O fio de Ariadne

A Civilização é um termo que procura definir o modo como ao longo do tempo as comunidades humanas se organizaram e evoluíram a partir da construção de cidades – a civitas. Um dos símbolos mais antigos da cidade, que a representa não apenas como projecção do esforço humano de organização e povoamento, mas como reflexo da relação do Homem com o mistério do mundo e o mistério de si mesmo, é o Labirinto. Na tradição que nos chega dos tempos e lugares clássicos, no meio desse Labirinto vive um Touro – o Minotauro.

A tourada pode vir a ser proibida por inúmeras razões, mas nunca pelas “civilizacionais”, evocadas, certamente por precipitação, pela senhora Ministra da Cultura, uma vez que a luta simbólica entre o Touro e o Homem representa a própria ideia de civilização.

Aliás, muitas das correcções “civilizacionais” que têm vindo a realizar-se, quase sempre em nome de uma projecção higienizada do Homem, assentam na devastação da sua memória simbólica e na destruição das referências que lhe conferem identidade e diferenciação. É um trabalho de reconfiguração da sua antropologia psíquica, levado a cabo através de uma violenta correcção ortopédica do Inconsciente individual e do Inconsciente colectivo, cujos resultados vão ficando visíveis um pouco por todo o lado. Não deixa, contudo, de ser espantosa a alegria com que se conduz este barco à deriva.

Comments

  1. Ana Moreno says:

    “Uma vez que a luta simbólica entre o Touro e o Homem” … é como dizes, Bruno, simbólica. Ou o circo é imprescindível? 🙂 Aliás, o Touro na actualidade chama-se Neoliberalismo.

    • Bruno Santos says:

      🙂 acontece, Ana, que o Símbolo suplanta a realidade. Já imaginaste o que seria substituir a águia do Benfica por um Melro?

      • Ana Moreno says:

        Isso mesmo Bruno, suplanta a realidade e exactamente por isso não tem de ser a realidade; a águia do Benfica é um símbolo; o jogo no campo é a realidade.
        Pensando bem, actualmente, o Touro, nesse sentido mitológico, é a extrema-direita, a força bruta e destruidora.

        • Bruno Santos says:

          Pedro Almodovar fez um magnífico filme sobre este assunto: “Fala com ela”.

          • Ana Moreno says:

            Vi o filme, muito bom, mas não vi lá isso. 🙂 Subjectividades…

    • Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

      Desculpe Ana.
      O touro (da tourada) somos nós. O neoliberalismo é o cavaleiro, os bandarilheiros e o toureiro que dá a estocada final.
      O forcado, nesta imagem, representam as forças que lutam cara a cara com o touro, tentando abrir-lhe os olhos relativamente ao perigo que passam. Uma espécie de pausa para lembrar a força. Mas acaba sempre sendo o parente pobre do “espectáculo”.
      A ministra, tal como qualquer PS neoliberal demonstra bem a sua sensibilidade e sobretudo a sua incapacidade de se adaptar a um mundo em mudança. Tourada para a senhora, é civilização. É, sem dúvida, a civilização dela. Pode ser que um dia destes, ela nos venha falar da inquisição, a propósito de cultura … da cultura dela.
      Destes “socialistas” há que esperar tudo.

      • Ana Moreno says:

        Também é uma perspectiva Ernesto, não digo que não quanto a sermos touro embandarilhado, antes concordo.

        Estava a situar-me no universo mitológico do post que se refere ao Minotauro (força bruta e cega) e nem sei o que disse a ministra.
        Mas afinal, a extrema-direita parece-me mais adequada como representante do Minotauro neste ponto a que chegámos; sendo que foi parida pelo Neoliberalismo.

        • Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

          Compreendo muito bem a analogia que fez com o minotauro
          Mas a postura da ministra da cultura é lamentável

          • Ana Moreno says:

            Não sei, mais me parece daquelas coisas que são empoladas para distrair; trata-se apenas de um IVA, não de proibir touradas, que eu tenha percebido. Lamento que haja muita coisa bem mais digna de ter IVA reduzido do que as touradas e não o tenha. E vice-versa. Prefiria que este grau de indignação se dirigisse por exemplo à EDP e tivesse consequências.

  2. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    Ana Moreno
    Não, não, refiro-me às declarações da ministra “Tourada é cultura”. Quanto ao IVA … não valerá a pena discutir quando temos, como muito bem diz o caso da EDP, bem mais premente, bem mais envolvente e significativo.
    Para mim, a única tourada que se transformou num acto cultural, são os debates entre os papagaios na assembleia da república onde podemos ver pessoas que o povo elege a comportar-se como um vulgar adepto de futebol de uma qualquer claque … legalizada. E digo cultural porque nos permite ver quão baixo desce a escumalha política.

    • Ana Moreno says:

      Ernesto Ribeiro, estamos de acordo 🙂 bom fim de semana 🙂


      • ei pessoal ! trata-se apenas de um IVA, não de proibir touradas, como diz a Ana.

        tanto mundo, tanta inquietação, tanta causa a defender e a reflectir e gastardes tempo e pensamento discursivo com ivas a touros e companhias manel-alegre politik do alto da sua cátedra de vaidades ? que pior que um pateta alegre convencido, são dois ou três patetas reunidos, e ainda haver quem lhes dê ouvidos !

        • Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

          Mas quem fala em proibir touradas? Leu o que se escreveu sobre o assunto? A frase é simples e é da ministra : “Tourada é cultura”… dito sem IVA

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