a vida do mosteiro e estabeleciam um ritual que se impunha aos processos vitais e biológicos. Eram as horas canónicas.

O relógio é a máquina mais importante da era industrial moderna. Foi determinante na criação de uma “segunda natureza” humana, principalmente no Ocidente, oposta e incompatível com a verdadeira natureza, ao ponto de passar a dominar as próprias funções orgânicas. Não comemos quando temos fome, mas quando “são horas” de comer. Não dormimos quando temos sono, mas quando “são horas” de dormir. O relógio biológico passou a ser dominado pelo relógio mecânico. A vida passou a ser um fenómeno rítmico artificial imposto por uma máquina criada com o propósito de ordenar o Tempo, forçando o Espírito e o Corpo a uma artificialidade ritual peremptória, sob a qual Espírito e Corpo se mecanizaram e se entregaram, quase sempre sem o saber, a uma perpétua e rotativa escravatura. Foi (é) este, aliás, o grande instrumento opressor do capitalismo. Sem este domínio sobre o Tempo abstracto, nunca o capitalismo exerceria sobre os homens o imenso poder que exerce, poder esse que se amplia com a “mecanização” radical do Espírito humano, levada a um grau de abstracção inédito pelos poderes subtis do capitalismo digital.

Jamais o Homem será livre, no sentido nobre do termo, enquanto não reencontrar o seu Tempo e de novo tomar consciência e posse do seu pulsar interior. Sem relógio. Infelizmente, parece já ser tarde.

 

Comments

  1. Torquato says:

    Felizmente estou reformado e como quando tenho fome, durmo quando tenho sono e tomo o pequeno almoço às 05.00 h

  2. Rui Naldinho says:

    Bom artigo, Bruno. Em especial ao Domingo, dia em que por norma acordamos mais tarde, almoçamos mais tarde, quiçá tantas outras coisas serão feitas mais tarde.
    “Dispensam-se pormenores!”
    Aquilo que escreve pode parecer uma provocação, mas na realidade não o é. De forma genuína penso o mesmo.
    Se o capitalismo introduziu de certa forma a ditadura da hora, o consumismo, veio dar-lhe “um rosto democrático”.
    Como nós adoramos a democracia burguesa, eu incluído, só nos podemos queixar de nos próprios.
    Como o Torquato insinua:
    Restamos esperar pela Reforma, para voltarmos um pouco às origens.

    • Bruno Santos says:

      🙂 a própria Reforma é uma invenção do tempo abstracto. Ou seja, resulta de uma imposição da Máquina. Mas é o que temos.


  3. “(…) Infelizmente, parece já ser tarde.”. Felizmente, Bruno Santos, discordo de si, neste ponto e não lamento. A meu ver,o seu texto está , no mínimo, Mt Bom ! (1 Bom Domigo, p/ si & os seus ).

  4. Rui Alexandre says:

    Certeiro, façamos o tempo a nosso favor…

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