Câmara Clara

Não seria de espantar se um dia chegássemos à conclusão evidente de que a grande maioria das pessoas que temos ouvido opinar sobre a “questão Mapplethorpe” ouviu pela primeira vez falar do artista há quinze dias.

A verdade é que a sua obra circula há várias décadas por galerias e publicações, sendo que, no anos 80 e 90 do século passado, não era incomum encontrar fotografias de Mapplethorpe em revistas como a Photographie Magazine, a Photo e outras dedicadas à arte fotográfica. Se realmente se verificava haver um certo pendor homoerótico no trabalho do fotógrafo, nunca, ou quase nunca, as suas imagens mais chocantes eram dadas à estampa, ficando reservadas para circuitos mais restritos de “especialistas” e “admiradores”. E não era por acaso. E talvez não seja  também por acaso que o director demissionário do Museu de Serralves não fez o favor de indicar – nem precisava de as divulgar – as imagens alegadamente censuradas pela administração do Museu. Para que todos pudessem ver, com os seus próprios olhos, que espécie de “coerência estética”, de “fio condutor da obra como um todo”, de “lógica interna” do trabalho do artista e da exposição em causa estariam a ser escondidos por uma seita “puritana” que se recusa a conferir dignidade institucional ao estupro da dignidade humana. Porque é isso que está em causa. Mapplethorpe fez fotografias engraçadas, com boa luz e com um grau de provocação passível de atingir, de facto, o puritanismo hipócrita de alguma elite. Mas ele foi muito mais longe do que isso. Há exemplos do seu trabalho que são brutais exercícios de violência sobre a dignidade não apenas de quem estava no momento a ser fotografado, mas de todos aqueles que nele, ou nela, se vêem representados e atingidos no âmago da sua condição humana. E quando um “artista” , para expressar a sua arte, necessita de exercer sobre os outros tal grau de violação, pouco o separa já da condição de um criminoso, tudo o separa da essência metafísica da Arte.

O tempo de Mapplethorpe foi dado a excessos vários. Diz-se que Alice Cooper arrancou em palco a cabeça de uma galinha à dentada. Outros comeram as suas próprias fezes. Zappa teve que depor ante o Congresso americano por causa das letras das suas canções. Morrison chegou a ser detido em palco. E outros fizeram coisas ainda mais originais, no sentido de originalidade que foi conferido à Arte pela errónea ideia de libertação individualista, trazida por leituras distorcidas da Psicanálise e por uma dinâmica auto-destrutiva muito característica da civilização ocidental, reforçada por alguma imprevidência no contacto com substâncias químicas de origem sintética fornecidas por uma farmacopeia sempre atenta às necessidades involutivas do presente.

É esse caldo de relativismo, devidamente preparado ao longo de séculos, que nos traz hoje sedentos de “imagens chocantes”, para que ao menos o degredo, a repulsa e o pântano escatológico onde chafurdamos preencham o gigantesco vazio que somos por dentro.

Comments

  1. Ana A. says:

    Na mouche!

  2. Fernando Manuel Rodrigues says:

    100% de acordo.


  3. (no confessionário)

    confesso a minha ignorância acerca do assunto em epígrafe. mas, não posso deixar de confessar, igualmente, que me cai que nem gingas uma prosa assim como esta. Grato, pois claro.

    • Nascimento says:

      Bagaço , bagaço é melhor..eheheheh, e vai ver que o prior também diz umas coisas “JEITOSAS”! A malta é nã intende mas que tá bem dito sim senhor” Siga!

  4. JgMenos says:

    «E outros fizeram coisas ainda mais originais, no sentido de originalidade que foi conferido à Arte pela errónea ideia de libertação individualista, trazida por leituras distorcidas da Psicanálise e por uma dinâmica auto-destrutiva muito característica da civilização ocidental, »

    Gostei muito deste bocadinho…
    Como se a civilização ocidental se definisse pelos seus críticos, pelos que a rejeitam, ou pelos tarados e chicos-espertos que das liberdades fazem a libertinagem.

  5. JgMenos says:

    Quando, como diz o autor mais acima, se qualifica a decência pública como afectando «o puritanismo hipócrita de alguma elite», quando todo o restolho, todo o rebotalho, tem que ter estatuto de cidadania, que outro sentir haverá na cidade senão a náusea?

    Fala-se em moralismo mas raros são os enunciadores de princípios morais e arrisquem ser alvo do cinismo ‘progressista’.

    • ZE LOPES says:

      Este mundo está perdido! Realmente é cada vez mais difícil ser “enunciador de princípios morais”. Por isso é que há tão poucos a exercer a profissão. Aliás muito mal remunerada, tenho de confessar. E muito precária: o que hoje é um princípio amanhã já não é. Fruto da frenética evolução da sociedade nos nossos dias. Mas também o facto de receberem à percentagem também não ajuda nada.

      Só meia dúzia se governam da coisa. São os do “Observador” apoiados que são por nobres mecenas que não querem continuar a ver a humanidade a afundar-se. Principalmente aquele tipo da “Logoplaste”. Se a humanidade se afundar deixa de se vender detergente. Pode ser dramático!


  6. Reli em silêncio este seu óptimo texto/análise e em silêncio fiquei a reflectir nesta verdade pungente que tão bem nos apresenta, Bruno Santos e que a sua cultura acima da média medíocre dominante permite e tão claramente sabe exprimir.
    Bem haja por ter levantado a fasquia sobre este assunto/episódio aqui no Aventar, esta a minha opinião e sentir, que me anseio longe do pântano em que nos querem formatados vazios por dentro. Obrigada.

    • Bruno Santos says:

      Não sei ler nem escrever, Isabela. O mais que faço é soletrar. E nem isso com talento que se registe.

  7. Nascimento says:

    ” a repulsa e o pântano escatológico onde chafurdamos preencham o gigantesco vazio que somos por dentro.”
    Muito Bom . Um verdadeiro Autoretrato do Senhor Bruno. E, já agora, para ” percebermos ” o que o senhor Bruno nos diz eis o primeiro mas bastante significativo ” Engano”: ” Photographie Magazine, a Photo e outras dedicadas à arte fotográfica” !!! Pois é! Estas duas revistinhas sempre estiveram ” ligadas” foi
    ” arte” dos que sempre adoraram olhar pelo buraquinho da fechadura… e desse modo, dizerem-se fotografozinhos nas horitas vagas.
    No fundo o que eles e elas sempre quizeram era verem auma BELAS MAMAS ,UNS ZÉZITOS, GENTE DOS MOVIES, Etc.
    É que, ao contrário da postada, a dar pró entendido/ moralista/ tretas, já nesse Tempo havia outras Revistas e Poches ( acabados de nascer em França), que Contaminavam ( E AINADA BEM), dando a conheçer ,em todos sentidos , Artistas como por exemplo Paulo Nozolino. Só que aqui no burgo tuga …niente, pá!
    O problem?Bem, o problema é que hoje, como nesse tempo, há sempre uns Coirões pudicos que preferem SEMPRE ESPREITAR PELO BURACO DA AGULHA E DAR UM ” AR”, OU SE QUISERMOS DAR UNS ” BITAITES”, N Ã É SENHOR BRUNO?
    Mas, a melhor é esta :”E quando um “artista” , para expressar a sua arte, necessita de exercer sobre os outros tal grau de violação, pouco o separa já da condição de um criminoso, tudo o separa da essência metafísica da Arte.”
    UI,UI,UI, Ó BRUNO NÃ ENTRE MAIS EM NENHUM MUSEU KA INDA TE ENGASGAS! EHEHEHEHEH ELES ESTÃO CHEIIINHOS DE ” VIOLAÇÃO” ! NÃO SABIAS? MAS, GOSTEI DESTA:
    A ” ESSÊNCIA METAFISICA DA ARTE?
    QUE PROFUNDO! DEVE TER ” CUSTADO ” UMAS HORITAS PARA TROVARE QUESTE PAROLE!!! APLAUSO, JÁ !( AS TITIS PRIMEIRO!)
    Ó senhor bruno…

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