A náusea

Antes que do cadáver social em que se transformou Portugal se volte a fazer qualquer coisa parecida com um país, muitos anos e até gerações hão-de passar. Embora seja sem surpresa – para alguns – que se alcançou este estado, a visão da decrepitude cívica, social e política, o aroma do medo, da ignorância que cresce como uma conspiração, e do desprezo pelos mais básicos valores de uma civilização digna desse nome, não deixa de comover quem um dia tenha ganho consciência de que um país não pode ser uma latrina, uma sociedade um saco de bufos, ou uma República um covil de ladrões. Ladrões que o que mais roubam nem é o metal que compra o luxo ou o privilégio injusto, mas a singela esperança de um dia podermos vir a ser, enquanto comunidade, algo mais que uma espelunca moral.

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    Excelente.

  2. Maria João Caeiro says:

    Arrepia, de tão verdadeiro que é…


  3. . …”Ladrões que o que mais roubam nem é o metal que compra o luxo ou o privilégio injusto, mas a singela esperança de um dia podermos vir a ser, enquanto comunidade, algo mais que uma espelunca moral….”

    Bem haja e bem aja sempre assim, Bruno Santos, por estas suas palavras que me fazem sentir que afinal vieram mais cinco e mais cinco mil virão para reconstruirmos essa singela e vital esperança inerente à nossa dignidade em comunidade que nos está sendo roubada, sim, por cidadãos de um país nosso invadido por tais ervas e vermes daninhos, peste, hienas e escorpiões …até mumificados !

  4. JgMenos says:

    Quando, como diz o autor mais acima, se qualifica a decência pública como afectando «o puritanismo hipócrita de alguma elite», quando todo o restolho, todo o rebotalho, tem que ter estatuto de cidadania, que outro sentir haverá na cidade senão a náusea?
    Fala-se em moralismo mas raros são os enunciadores de princípios morais e arrisquem ser alvo do cinismo ‘progressista’.

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