Os métodos do PS Porto e a memória da PIDE IV

“Ter sempre na memória o mártir Jacques de Molay, Grão-Mestre dos Templários, e combater, sempre e em toda a parte, os seus três assassinos – a Ignorância, o Fanatismo e a Tirania.”

Lisboa, 30 de Março de 1935
Fernando Pessoa

Fui membro, como já aqui escrevi, do Grande Oriente Lusitano, Maçonaria Portuguesa, desde o ano de 2003 até ao ano de 2012. Saí, como talvez se possa verificar através da leitura do texto que se segue, visivelmente desapontado, não propriamente com a natureza da Ordem (A Maçonaria), mas com o comportamento e as verdadeiras intenções da maior parte dos seus membros.
Ao contrário do que afirmam repetidamente os seus dirigentes, a Maçonaria, tal como está hoje representada no Grande Oriente Lusitano, não busca o aperfeiçoamento do Homem, nem pertence à chamada Tradição Iniciática. É, pelo contrário, um grupo essencialmente político que envergonha e compromete essa Tradição.

A “Prancha” que aqui reproduzo na íntegra, datada de Outubro de 2011, foi por mim apresentada na cerimónia de inauguração da última Loja a que pertenci, cujo nome omito e da qual fui um dos fundadores, já na fase final do meu percurso na Maçonaria, quando a decisão de sair estava já tomada. Esta Loja era composta, na sua quase totalidade – julgo que eu próprio seria a única excepção -, por antigos membros de uma outra “oficina”, a Loja Estrela do Norte, actualmente uma das maiores e mais poderosas Lojas maçónicas do país, composta maioritariamente por políticos e homens corruptos, que nasceu da iniciativa de um ferreiro e que é, na verdade, uma organização fascista.

Estou hoje convicto de que uma boa parte das razões que fazem do nosso país um covil de corrupção, injustiça, ignorância, fanatismo e tirania, não se deve directamente à Maçonaria, mas tem origem nela e nos grupos conspirativos que a habitam e cujo poder se estende a todas as estruturas políticas e sociais da República. Este problema é antigo. Alguns filósofos do assunto chamaram-lhe, quanto a mim bem, Contra-Iniciação.

Aprendi algumas coisas na Maçonaria, mas há uma que suplanta largamente todas as outras, pelo seu valor humano, pela sua relevância vital e pelo seu poder transformador: a maior desilusão da vida de um homem deve por ele ser aproveitada para dar mais um passo no caminho do aperfeiçoamento. A Maçonaria foi para mim essa desilusão e representa para mim esse passo.

Convido, assim, à leitura.

 

 

Ven... Mestre,

Meus IIr…. em todos os vossos GGr… e QQ…

O Levantamento de Colunas de uma Resp… Loja com o nome de (…) é, antes de mais, tendo em conta o momento particularmente delicado que vive a República Portuguesa, um acto de relevante significado simbólico.
Esse simbolismo reflecte, não só a iniciativa cívica e maçónica dos seus fundadores, mas a predisposição para ler na história do presente os sinais e as dinâmicas que no passado inauguraram importantes transformações sociais, cuja urgência, como é bem visível, se renova nos dias de hoje.
Deve esperar-se, contudo, que os agora fundadores da R…L…. (…) saibam, desses sinais, separar os funestos dos de bom augúrio, e buscar um destino imediato mais feliz do que aquele que achou os revoltosos de então.
Experimentando Portugal, neste momento, os efeitos devastadores de um Ultimatum, corporizado numa acção concertada e global de verdadeiro terror social, é necessário que o português ainda vivo e aceitavelmente livre, busque no fundo da sua alma a força necessária para prosseguir o seu caminho, sobrevivendo, adaptando-se e defendendo a integridade que resta ao Corpo e ao Espírito da República.

É imperioso que esse português reflicta nas curvas do caminho que o trouxe até aqui e, necessariamente, que procure antecipar aquelas que o conduzirão ao futuro, para que a ele possa vir a chegar vivo e com a dignidade mínima que a qualquer ser humano, ou a qualquer Nação, se impõe reclamar.
É possível que um país arrastado até uma encruzilhada como esta, por meio de uma estratégia ou de um acaso, dependendo da credulidade de cada um, que visa exaurí- lo de todas as suas forças físicas e morais, se perca nas mesmas dúvidas, sofrimentos e hesitações que qualquer um de nós, individualmente, enfrentaria em idênticas circunstâncias. Perante o abismo ou o desconhecido, perante o retrocesso civilizacional e o terrorismo social e de Estado, e colocada a intransigente necessidade de permanecer caminhando, adaptando-se o melhor que se saiba e possa às circunstâncias ora adversas, cabe tanto ao indivíduo como à Nação e até, permitam-me, à N…A…O…, fazer uso do mais claro e recto Pensamento e da mais clara e recta Acção correspondente. Só nesse pressuposto é admissível a esperança. Só esse estreito caminho conduz à desejada libertação.
A esta Acção recta, espelho leal do Pensamento recto que a confronta, chama-se Ética.
A Ética, MMQQIIr, não é nem uma ciência, nem uma super-estrutura discursiva ou mesmo ritualista com que tantas vezes se disfarça a incapacidade de agir correctamente.

A Ética é a correspondência Geométrica e Analógica entre o Pensamento e a Acção, quando ambos se fundam na hegemonia absoluta da Consciência e do Dever. São, portanto, a Consciência e o Dever os mais fiáveis motores do progresso e da transformação da sociedade humana, e são eles que, alicerçados na Vontade, devem conduzir e iluminar o Maçom na sua acção sobre o mundo. 
Não sendo a Maçonaria imune a esse mundo, também o mundo não é, obviamente, imune à Maçonaria. O pensamento e a acção de cada Maçom são simultaneamente causa e efeito do jogo de correspondências, complementaridades e contradições que se dão entre ele, o Maçom, e o microcosmo onde evolui. E a Loja é o palco-símbolo desse fluxo constante, eterno, em resultado do qual se opera, ou se pretende que opere, a elevação Moral e Espiritual do Obreiro e o aperfeiçoamento da Humanidade de que é parte, tal como o expressa claramente, aliás, a Constituição do Grande Oriente Lusitano.

Mas esta elevação, este aperfeiçoamento progressivo, dependem, antes de tudo, de uma perda. De facto, ao Maçom é exigido que se liberte do erro e do preconceito, das paixões que o cegam e da matéria imperfeita e pesada que antes da Iniciação formavam o homem profano que ele foi, mas que depois dela, ou seja, depois da morte simbólica desse mesmo homem, do seu sacrifício a um bem maior, devem dar lugar à revelação da essência, a um ser em subtilização e progresso, movimentando-se na direcção de mundos mais elevados, onde a tal transformação espiritual possa revelar-se gradualmente.

É no caminho para esta elevação, claramente designada também no artigo 3º da Constituição do Grande Oriente Lusitano e sustentada na Tradição Iniciática da Maçonaria, que o Maçom identificará o Dever como motor da Acção recta e guia infalível do Pensamento.
Não encontrará, contudo, um mapa que o guie por essa estrada, por esse caminho de encruzilhadas, além daquele que o Tempo, o Trabalho e a Vontade desenhem na sua Consciência. Não são os livros, nem os dogmas, nem as doutrinas, nem as eloquentes proclamações, por mais nobres que pareçam, que fazem de um homem profano um ser desperto. Nem mesmo os rituais, que não passam de muletas dramáticas e inúteis simulacros da verdade, para quem não os vive com a totalidade do seu Corpo e da sua Alma.
E nada adianta à elevação do Espírito, antes a atrasa, a ilusão de que a Loja possa servir de purgatório e o ritual de instrumento de catarse moral ao Maçom cuja conduta, profana ou maçónica, se baseie no interesse próprio e egoísta, na influência comercial ou política, nos jogos de poder, pequenos ou grandes, ou na conspiração mesquinha dos passos perdidos. Nada adianta porque, muito embora seja direito e dever do Maçom transpor para o mundo profano, através do modo como nele opera, a sua vivência Maçónica e a reflexão que sobre ela faz, observando, obviamente, o sigilo com que se comprometeu, essa vivência deve corresponder a uma transformação genuína, deve resultar de uma verdadeira e profunda meditação sobre os mistérios de Si, da Ordem e do Mundo.

Sem isso, sem essa coragem de morrer, sem essa vontade de progresso e evolução no caminho do Dever, do Pensamento recto e da Acção recta, nada sobra ao Obreiro para além daquilo que muitos clubes, associações cívicas ou partidos políticos oferecem aos seus sócios e militantes a troco de um pagamento mensal em dinheiro.
Não cabe no Espírito Maçónico, na sua Tradição ancestral, no seu Dever de lealdade para com todas as manifestações de Vida e Luz, na Terra e no Universo, e por maioria de razão, no seu Dever para com a Humanidade, importar para o seio do Templo os vícios e os erros que dominam o mundo profano. Não é compreensível, à Luz tanto do Espírito como da Letra da nossa Lei, que qualquer Obreiro, por mais alto que seja o grau que o decore ou o estatuto que julgue possuir, se sirva da Maçonaria para a prossecução de propósitos e interesses próprios, sejam eles materiais ou de qualquer outra espécie, e use a sua Loja e os seus Irmãos como instrumentos de promoção e afirmação social, material, ou outras. Menos compreensível é ainda que os use como colunas doutrinais ou filosóficas dos crimes que comete, tal como sucedeu recentemente, de forma trágica e dolorosa, na fria e distante Noruega. 

É, nesse sentido, indispensável a reflexão sobre os critérios que têm estado na base da admissão de profanos à Nossa Augusta Ordem e até sobre os exemplos de comportamento cívico e ético que esses profanos, uma vez iniciados, recebem dos seus Irmãos. Se o caso norueguês, pela sua brutalidade, é um exemplo extremo e, felizmente, raro, talvez não sejam tão raras quanto isso certas condutas questionáveis, para usar um eufemismo, que alguns dos nossos Irmãos têm no mundo profano. E não é aceitável que, apesar dessas condutas, que em alguns casos resultam objectivamente no prejuízo de outros Irmãos e da sociedade profana em geral, o Obreiro prevaricador prossiga tranquilamente a sua catarse ritualista e esquizofrénica, bastando para isso que coloque um avental e conheça algumas palavras mágicas, toques e sinais,  já vazios, contudo, de qualquer verdadeiro significado.
É notoriamente excessivo o relativismo com que se encara, quer a Constituição do Grande Oriente Lusitano, documento cuja profusão de artigos promove desde logo esse mesmo relativismo, quer o seu Regulamento Geral.

É mais do que excessivo, chegando a ser intolerável, a forma como se viola o Segredo Maçónico em nome de interesses imediatos e puramente tácticos que, podendo eventualmente servir de panaceia momentânea às nossas ambições pessoais, revelar-se-ão definitivamente comprometedoras dos fins a que se destina a Maçonaria.
Lembremos que não há um grama de dignidade que separe o Grão Mestre do mais anónimo e humilde obreiro, cuja Obra tem como fim constituí-lo Mestre de si próprio, para lá de todas as convenções, independentemente de falsas hierarquias que lhe queiram sugerir ou impor. À Luz desta realidade, não é compreensível nem aceitável que um Maçom se perpetue no lugar para o qual foi eleito na sua Loja, por três, quatro, cinco, seis mandatos, sem permitir a si próprio a indispensável experiência noutras tarefas igualmente nobres e necessárias, e aos seus irmãos igual possibilidade de expandir a sua própria experiência e progredir no caminho do aperfeiçoamento. Essa é uma deturpação teocrática e ditatorial da Tradição, um regime de pensamento único, perigoso, muito enraizado, como sabemos, no mundo profano, mas que não é legítimo em Maçonaria, lugar por excelência da partilha de experiências, da Liberdade, do Progresso e da Fraternidade.

Não são aventais caros, alfaias de lantejoulas ou medalhas de duvidosas conquistas que fazem um Homem Livre e de Bons Costumes. É a Liberdade e os Bons Costumes.

Bruno Santos 
11 de Outubro de 2011 (e…v…)

Comments

  1. JgMenos says:

    Nenhuma regeneração virá da Ordem Maçónica do puteiro de que boa parte dos seus membros são parte integrante.

  2. amiguel says:

    Agradeço, sinceramente, a oportunidade de ter lido e aceito essa “Prancha”.
    Passei por semelhante caminho, quando estive numa “Loja”. Saí …. não voltando. Apenas umas 3 vezes , por convite, fora de Portugal, estive presente numa “reunião” como maçom.
    Razões iguais ou semelhantes me levaram a afastar-me, lamentavelmente, por que o que vi em muitos, foi um oportunismo incrível, na construção de uma vida própria e nada solidária.


  3. confesso que não percebo patavina do assunto, embora tenha lido o texto c/ a devida e bem merecida atenção.

    Mas,,, no fim fique interrogado q.b. ( e desculpe-me o autor do texto, a sua incisiva & esclarecida explanação e, já agora, também a sua salutar inclinação tendensiosa 😉

    Mas, onde está a voz do povo, no meio de tantas paisagens mafiosas e louváveis ?

    P.S. desculpem a aparente desordem, mas hoje bebi 1 copito a +. Era domingo!.

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.