O truque

 

Imagem daqui: http://vagueando.forumeiros.com

 

O ethos que caracteriza o nosso actual universo cultural, social e político é o resultado das profundas transformações operadas nesses três níveis da ordem colectiva, determinadas pela imposição, à escala global, de um modelo de civilização que desvalorizou radicalmente o ser vivo e o conceito ecológico e homeostático de sociedade.

No que toca ao poder político – subsidiário do poder financeiro -, estabeleceu-se o princípio de que à Ética, enquanto super-estrutura filosófica e operativa que dirige o pensamento e a conduta, era exigido um alargamento do seu repertório de possíveis, no quadro de uma reinterpretação dos limites da Ética da Responsabilidade, expandindo-os até que estes coincidissem geometricamente com os limites da Lei. Assim se obteve, através desta coincidência, a equiparação prática entre aquilo que é aceitável, do ponto de vista da Ética, e aquilo que é Legítimo, do ponto de vista do Direito.

A partir do momento em que é socialmente aceite que Ética e Lei sejam coincidentes, o valor abstracto da primeira dissolve-se no poder material da segunda, passando a Conduta a ter como único e exclusivo vigilante a figura do Legislador. Daí que seja fundamental, aos que sentem a sua conduta oprimida pelo espartilho filosófico e operativo da Ética, agora dissolvida na Lei, exercer sobre esta total soberania, tornando-a matéria plástica, moldável ao sabor da sua ordem.

Chama-se a isto barbárie.

Comments

  1. José Alberto Mar says:

    pois é, pois É,
    Bom fim de semana
    &

    bom início da Primavera !
    -.-
    (tive que ir lá 😉 https://pt.wikipedia.org/wiki/Ethos)

  2. antero seguro says:

    Parabéns. Excelente texto.

  3. Paulo Marques says:

    Onde isso já lá vai… não é a lei que dita a ética, são os mercados.

    • Bruno Santos says:

      Os seus comentários são sempre um ensinamento. Muito obrigado.

      • Paulo Marques says:

        Eu não estou a discordar do meu Gaiense favorito (bem, talvez), de todo, estou a teorizar sobre a principal razão pela qual o assunto não é visto como sendo importante.
        Nos casos em que chega a ser importante para o discurso público há outra razão, o clubismo, mas é sintoma do mesmo cada um por si relativista que vende o neo-liberalismo.

  4. JgMenos says:

    Esquece-se o autor de estabelecer o quanto da lei é negado pela ética de uns tantos grupos para quem a homeostasia é o oposto de um progressismo sem limites, que nem à ciência cede quanto mais à ética.

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